Lugares | 69 horas em Roma

Dezembro 19, 2006


Foto: M.C. – Coliseu de Roma (Dezembro de 2006)

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Lugares | Colors of India

Dezembro 16, 2006

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Foto: V. G. – 12 de Dezembro de 2006


Script # 36 | A Maldição de Adamastor

Dezembro 15, 2006

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Foto: M. C. – detalhe do Palácio da Pena (Sintra)

Sou forçada a dar a mão à palmatória e a constatar que é verdade, sim: por mais estranho e inconcebível que nos possa parecer, alguns humanos corações preferem para si a maldição de Adamastor. E vivem de bom grado e sem grande fadário, sim, o tormento que até a um gigante de pedra consumia: o cerco próximo do intangível.


«As portas que batem / nas casas que esperam»

Dezembro 15, 2006

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Foto: Vik Muniz in Aldina Duarte

Há alguns dias que esta imagem me arranha, daqui e dali.  Alocou-a Aldina no seu blog. Colocou-o lá e costurou-lhe na baínha um poema de Maria Judite de Carvalho, a que faz muito tempo não ouvia ninguém fazer alusão. Não sei falar, e na verdade nem muito importa que fale, do efeito perturbador que me causou.  Ao limite, sei bem o quanto são insondáveis as razões dos interpelos. O que é certo é que já passaram alguns dias – dias cheios, de tudo e de nada, como é próprios dos dias e da gente, dos dias que quase toda a gente tem: eu sem excepção –  e, ainda assim, a imagem não me larga, antes persiste no interpelo: AQUI


Mood

Dezembro 14, 2006

Fim do dia – Apenas uma súbita e desavinda vontade de me desfazer em lágrimas. Apenas uma brutal vontade de me partir em pranto. E chorar muito, muito. Por todas as coisas e por nenhuma em especial. Só uma vontade. Esta vontade. De borbotar e escorrer. De fluir. De ser caudalosa. De cometer um acto mais líquido e forte. De chorar como quem transborda. E depois assinar por baixo: “Eu”.

* Foto: Hudlu


Fundos de Açúcar

Dezembro 13, 2006

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Eu gosto de reparar nas pequenas coisas suspensas nas coisas mais banais do dia-a-dia. Não sei bem se será por gosto, se será por não conseguir evitar essa quase involuntária atenção que lhes presto.

Hoje, por exemplo!… Gosto de café. Toda a gente sabe que amo o cheiro e o sabor do café. Gosto, pois, do prazer inexplicável de uma chávena da café. E como sucede com todas as coisas, gosto muito e gosto muitas vezes. Mas depois também gosto logo, também gosto agora e já, como igualmente me sucede em relação a quase tudo o que gosto. Assim sendo, tenho por hábito ter sempre café feito, em casa. Café com que vou enchendo a caneca e aquecendo no micro-ondas. Também gosto de beber sempre pela mesma caneca, o que equivale a dizer que a caneca é sempre a mesma e o café se vai revezando lá dentro. Soma-se ainda a esta quantidade de peculiaridades totalmente irrisórias a meu respeito uma irremediável preguiça para afazeres domésticos, particularmente gritante no caso de todos aqueles que passem pela cozinha. Ora, o micro-ondas está na cozinha, que apesar das excentricidades que me apontam, ainda não me deu para o instalar nem por cima da caixa do correio, nem ao lado da banheira. Está, portanto, como a maioria dos micro-ondas, instalado na cozinha. É quanto baste para, ainda que artificialmente, me surgir associado no subconsciente a essa zona de alarme e alergia que me aguça a preguiça, no que toca aos afazeres domésticos. Fica assim explicado por que razão, mesmo tendo o café fresco, acabadinho de fazer, como um dos meus prazeres de eleição, me resigno muitas vezes a esta coisa de beber café requentado da cafeteira.

Há bocado, apeteceu-me café. Já me tinha apetecido outras vezes, esta manhã. Mas há bocado apeteceu-me mais. Lembrei-me da cafeteira cheia e, entre a preguiça e a vontade, senti-me satisfeita com a imediatez e a facilidade de ter à mão tudo o que precisava para satisfazer o desejo. Repeti, portanto, o gesto:  peguei na caneca, levantei-me, fui até à cafeteira, repus o nível de líquido no seu interior, meti-a no micro-ondas, rodei o botão, tamborilei os dedos na bancada durante os breves segundos que demorou a aquecer, esperei pela campaínha, retirei a caneca, deixei cair só uns pequenos grãos de açúcar e voltei com ela para dentro.

Quando a levei à boca, porém, e o café me chegou aos lábios, o sabor era intragável e o prazer nenhum. Amargava de tão doce! Refiz mentalmente o processo de preparação da nova caneca de café. Tinha a certeza de que não deixara escorregar mais do que uma ínfima quantidade de grãos de açúcar lá para dentro…. E então?! O que sucedera? Que foi que tinha corrido mal?… Voltei à cozinha. Despejei o café no lava-loiças e fiquei a vê-lo escoar pelo ralo a baixo. Inclinei a caneca ligeiramente. Uma vez vazia, deixava ver um fundo semi-cristalizado de várias camadas de açúcar acumuladas durante a manhã, em resultado de todas as vezes que a enchi e tornei a encher. Abri a torneira, passei-a por água. Voltei a recordar-me do sabor intragável que me deixara na boca o último golo. Aumentei a potência do jacto de água. O fundo voltou a mostrar a superfície de porcelana a brilhar de limpa e vazia. Repeti a operação de a encher com café e de outra vez a aquecer. Voltei a tamborilar os dedos sobre a bancada, voltei a esperar o som da campaínha, a retirá-la de dentro do micro-ondas e a regressar com ela para dentro. Voltei a levá-la à boca. Desta vez nenhum doce a amargar nos lábios. Perfeito! Tal e qual como se quer, pensei.

E, no entretanto, fiquei eu a registar a ocorrência, fiquei eu a pensar que o fenómeno talvez seja passível de ser transposto para a vida, em geral. Não é bom encher e tornar a encher por cima de um conteúdo que se esvaziou. Porque há sempre sobras de açúcar que se vão acumulando no fundo e sucede que esse fundo de açúcar acumulado é o que nos há-de mais tarde amargar, intragável, quando mais uma vez nos roçar os lábios. 

E quando dou por mim, passei o resto da manhã a equacionar mentalmente a lista das coisas que devo urgentemente passar por baixo de um jacto de água que lhes limpe o fundo. 

Saio decidida a não enrolar o dia e voltar o quanto antes para casa, assustada com a quantidade de coisas que se foram acumulando à espera que eu as passe pela torneira.


Vidas que não andam juntas

Dezembro 11, 2006

À entrada da semana: prometo fazer o meu melhor para que o efeito dos meus entusiasmos e afazeres me deixem também algum tempo a ti. Garanto! Ou não garanto. Prometo! Ou talvez seja melhor não prometer. Espero! Ou talvez seja preferível nem esperar. De coração. Com intenção. Um belo projecto de intenção. Mas então ocorre-me que de intenções está o Inferno cheio e anda o mundo farto! Melhor nem abrir a boca, não dizer nada. A ver vamos, como será. A ver vamos no que dará. Que seja, acima de tudo, mais uma semana cheia de afazeres e entusiasmos! Mesmo que o tempo falte. Ainda que o tempo só chegue para aquilo que tem importância.


Ilustração dos dias

Dezembro 11, 2006

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Foto: Ferro@Fogo@Faísca – prints & collages (dezembro 2006)

Na sequência de vários emails e interpelações, perguntando o que é feito de mim, e na impossibilidade de responder um por um como seria mais correcto da minha parte, cito uma expressão que Grande Loba costuma usar: «sumiços são necessários para crescer coisas crescidas».
Assim sendo, em conclusão “e passando ao resumo” (desta vez como Red Bull gosta de dizer, com a devida vénia e o devido crédito de autoria), eis o que andei fazendo com o tempo na última semana. Esclarecidos?


«Muito Louca»

Dezembro 11, 2006

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Foto: E. Weston – Sad Spring

Assim, sem mais nem porquê, Grande Loba tinha o hábito de citar de cor delirantes passagens de Alice no País das Maravilhas. Nunca percebi se, de algum modo, eu lhas inspirava, mas desconfio que por sempre ter sido assim e lhe estar na estéctica ou na natureza, eu sei lá. Essas tiradas entravam nas conversas, umas vezes de rajada, outras mais de mansinho, invadiam as falas, atravessavam a sequência dos discursos – vindas não se sabe de onde, para alcançar não sabe o quê –  e largavam-se em seguida, ora de fininho, ora abruptamente. Deixas sábias, a interpelar o cérebro como um jogo hábil, insinuante de rumos e verdades essenciais, a que sempre eu tentava ser atenta, mesmo quando me pareciam totalmente desprovidas de nexo e ligação. Espantava-se, Grande Loba, muitas vezes com a minha memória tão presente dos pequenos detalhes solúveis dessas narrativas da infância que, por norma o passar dos anos crescidos vai descolorindo e ratando. Espantava-me eu também, com a nitidez precisa com que me afluiam na lembrança, a cada toque que as evocava.
Muito, muito louco!… Tudo muito louco. Sempre.

Mas isso foi antes. Antes deste tempo de agora, deste tempo em que depois caí e teimo em me demorar, pueril e inconsequente, constrangedoramente banal e sem graça, de tão presa a frases básicas, palavras frouxas, atavismos fúteis, gestos frugais, emoções medíocres, tudo isto bem embolado num quotidiano cretino, requentado, mastigado e servido frio num prato de inox, pobre em nutrientes e vitaminas, sem sal nem pimenta, sem açúcar nem canela, que lhe dêem sabor ou condimento. Faltam-me as especiarias. Faltam-me as “especialidades”!…

E se me ocorre tudo isto agora, é porque (apesar de tudo) a saudade nunca me deu descanso e não pára de me morder. 
A saudade… Que saudade!…
… Quanta saudade, dessa órbita desmesurada onde tudo era grávido e grande, onde tudo era nobre e superior.
Como a loucura e os seres muito loucos.


«… you see?»

Dezembro 10, 2006

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 Faz tempo (anos!…) que sigo o trabalho de minha amiga Dani, o report na web a compensar-nos os hiatos incontornáveis que a distância impõe sobre tanta água atlântica que nos fica de permeio.  

Nos últimos dias, tenho reparado em consonâncias estécticas que talvez sejam muito mais do que isso, na verdade. Porque da mesma forma que o que diverge acaba se distanciando e excluindo lentamente dos dias, pela soma de opostos e não-coincidências partilhadas, estou cada vez mais convicta que as afinidades se tocam e atraem.

Nesses últimos dias, ricos de afazeres e outros prazenteiros entreténs, já falei que, por ocorrências múltiplas, regressei a Lewis Carroll e ao seu mirabolante e genialíssimo tratado dessa arte de bem ensinar a crescer humano e pequeno, que dá pelo nome encantado de Alice no País das Maravilhas.  
Nem de propósito, um pouco antes de me sentar e redigir esse post, calha que o livro tomba da secretária, calha que cai aberto numa página à toa, calha que o pego do chão e que – no trajecto da mão para o erguer – os olhos batem e param justamente neste pedaço, que fala assim:

aspas_azuis2.jpg  Alice: Aqui parecem todos malucos.
Gato: É verdade, eu também sou maluco…Completamente maluco.
Alice: Eu não.
Gato: Claro que és. Se não fosses maluca não estavas aqui.

E é como ela diz em esfumada epígrafe, sim, logo à entrada, logo de avanço, como quem já vai estendendo a toalha de linho branco sobre a mesa que serve de tapete ao chá:

«We’re all mad here. I’m mad. You’re mad.»

E é por isso que, no retempero das forças, prestes a iniciar mais um plantão num Domingo lindo de Dezembro, cheio de sol e céu azul, eu atravesso o chão atlântico e me sento só mais um pouquinho à  mesa.

E, então, ela puxa de outra chícara e tem a delicadeza de pousar o dedo sobre os lábios, como quem recomenda silêncio aos que me vierem ler. E eu confesso que deixo pingar mais dois torrões de açúcar nesse chá e que qualquer coisa em mim derrete quando a escuto chamar-me, assim, de «linda bebedora de chá portuguesa».

Que seja uma tarde MA-RA-VI-LHO-SA para todos: para os que vão trabalhar e para os que também não!


Mood | Daqui a pouco há-de ser Domingo!

Dezembro 10, 2006

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Foto: Ana Arpa

  Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o amor por fim tenha recreio.

Natália Correia“Poema Destinado a Haver Domingo” in Passaporte (1958)

Acordo a ouvir esta música. Está por todos os lados, esta música, por todos os cantos e pisos da casa. Reproduz-se sozinha, sem precisar de tecla ou aparelho. Toca e toca e volta a tocar. No ar.  Como se fosse o som que o ar tem. Não é fantástico?!… Ás vezes acho que é por causa destes sortilégios que me acontecem na vida, que me ocorre mover como se ela fosse mágica. Toda mágica. Só mágica. Pura mágica. Pura e mágica. A tocar assim: como esta música que é como o som do ar, que está por todos os lados, a reproduzir-se sozinha por todos os cantos e pisos da casa, e que eu ainda não parei de ouvir desde que acordei.

Air“Playground Love”
Para escutar AQUI  ou AQUI


Um dia para comemorar

Dezembro 9, 2006

Passando em passo de corrida para muito telegraficamente assinalar a data. Parabéns, às duas Sagitárias: a Ally McBeal, honroso exemplar da raça dos que o fogo cinge a “metade-homem, metade-cavalo” e à minha sobrinha Sagitária-Pé-de-Feijão que acaba de nascer! Belíssima a escolha. Certeiro o acerto no dia! Que ele seja feliz e grande para ambas.

Na volta, prometo um presente digno de celebrar as duas.


A noite passada

Dezembro 8, 2006

Pouco importa que nem sempre te encontre quando te procuro. Basta-me a certeza sem espinhos de que sempre me chegas antes que a falta se torne insuportável.


Parapluie – a chuva não precisa de ti para ser bela

Dezembro 8, 2006

Choveu por toda a noite e ainda chove. O vento assobiou por toda a noite e ainda assobia. Gosto do que há de constante e convicto no temporal, deste não se levantar só de vez em quando, deste não desabar só de quando em vez. Gosto deste cair incessante, deste ventar contínuo, deste trovejo que nem com a vaga promessa de sol da manhã se interrompe.

E acho que tenho sorte por ser assim. Nem cega, nem distraída. Leal apenas e tão só aos inabaláveis que me fustigam.


Sketching Lisbon

Dezembro 5, 2006

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Duas horas da tarde e ninguém pelas ruas. Diverte-me conduzir assim, atravessar a cidade deserta que é só água e ventania. Pensar as pessoas abrigadas do temporal. Longe da vista e do olfacto. Recolhidas algures. Só eu à mercê. Eu que não me importo. Eu que até gosto e acho belo: o temporal, a água, a ventania, e todas as coisas que não pedem a presença de mais ninguém.