Archive for the 'Storyboard' Category

Mulher | A coisa mais impressionante que alguém jamais me disse

Dezembro 29, 2006


Foto: Matsuo – Ela, a minha Gueisha

Ontem fui jantar a casa dos pais. Devia estar bem disposta porque falei ainda mais do que o costume. E ninguém saía da mesa, e eram muitas as gargalhadas e as caras divertidas. Estavamos nisto há muito, muito tempo (nem sei quanto!…), quando me lembrei da tia-avó de 91 anos que a mãe foi buscar a casa e tem tido com ela, nestes últimos dias. Interrompi-me de repente e caí em mim. Ocorreu-me que não devia estar a perceber nada, pedi-lhe desculpa por tantas frases atropeladas em pressa e riso, tanto barulho, tanto disparate e prometi-lhe que me ia calar imediatamente. Foi também só nessa altura que me dei conta que me seguia atenta com o olhar e que também ela ria e ria e ria, um riso estranho, que saía assim desbargado mas sem fazer nenhum ruído. Ria mesmo muito porque quando olhei para ela vi que ia limpando discretamente as lágrimas do riso com a ponta do lenço de linho, que sempre traz entalado na manga, rente ao pulso. «Continue, continue, filha! Estou a gostar de ouvir», disse. E no frenesim incontrolável das gargalhadas em que me encontrava, aquilo deve ter sido, de facto, o bastante para me encorajar a retomar o tropel.
Sim, devo ter continuado, porque mais à frente voltei a cair em mim e a deter-me. Voltei a pedir-lhe desculpa pelo barulho e por tanto disparate. E eis que ela me diz:

«Continue, filha! Continue que eu estou a gostar muito. É a primeira vez que me rio assim. Sabe?! Eu nunca me ri. Nem me lembro de me ter rido. Desde que fiz 23 anos, então, tenho a certeza: nunca me ri. É a primeira vez.»

A tia-avó casou aos 23 anos e esteve casada 68. Ontem, enquanto se ria, tinha já 91 anos.

(…)

É verdade eu ando contente e animada. É verdade que, geralmente, mesmo dentro das maiores tormentas e tempestades, me sucede esta coisa esquisita de genuinamente me saber de bem com a vida. E também é verdade, sim, que ando particularmente alegre e bem disposta. Mas, muito francamente, ontem, já tarde na noite, quando saí de casa dos pais, tive a clara certeza de que, se não andasse, ficava!… Há lá alguma coisa que possa ter a pretensão de ser suficientemente forte e importante para ensombrar a felicidade de ouvir alguém dizer-nos que tivemos a capacidade de a fazer rir, pela primeira vez, em 68 anos?? 

Subitamente, sou eu quem tem vontade de lhe saltar ao pescoço e lhe dizer que se tornou ainda mais minha tia-avó do que nunca, que me ganhou todos os afectos e mais algum, que me conquistou em absoluto o coração, pela forma franca e pura com que se rendeu ao meu efeito: sem defesas, sem pudores, sem receios, nem máscaras.
Não fosse já tão tarde, nem esta sensação me ter ocorrido durante o caminho, e teria invertido a marcha e voltado atrás, só para lhe dizer que também ela foi a primeira pessoa a ser capaz de me devolver na íntegra algo de que também já não me lembrava: aquele sentimento ímpar e indescritível de me sentir e saber (sim!) a menina mais feliz e especial do mundo. 

(…)

Nunca (agora digo eu!) ninguém me disse nada que me tivesse perturbado tão profundamente! Foi, sem sombra de dúvida, a coisa mais impressionante que jamais alguém me disse e é só por isso que, ainda que possa parecer descabido, não consigo evitar de mencionar o “episódio“.

«Muito Louca»

Dezembro 11, 2006

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Foto: E. Weston – Sad Spring

Assim, sem mais nem porquê, Grande Loba tinha o hábito de citar de cor delirantes passagens de Alice no País das Maravilhas. Nunca percebi se, de algum modo, eu lhas inspirava, mas desconfio que por sempre ter sido assim e lhe estar na estéctica ou na natureza, eu sei lá. Essas tiradas entravam nas conversas, umas vezes de rajada, outras mais de mansinho, invadiam as falas, atravessavam a sequência dos discursos – vindas não se sabe de onde, para alcançar não sabe o quê –  e largavam-se em seguida, ora de fininho, ora abruptamente. Deixas sábias, a interpelar o cérebro como um jogo hábil, insinuante de rumos e verdades essenciais, a que sempre eu tentava ser atenta, mesmo quando me pareciam totalmente desprovidas de nexo e ligação. Espantava-se, Grande Loba, muitas vezes com a minha memória tão presente dos pequenos detalhes solúveis dessas narrativas da infância que, por norma o passar dos anos crescidos vai descolorindo e ratando. Espantava-me eu também, com a nitidez precisa com que me afluiam na lembrança, a cada toque que as evocava.
Muito, muito louco!… Tudo muito louco. Sempre.

Mas isso foi antes. Antes deste tempo de agora, deste tempo em que depois caí e teimo em me demorar, pueril e inconsequente, constrangedoramente banal e sem graça, de tão presa a frases básicas, palavras frouxas, atavismos fúteis, gestos frugais, emoções medíocres, tudo isto bem embolado num quotidiano cretino, requentado, mastigado e servido frio num prato de inox, pobre em nutrientes e vitaminas, sem sal nem pimenta, sem açúcar nem canela, que lhe dêem sabor ou condimento. Faltam-me as especiarias. Faltam-me as “especialidades”!…

E se me ocorre tudo isto agora, é porque (apesar de tudo) a saudade nunca me deu descanso e não pára de me morder. 
A saudade… Que saudade!…
… Quanta saudade, dessa órbita desmesurada onde tudo era grávido e grande, onde tudo era nobre e superior.
Como a loucura e os seres muito loucos.

Mulher | Causa da morte: anorexia

Novembro 18, 2006

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Foto: Keate

Carla Sobrado Casalle tinha 22 anos, 1, 74 m e apenas 55 kg.  Morreu na manhã de 5ª feira, vítima de duas paragens cardíacas, no Hospital da Beneficência Portuguesa, em Araraquara. Estudava moda na faculdade paulista Anhembi Morumbi. Ainda não era tão conhecida como a modelo Ana Carolina, falecida na passada 3ª feira, mas teve o mesmo fim que ela: a anorexia matou-as às duas. Com apenas 2 dias de intervalo.

Grrrls | Ana Paula Arósio

Novembro 11, 2006

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Foto: Ana Paula Arósio por Nana Moraes
(in Estilo de Vida – edição de Novembro de 2006) *

Essa Morena entende-me. Em 1996, também viu o amor suicidar-se à sua frente com um tiro na cabeça. Era juiz. Chamava-se Luiz Tjurs. Recentemente, pela primeira vez, deu declarações a respeito. Uma frase só, dita à jornalista Monica Bérgamo, colunista do jornal Folha de S.Paulo. Uma frase só onde porém deixa dito tudo: «Eu lambia o chão por ele!» Eh!… Quando é assim, assistir de frente ao suicídio do amor traumatiza. «Isso vai me afetar pelo resto da vida, como tudo o que vivi, para o bem e para o mal», a franqueza escancarada de Arosio a causar-me comoção próxima. Porque, sim, é penoso assumir traumas: quaisquer que eles sejam. Os do amor, incluídos. São poucos, todavia, os que, como Arósio, se mantém firmes, avessos a antídotos e outros alucinógeneos que anestesiem o passado nas veias: «Nunca esqueci o que aconteceu. Nem devo. Se passei por isso, é porque tinha que aprender alguma coisa.» Esquecimentos e memória à parte, acontece que de 1996 para cá o tempo passou, quer se queira, quer não queira. No entretanto, mesmo leituras descompassadas como as minhas pelas páginas da especialidade, sabem que Arósio foi inúmeras vezes assunto por trocar frequentemente de namorado/a. Suicidado o amor, fez bem. Fez o que lhe restava de direito. Teve o seu luto: a mais nao era obrigada. Porque, infelizmente, depois do suicídio, o tempo continua a contar para os que foram abandonados vivos. «Acho que o tempo fez com que eu pudesse olhar para o que aconteceu com mais maturidade e objetividade. Por enfrentar e mais bem entender o meu papel nessa história, deixei de ser tão passional ou emocional em relação a isso», ela diz. Para quem não entende, se é que importa que entenda ou não.  Suicidado o amor, é como Arosio diz: «deixei também de me defender de relacionamentos, como fazia.» Antes de entender, é claro: o suicídio e o seu papel nessa história. Antes do tempo mostrar que não resta revertério, nem consolo, para o irremediável: o suicídio do amor bem à sua frente, esse traumático instante presenciado  de que, imagino, teria dispensado ser testemunha.

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Preste atenção:

aspas_azuis2.jpg  Hoje sei mais o que gosto e o que não gosto. Por isso vou embora logo quando vejo que algo não dará certo. Antes eu nem via. 

aspas_azuis2.jpg  A paixão é uma droga que não me convém. É só fazer as contas de quantas vezes eu me apaixonei, e em quantas me dei mal. Em todas.

aspas_azuis2.jpg  Todo o mundo precisa de pouco para ser feliz. As pessoas que acham precisar de muito na verdade não sabem do que precisam.

… Grande, ‘sister’!

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* ensaio fotografado no quarto da casa de Ana Paula, em Vargem Grande, Rio de Janeiro

Leio | ‘Hemingway and the Mechanism of Fame’ – M. Bruccoli & J. Baughman

Outubro 14, 2006

3599.jpgQue me desculpem os queridos leitores, mas talvez este papo se destine demasiado em concreto às caríssimas e caríssimos que hoje estavam à mesa connosco, no almoço tardio que se arrastou preguiçoso e prazenteiro naquele varandim soalheiro, de frente para o Atlântico.

Creio que a propósito da entrega do Nobel da Literatura a , discutia-se a veleidade ou não de um autor se promover para que com isso a sua obra ganhe outra expressão junto do público. Mantenho a minha ideia: não me choca esse trabalho paralelo do escritor, essa sua imagem de quase markteer, esgravatando por visibilidade. Se os autores que esse mesmo anseio reúne me são mais ou menos apaixonantes, é outra conversa, outra questão. Sois disant: tout d’abord, j’aime la parte maldite!And so what, minhas caras, meus caros? Disse e repito: com quanto essa auto-promoção reverta para que mais e muitos cheguem à obra (por pior que ela seja), não consigo ver no facto nada de obsceno. Tenho para mim que a outra metade do caminho só se cumprirá por mérito das páginas e das linhas escritas. Sem esse outro complemento nada feito, donde tanto faz se o escritor arrebanhou ou deixou de arrebanhar para o seu lado seja que artifício de auto-promoção for. Digamos que, a partir deste ponto do caminho, ou a obra cativa e o livro se vende por si mesmo, ou não há mais nada, nem niunguém que possam fazer por ele seja o que for. Nem mesmo o autor que o escreveu.

Para contrariar a minha convicção, sugiro à leitura o ensaio  Hemingway and the Mechanism of Fame – (sinopse AQUI) –  recentemente lançado por Matthew J. Bruccoli e Judith S. Baughman sobre Ernest Hemingway (também ele premiado com o Nobel). O livro reúne uma notável compilação extra-literária do autor: ensaios, prefácios, anúncios publicitários, fotoreportagens, etc, no intuito de demonstrar a tese segundo a qual E. Hemingway foi famoso por ser famoso: 

aspas_azuis25.jpg  Hemingway had many of his exciting exploits recorded by press photographers. He got in on everything, even the D-Day invasion. He was always showing up in some high-circulation magazine like Life with a big fish on the hook or hunting rifle in hand. His visage was (and is) immediately recognizable. And he had no problem letting that familiar visage appear in ads, for which he also wrote the copy. In one he promotes Ballantine Ale (while sitting in a deck chair with a book open) writing, “You have to work hard to deserve to drink it. When something has been taken out of you by strenuous exercise, Ballantine puts it back in.” There’s one for Pan American Airlines (“We started flying commercially about the same time. They did the flying. I was the passenger.”), and another for Parker 51, “The World’s Most Wanted Pen,” to whose ad Hemingway lent his face and a paragraph (presumably in his handwriting) on the horrors of war.

Para corroborar o que eu própria penso, sugiro a leitura deste artigo sobre o livro, «For Whom the Shill Toils», de Paul Devil:

aspas_azuis25.jpg  What’s wrong with literary self-promotion? Is it crass to energetically promote a novel or collection of poems or short stories that you have worked long and hard upon, and from which you hope to make a few dollars? Is there something immoral about an author renting out his image to build up his brand? Why should only rappers and athletes have their names on sneakers? If Ernest Hemingway were alive, he’d have his name on everything.
[This new book] demonstrates that when self-promotion is done by a marketing master, it can approximate art.

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Foto: Ernest Hemingway

Das causas em horário nobre

Outubro 9, 2006

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Foto: Alexandra Lencastre

Há pequenas causas que são grandes na exacta proporção de cada vida e da história que ela encerra. «Sem pieguices», nem «beliscar a honra» de cada protagonista, como lembrou e bem Júlia Pinheiro, a TVI estreou esta noite Canta Por Mim. Celebridades e figuras públicas, em dueto com cantores, em nome de um caso de solidariedade: «um caso de alguém especial, com uma vida difícil ou necessidades muito urgentes, e que precisa de uma oportunidade para mudar a sua vida».

O programa colocou hoje no ar os primeiros quatro duetos. Não há qualidade, mas há boa vontade. Serve a nobreza da intenção, o duvidoso e sempre questionável propósito dos shares e das audiências, é certo. Mas, se pelo caminho, alguém cumprir a meta, tiver o apoio e o amparo que lhe é urgente, já não terá sido de todo desperdiçado o tempo em antena.

Alguém lembrava, á laia de salvaguarda, antes da votação, que o júri «não está aqui para pontuar as causas – todas elas tocantes, sem dúvida – mas as prestações de cada dueto que sobe ao palco para as defender». Pelo que vi esta noite, não creio que se possam criar grandes expectativas quanto às actuações. O mesmo não me parece que vá suceder com os casos de solidariedade em causa. Por mais prementes ou dramáticos, parece-me inevitável que a simpatia e o coração nos aproximem mais de uns do que de outros, independentemente da urgência de cada situação, com toda a injustiça que, aparentemente, isso encerre.  A mim, confesso, tocou-me em particular o optimismo da mulher divorciada que vive com os dois filhos numa garagem e só quer dar-lhes uma «cama quentinha» e «um tecto mais parecido com uma casa». Impressionou-me pela forma irredutível com que contornou a insinuação da apresentadora, relativamente à situação financeira delicada em que a separação a teria deixado. Foi clara: «não estou aqui para culpar nada nem ninguém. Entendi que para continuar a estimar-me como pessoa e como mulher tinha que me separar e separei. Pronto.» Comoveu-me a coragem na autonomia e o senso de verticalidade. Sem «pieguices», nem miserabilismos. E depois seduziu-me a força e o optimismo, a alegria e a vitalidade daquela mulher tão jovem, que queria mais de si e mais para os seus, da jovem que não se acomodou, que se empenhou em estudar contabilidade e aprendeu quatro idiomas, mesmo trabalhando numa fábrica, sendo mãe de duas crianças pequenas e trabalhando como empregada-a-dias, nos bocadinhos que sobram. Enterneceu-me que o único pesar que lhe tenha escapado à confissão fosse o de gostar demasiado de livros e os ver apodrecer com a humidade da garagem onde mora. Podem ser detalhes, pode até ser o mais irrisório dentro do drama que é não ter direito a uma morada humana, mas para mim foi um desabafo de uma grandeza imensa: o da mãe que tremendo com os filhos, ainda se preocupa e cuida de zelas por esse bem precioso que é a sua biblioteca, por mais humilde que seja, como quem pressente e entende o valor que fica contido entre a capa e a contra-capa.

Teria de bom grado votado na dupla que defendeu, a cantar, a jovem mulher divorciada, sim. Mesmo que fosse a mais desafinada de todas. Pelo simples reconhecimento de lhe dar um lugar onde montar uma estante e prateleiras em condições, para albergar esse bem maior que cultiva do centro de todas as privações: o do saber e dos livros. Teria votado, sim. Feliz e plena da convicção de não estar a subverter o regulamento do concurso. Em nome dela e dos seus livros.  Apesar da outra família, muito mais numerosa e também a viver numa casa a desabar, e do rapaz-pintor que quer uma cadeira de rodas eléctrica para se deslocar, ou do pequeno e talentoso Marcelino Samblé, de 11 anos, cuja família não tem como custear-lhe os estudos para prosseguir uma carreira de bailarino. Vá-se lá saber! Acontece que é assim o movimento solidário do coração: abre-se ás causas que o sensibilizam e não há nada a fazer!

Como diria a diva das novelas portuguesas, Alexandra Lencastre, que, mesmo ao lado do próprio Luis Represas, lhe conseguiu simplesmente arruinar a canção “Feiticeira”, com o desastre da performance: «Posso ter-lhe estragado a canção ao cantá-la , mas juro que a cantei com o coração. Mas pronto!… Foi mais uma de tantas outras coisas na vida que estragamos com o coração…!»

Mulher | Assassinaram Anna Politkovskaia!

Outubro 8, 2006

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Foto: Ana Politkovskaia

Anna Politkovskaia, jornalista russa premiada que ficou conhecida nos países ocidentais pela cobertura crítica que fez da guerra na Tchetchénia, foi morta a tiro no prédio que habitava em Moscovo.

Politkovskaia, de 48 anos, foi encontrada morta a tiro num elevador e, nas imediações, a polícia encontrou uma pistola e quatro cartuchos de bala, noticiou a agência russa Interfax, citando fontes policiais.

A morte da jornalista está a ser tratada pela polícia como um homicídio , segundo a porta-voz do procurador do Ministério Público de Moscovo, Svetlana Petrenko. O procurador-adjunto de Moscovo, Viacheslav Raskinsky, indicou por seu lado que a polícia suspeita de que o homicídio esteja relacionado com o trabalho da jornalista.

O incidente ocorreu cerca das 16:30 locais (12:30 em Lisboa) de sexta-feira no prédio de apartamentos onde Politkovskaia residia, segundo o director do jornal para o qual trabalhava, o Novaya Gazeta, Dimitri Muratov.

Anna Politkovskaia fez carreira como jornalista de investigação e tornou-se conhecida fora da Rússia pelas reportagens críticas que fez na república separatista da Tchetchénia, onde escreveu sobre os assassínios, torturas e espancamentos de civis pelas forças russas.

Por essas reportagens, Politkovskaia recebeu vários prémios de jornalismo, entre os quais a Caneta de Ouro (da União de Jornalistas da Rússia), em 2001 , o do Pen Club International, em 2003, e o Prémio Jornalismo e Democracia da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

Anna Politkovskaia foi também uma das poucas pessoas que entraram no teatro de Moscovo, onde um comando tchetcheno sequestrou centenas de pessoas em Outubro de 2002, com o objectivo de tentar negociar o final do sequestro.

A jornalista também escreveu um livro sobre a política do Presidente Vladimir Putin para a Tchetchénia, no qual apresentava provas dos abusos generalizados cometidos pelas forças governamentais contra civis. O seu mais recente livro intitula-se “A Rússia de Putin“.

“Sempre que se discutia sobre se há jornalismo sério na Rússia, o primeiro nome que nos vinha à ideia era o de Anna Politkovskaia”, disse hoje o director do Centro de Jornalismo em Situações de Crise, sedeado em Moscovo, Oleg Panfilov.

Segundo este responsável, Politkovskaia recebeu várias vezes ameaças e, há alguns meses, desconhecidos atacaram a filha da jornalista, Vera, enquanto esta conduzia.

Em 2001, Anna Politkovskaia refugiou-se em Viena durante vários meses depois de ter recebido várias mensagens electrónicas com ameaças nas quais se afirmava que um polícia acusado por ela de abusos contra civis queria vingar-se.

Politkovskaia denunciou o caso às autoridades e, em 2002, o agente da polícia Sergei Lapin foi detido no âmbito da investigação. No ano seguinte, no entanto, o processo contra Lapin foi arquivado.

A Rússia é um dos países onde mais jornalistas são mortos: 23, entre 19 96 e 2005, segundo a Comissão para a Protecção dos Jornalistas.*

(*) com Lusa

Citando de cor | ‘Em Busca do Tempo Perdido’… esse clássico magistral que assiste a todos

Agosto 5, 2006

aspas_azuis24.jpg  O tempo chega sempre. Nós muitas vezes é que já não vamos a tempo.

Quando era adolescente, eu, os meus irmãos, primos e alguns amigos, resolvemos responder a um anúncio de jornal. A ideia era básica e quase pueril: aproveitar os longos meses de férias de Verão para ganhar dinheiro só nosso. Depois da entrevista da praxe, enfiaram-nos numa sala de reunião sem ar condicionado e descobrimos que nos ministravam, à pressão e à revelia, um mini-curso de formação em vendas. Depois do almoço fugiram todos, a rir à gargalhada com o logro. Só eu voltei. Resolvi experimentar. Á conta disso, acabei por descobrir que tinha talento para a coisa: a brincar, a brincar, sem nenhum esforço e muito pouco tempo investido, socorrendo-me a penas de amigos e conhecidos dos pais, ganhei uma pipa de massa e aprendi muitas coisas a meu respeito e da minha própria e involuntária capacidade de persuasão. Ao longo da vida, se parar para pensar um bocadinho, chego à conclusão que devo muitas coisas a esse “curso de formação” em tempo relâmpago. Muito mais do que poderia imaginar à partida. De certo modo, percebi que não há nada mais irresistivelmente convincente aos olhos dos outros do que a nossa própria convicção a respeito das coisas que defendemos, e que isto é tão válido para uma enciclopédia como para um amor ou uma causa política, ideológica ou humanitária.

Vem isto a propósito da frase a cima citada, e que o manager da força de vendas costumava papaguear até ao limite do insuportável. Nunca soube se acreditava verdadeiramente no que dizia, ou sequer se entendia o tamanho das palavras que lhe escorriam da boca. Todavia, desde a primeira vez que o ouvi dizer aquilo, pareceu-me claramente que estava ali um instante de grande revelação. Por alguma razão, até hoje, a frase nunca mais me saiu da cabeça. Se calhar também nunca me saiu dos actos ou do movimento. Já nem sequer me consigo recordar com precisão dos traços do rosto do homem baixinho que vestia fatos engilhados da Maconde com o mesmo orgulho de quem se apresentava dentro de um Armani, mas recordo-me com toda a nitidez e precisão de, nesse instante, lhe ter reverenciado o que logo ali me soou como um instante de absoluta solenidade, daqueles que só acontecem quando se está diante de uma imensa e preciosa verdade. Sou, pois, grata ao emprego das enciclopédias, nos primeiros meses daquelas férias de Verão e ao homemzinho baixote que vestia Maconde, não só porque ganhei uma pipa de massa e descobri talentos de que não suspeitava, mas porque pela primeira vez tive consciência que a verdade se revela das formas mais inusitadas, que vivemos num mundo mágico, povoado de seres alados que a qualquer momento se transformam e ganham novos e inimagináveis poderes, que a vida é um bizarro e insuspeito lugar onde tudo é possível, sim!… como, por exemplo, ver pérolas reluzentes de incalculável valor brotar do bico de um simples papagaio!

Mulher | Gisele e a sua ‘La Maleta Roja’

Julho 22, 2006

background2.jpgFico, pois a saber que existe uma nova moda, no que se refere às reuniões das Meninas, ao melhor estilo Luluzinha, tipo “Menino Não Entra!“. A inovação deve-se a uma brasileira com sotaque espanhol, de seu nome Gisele, e a um negócio que, segundo ela mesma explica, nasceu «para não deixar nenhuma menina na mão». La Maleta Roja e a empreendedora Gisele mereceram inclusivamente, na semana passada, honras de reportagem pela oficialíssima Agência Lusa, reproduzida quase na íntegra AQUI.

aspas_azuis24.jpg  À semelhança das clássicas reuniões de tupperware, as portuguesas voltam a juntar-se para comprar e discutir modelos, mas agora as opções variam entre vibradores hiper-realistas, kits de ferramentas orgásmicas ou estimuladores em forma de patinho de borracha.

As mulheres que querem conhecer o «maravilhoso mundo dos produtos eróticos», mas têm vergonha de ser vistas numa sex-shop precisam apenas de um telefonema para ver abrir, na privacidade do lar, a maliciosa «maleta roja».

Gisele é a cara de uma nova moda que chegou há poucos meses a Portugal e que está a conquistar cada vez mais adeptas, de acordo com a brasileira com sotaque espanhol, detentora do franchising da empresa catalã «La Maleta Roja», que apresenta uma panóplia de produtos eróticos.

Em Portugal, as reuniões passam única e exclusivamente por ela. Com uma gigantesca mala de viagem vermelha, Gisela viaja por todo o país para responder às solicitações de mulheres «de todas as idades e camadas sociais».

Esta manhã, a minha alma de condor voltou a fugir do fio de nylon onde a trago presa

Julho 18, 2006

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aspas_azuis21.jpg  Soy la hija de un hombre de piedra
La serpiente con el viento parió
Nací del color de la tierra
De un baño de vapor y de fuego

Gravura de Luiz Zarate, pintor oaxaqueño. Versos de Lila Down, extraídos de “Semilla de Piedra“.

Lee Miller: de musa a fotógrafa de guerra

Julho 16, 2006

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Sexta-feira passada, assisti na RTP2 ao documentário “Lee Miller: The Mirror Crossing”, realizado por Sylvain Roumette, para a Terra Luna Films, sobre a vida e a obra da fotógrafa e modelo americana, que serviu de musa a Man Ray, e morreu em 1977. Um trabalho urdido entre a narração feita pelo seu único filho com o pintor Roland Penrose, que após a sua morte descobre no sotão baús de películas e fotografias e, de certa forma, se reconcilia com a figura da mãe através da investigação que daria origem à biografia que dela viria, mais tarde, a escrever. É bela a tecitura que resulta do enlace do relato, das leituras de fragmentos do seu diário, das fotos sobre ela e por ela tiradas. Uma existência desconcertante pelo insólito e ousadia, numa trajectória que vai do começo de carreira, como modelo nú, obsessiva e perturbadoramente fotografado, primeiro pelo próprio pai, depois pelo célebre Man Ray, a objecto estético de Jean Cocteau e Picasso, até aos tempos de auge e furor como modelo de capa das revistas Vogue e Blitz da época, posteriormente, aprendendo ela própria a arte da câmera mágica, tornando-se fotógrafa de moda com estúdio próprio e, mais tarde, correspondente da II Guerra Mundial, longe de brilhos e lantejoulas, coberta de pó, vestida de alpaca militar e usando bivaque, os adereços reduzidos a essa combinação binária de uma Rolleyflex e uma máquina de escrever Hermes, onde compunha os trabalhos que enviava sobre as cidades bombardeadas, trincheiras e campos de concentração por onde andava, misturada com as tropas, exposta aos mesmos perigos, horrores e privações –  ela, musa de alguns dos mais geniais pintores, escritores e artistas que lhe foram contemporâneos; ela, que algures nos anos 30 reinou na cidade do Cairo como verdadeira Cleópatra, ao lado de um milionário egípcio, um dos muitos amores com que a vida quis que se cruzasse.

Ando desde então fascinada com a personagem desta mulher aventureira, que nasceu muitas décadas à frente do seu próprio tempo, que prezava a liberdade acima de todas as coisas, que nunca se deixou dominar nem mesmo pelos que amava e dizia, com todo o orgulho, nunca ter perdido um só minuto da vida.

Cf. Lee Miller: vida e obra

Mulher | Profissão: Personal Sex Trainer

Julho 13, 2006

fatimamoura.jpgEla é considerada “pioneira” nos serviços de “consultoria” em “aprimoramento das relações humanas” que presta. Também “ministra palestras que abordam o sexo, o amor e a fantasia“. Está igualmente disponível para “chás de lingerie“.  Mantém uma coluna Metendo a Colher, na revista JT, e está todas as noites no ar, à conversa com os ouvintes, na Rádio Nativa FM.

Chama-se Fátima Moura e define-se profissionalmente como Personal Sex Trainer.

p.s – … agora continua a enviar e-mails dizendo que achou muito esquisita a expressão “psico-sexó-terapêutico-comportamentólogo ” que usei no post anterior!

Crónica | “A Criança de Botequim” – Paulo R. Pires

Julho 12, 2006

botequim.jpgMesa da uisqueria Villariño, onde Lucio Rangel, «discreto super-herói da música brasileira», apresentou certo dia Vinicius de Moraes e Tom Jobim, e que continua de pé no Centro do Rio de Janeiro. «No fundo do bar, há a reprodução, que ocupa toda uma parede, da famosa fotografia de uma mesa dos anos 50, tirada naquela exata posição no Villariño. Nela estão Vinicius, Lúcio, Paulo Mendes Campos, Fernando Lobo, José Condé, Sérgio Porto (de costas), um sujeito de óculos que jamais foi reconhecido e, solitariamente, encarando a câmera, uma criança. É Pedro de Moraes, filho do poeta e hoje fotógrafo de primeira, que na época devia ter uns 10 anos e, na foto, parece perdido entre baldinhos de gelo, copos longos, garrafas de uísque e boêmios históricos.»

Paulo Roberto Pires entrou na uisqueria Vilariño. Ficou a fixar a parede. E entre o olhar e a foto, qualquer coisa aconteceu. Aconteceu que a cabeça do pequeno Pedro, filho de Vinicuius de Moraes, espreitando sobre copos e gargalos, o impressionou. Aconteceu que deu consigo a perguntar se os filhos que os boémios levam consigo para bares e tertúlias são vitímas ou privilegiados. E por entre a divagação, escreveu um texto formidável, onde, entre outros interessantíssimos reparos, se lêem reflexões de vital pertinência pedagógica como por exemplo estas:

aspas_azuis2.jpg  Pois a criança de botequim não conhece geração, época ou lugar. É filho ou filha de boêmio e, em idade tida como imprópria e hora havida como incorreta, acaba freqüentando com o pai (ou a mãe) um meio em que adultos bebem, conversam, riem, namoram, contam histórias, casam, descasam, comemoram, lamentam. Um mundo que se abre diante de uma criança entre perplexa e entediada, a quem procuram agradar com revistas, lápis de cor e balas. E que finge entreter-se, destinando aos adultos a sábia condescendência infantil.

A criança de botequim é, na verdade, cumulada de afeto, do afeto possível do pai ou da mãe que, não resistindo aos apelos do desregramento boêmio, precisam manter um vínculo com a vida dos calendários e relógios.

Pois se a criança, quando no botequim, vive a solidão, pouco tempo depois acaba assimilando alguns valores nada desprezíveis. Sabe, desde cedo, que a vida só é rica com o encontro, com a troca, com a conversa, com a disponibilidade. Descobre que o “fazer nada” do papo furado é, quase sempre, um “fazer tudo”, exercício de inteligência. Experimenta como a amizade, de botequim ou não, é um antídoto contra a cretinice da vida. Lembra, para sempre, do pai ou da mãe como um amigo próximo, com quem a qualquer momento você pode sentar e trocar idéias de igual para igual, como sempre os viu fazer com os outros.»

Mulher | Daspu in Concert

Junho 26, 2006

gabrielaleite_daspu.jpgAs mulheres da Praça Tiradentes  atravessaram a cidade do Rio de Janeiro saíram do gueto e aportaram em um bar do Leblon, lá na zona sul carioca com o show Mulheres Seresteiras. Depois da moda, a música é o novo sonho das mulheres comandadas por Gabriela Leite, a obstinada, polémica e cada vez mais mediática mentora da ONG Davida, que realiza trabalhos sociais e de prevenção com prostitutas. A tal que criou a griffe de roupas Daspu, que tanto aborreceu a luxuosa Daslu, ainda no rescaldo do escândalo de corrupção em que, poucos meses antes, amanhecera envolvida.

… e o funk de DJ Gutz por homenagem: "Daspu é uma puta parada / Daspu é uma parada de putas". A tocar aqui, com a devida vénia pela cortesia a Luiz Antonio Ryff.

Tia Alcione foi à Disney

Junho 25, 2006

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Tia Alcione, bagunçando com a trupe, no Magic Kingdom, em Orlando, com o castelo da Cinderela ao fundo.

Além de realizar, enfim, um sonho de criança, Alcione foi homenageada em Fort Lauddardale, na Flórida, durante o 9º Annual Brazilian Press, que celebra a cultura e a imagem do Brasil no exterior. Ela recebeu o troféu Lifetime Achievement Award no Broward Center For The Performing Arts. Nessa noite, cantou com Emílio Santiago, Margareth Menezes e Alexandre Pires.

Obrigado, Solange, por ter enviado o artigo.