Archive for the 'Script' Category

Script #37 | O Toque

Janeiro 10, 2007

Ás vezes basta um instante, basta um enlace pela cintura, um arrepio corrido à pele, um brilhozinho nos olhos, um sono mais feliz, um céu mais azul, um coração a bater mais descompassado, um pouco que é muito, um nada que é tudo. Ás vezes basta um detalhe, uma diferença ínfima, uma súbtil alteração na normal percepção das coisas percebidas de sempre. Ás vezes basta ser uma vez, basta uma vez mais á frente no tempo, num tempo outro, distinto do mesmo, distinto do que foi sem nunca ter sequer chegado a ter sido. E, por cima da inusitada surpresa, sobrevém tão só a inquestionável evidência das coisas claras e simples. Claras porque simples ou simples porque claras, eu não sei. Mas sabe-o o Fado, que é o que importa. Sabe-o antes e primeiro que todos. Como sabe sempre todas as coisas que há para saber. Como se nunca ninguém lhe pudesse contar nada que já não saiba, – a ele, ao Fado – sabedor que é de todos os segredos e sentires que podem em vida passar pela cabeça dos corações mais excêntricos e improváveis.
play_3475.gif  Camané – “Ela tinha uma amiga”  nota_animada25.gif

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Script # 36 | A Maldição de Adamastor

Dezembro 15, 2006

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Foto: M. C. – detalhe do Palácio da Pena (Sintra)

Sou forçada a dar a mão à palmatória e a constatar que é verdade, sim: por mais estranho e inconcebível que nos possa parecer, alguns humanos corações preferem para si a maldição de Adamastor. E vivem de bom grado e sem grande fadário, sim, o tormento que até a um gigante de pedra consumia: o cerco próximo do intangível.

Script #36 | «Love Hurts Sometime When You Do It Right»

Dezembro 2, 2006

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Sem palavras, Querida. Já sem voz e sem resposta, que é breve a vida e não há-de durar-me para sempre. E se acaso consentires que me perca, sabe Querida, que te fiquei para lá de mim, que te fiquei talvez até onde já nem houvesse vida. E se assim foi, perdoa-me Querida, pois terá sido esse o meu erro, terá sido essa a minha maior falta, a minha única traição: permitir que em morte ainda me tocasses, quando jurei entregar sempre e só a minha vida.

(…)

Mas como todas as coisas belas, eu e tu somos infatigáveis. E como todos os que amam a cima do chão, às vezes, também eu acredito que posso mover-me entre os deuses sem que nenhuma asa se me quebre. E hoje não é excepção. Vem, sim, vem buscar-me. Sobrehumana e cheia. Poderosa e resitente como o aço dos heróis e dos centauros. Magnífica, no teu peito armado de rapariga imortal. Porque eu e tu somos irrecusáveis sempre que bebemos da mesma cicuta que nos arremeça às duas para lá do céu – para lá: onde já nenhuma razão importa.

Script # 35 | Morde a saudade. Salva o coração.

Novembro 18, 2006

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… É que o coração gasta-se, Querida!… E não é só um blog, não é só um belíssimo nome que alguém se lembra de dar a um blog. É real como a vida: o coração também se gasta. Como os ossos e a energia, como a crença, a esperança e a paciência. Mesmo que não seja logo ao final de meia-hora e, contra todas as expectativas, sobreviva um pouco mais aos obscenos abusos do tempo. É real: o coração também se gasta. Gasta-se, afinal. Gasta-se. Como tudo.

Script # 34| Meia Hora

Novembro 17, 2006

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Esperei. Por todo o Inverno, esperei. Esperei por todo o Verão. Nunca ninguém veio. Ninguém veio buscar-me. Nunca mais. E quando o tempo das estações se repetiu, levantei-me e fui-me embora.  Não se enganou quem me deixou sentada. Fui capaz de ficar parada, sim, onde me deixaram, sem precisar de pedir, parada onde me sabiam. E continuariam a não se enganar, se ao menos tivessem percebido  também o que faltou: que eu saberia esperar por tudo, sim, mas não saberia jamais esperar por nunca mais.

Script # 33 | ‘… que em vidas que andam juntas, ninguém faz’

Novembro 11, 2006

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Desculpa se desligo de forma abrupta, mas é que se continuar agarrada, nem que seja à tua orelha, vou magoar-me a mim ou magoar-te a ti: uma das duas – é inevitável.
Queria, talvez, ter conseguido ficar um minuto mais, para te dizer que não desligo porque não vens, ou porque vais e onde vais não é para aqui. Desligo porque se não é para aqui já não interessa, já não me interessas, percebes?! E não é por dor, nem é por mágoa, como antigamente. Não é a ti que quero é ao que sentia antigamente. Não anseio por que me voltes, anseio por voltar a sentir o mesmo de antigamente. Não é de nós a saudade insuportável que me consome, é de me sentir como me sentia por nossa causa.

Queria, talvez ter conseguido ficar mais um minuto para te dizer que não me sinto nem um pouco zangada contigo. Queria dizer-te que não estou intranquila contigo, é comigo. Sei que te esforças, que te estás a esforçar, que te tens vindo a esforçar, e se calhar o problema é mesmo esse: o meu remorso por não te dizer que se calhar não vale a pena, entendes?! Que o facto de te “esforçares” em vez de te trazer para perto de mim, só te afasta mais e mais de onde estou. Porque onde estou é onde se chega sem esforço, sem nenhum esforço, na verdade. Remorso por te dizer o que sei: que vais na direcção errada, vais no sentido contrário e dificilmente nos voltaremos a encontrar.

Queria, talvez, ter ficado um pouco mais para te dizer que a minha insegurança não é por tua causa, é de não estar absolutamente segura de continuar a ficar onde estou e me julgas ter deixado, é de me lançar em feliz e desanuviada correria para todos aqueles lugares onde só posso ir sem ti e onde estar contigo me impede de jamais poder regressar, entendes?! E o meu medo é o medo que sinto de já não saber passar sem eles, de não tornar a ser capaz de os abandonar, de tão feliz e capaz que me fazem para viver.

Se repares com atenção, percebes que já não te exijo nada, assim como também já não digo que é nada aquilo que dás. Porque na verdade o nada já não me assusta, agora que eu sei aonde encontro tudo, sempre tudo à espera de mim.

Ia dizer que queria pedir-te desculpa, mas afinal não digo. Porque afinal não quero, não sinto que deva. A liberdade soberana que tens de não vir e não aceitar causalidades de dano ou prejuízo que nos possam atingir, é exactamente a mesma que eu sinto em ir.

A diferença, se a houver, há-de ser meramente circunstancial: tu dizes ir a arrastar-te, cansada e sem vontade; eu assumo que vou só porque quero, entusiasmada e de fôlego renovado.  Tenho pena, somente isso, de ter desligado antes de te assegurar que tudo isto é independente de nós e não tem nada a ver contigo, que não é uma coisa de escolher, optar ou preferir, que não tem nada a ver com isso, que é uma coisa outra e não estão em causa prioridades. Mas não houve tempo, entendes?! Era preciso agir rápido para chegar a tempo.

E estamos melhores, estamos mais crescidas, acredita! Percebo-o como, quando hoje cedo, no mercado, afastei de imediato a ideia de comprar castanhas para cozer em casa porque me lembrei que podias nunca chegar a chegar e que a isso nada te obrigava (só a vontade, é certo, mas essa é caprichosa, como convém: nunca se sabe quando aparece e aparece só quando bem quer). Percebo-o no próprio sentiumento de alívio que me vem do facto de nunca fazermos planos e de o único plano que temos ser sempre e só garantir que, aconteça o que acontecer, não caímos na asneira de ter plano algum. Percebo-o no espaço que vai do teu primeiro ao segundo telefonema e no facto de, ao invés de me enfurecer, servir já tão só para me alagar de uma mansa tranquilidade: afinal não me vieste surpreender-me, afinal ainda te conheço, afinal continuas a ser quem eu esperava. Percebo-o porque desligo já em movimento, e não tombo em desalento, nem acendo mil cigarros estarrecidos, nem tomo um atarax para controlar a falta de ar causada por alguma decepção. Percebo-o quando dou comigo a entrar de novo no duche, a sair a porta resgatando o sentimento perfeito de ser fim-de-semana e poder ter tempo para tudo o que escasseia durante o espartilho do quotidiano, sentada diante da vela, cotovelos sobre o impecável branco da toalha, debruçada sobre um catálogo de azulejos, a montar um painel como quem, enfim, domina a arte dos puzzles.

E quando me perguntam por ti, digo que vais a caminho de um magusto, e que a esta hora deves estar entre erva doce e castanhas assadas, coisas normais, de gente normal, coisas tranquilas de pessoas tranquilas, como nós aqui, a pedir mais sushi, entre o crú e o verde limão para um ou outro friso, a ligar à pressa para por de pé tudo o que há-de vir a seguir, enquanto falamos da cria e do gato, da revisão do carro, do edredon de penas de ganso, da conta da lenha e das propriedades da cerâmica mais resistente.

Queria, talvez, ter ficado mais um minuto antes de desligar para te dizer que não é medo de nunca haver compromisso é, quem sabe, o pânico de ser possível que já não haja possibilidade para volte a haver compromisso algum. 

Porque sabes, Querida, quer-me parecer que chegamos finalmente a um ponto em que talvez sejamos demasiado idênticas. Dás o que queres e nada nem ninguém tem o direito de te exigir que deixes de viver como gostas. Nunca te entendi tão perfeitamente como agora, que me sinto igual: dou o que posso e ninguém tem o direito de me exigir que dê seja o que for que me impeça de viver como gosto. Nem tu, nem eu estamos dispostas a por em causa a vida que temos, da forma que nos agrada que ela seja. Aceites estas premissas, de parte a parte, não vejo por que alguma de nós tenha mais alguma vez que se sentir intranquila: basta tão só que não desbaratemos o tempo que nos sobra uma para a outra a tentar o impossível: voltar a  ser o que já fomos um dia – porque nesse caso ( e só nesse caso) sim, seria preciso mudar radicalmente a vida que quer tu, quer eu, temos agora.

Sejamos felizes, portanto. Mais importante do que estarmos juntas agora é cada uma estar onde mais se quer neste momento. Sem dramas, sem complicações, aceitando a verdade dos factos e tudo o que transparecem do nosso mais íntimo querer, da nossa mais sincera e genuína vontade.

Vamos acreditar que o tempo não acaba tão cedo e que não há-de faltar-nos mais tarde. Há mais fins-de-semana e, afinal de contas, depois de tudo o que já passámos, podemos esperar, eu e tu, como algumas outras coisas da minha e da tua vida não podem.

Come castanhas por mim. Lembra-te do quanto eu costumava amar o cheiro que a erva-doce deixava nas madeiras da casa, quando trazias a panela para o meu colo, acendias a lareira e adormeciamos, tarde, pelo chão!… Lembrar-me-ei também do quanto, em tempos, sonhavas com o instante de projectar comigo a casa, e pensar no alpendre em que eu haveria de trabalhar, enquanto brincavas com os cães grandes e pretos, e escolherei os azulejos novos em homenagem secreta a ti.  Felizes nós, Querida, porque afinal nem todos os nossos sonhos cairam derramados e impossíveis pelo chão! Cada uma à sua maneira, vamos resgatando o que podemos. Mesmo que sem ser juntas e lado a lado e mão na mão e colo dentro do colo, como um dia chegámos a desejar que fosse, cada uma à sua maneira, lá segue salvando os sonhos esquecidos no chão.

Gosto de te imaginar, neste minuto, tão aconchegada a comer castanhas com erva doce, como gosto de imaginar que me gostarias de me imaginar a mim, aqui – dentro do mesmíssimo minuto que o teu –  se eu não tivesse desligado logo e tivesse tido tempo para te contar que esta noite, finalmente, vou escolher os azulejos novos.

Tem, então, um muito bom fim-de-semana, Querida!

Script #31 | A ausência do medo

Novembro 11, 2006

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Foto: Scarlett Johansson e Dita Von Teese

Desejas-me a tranquilidade que ainda não me inspiras. Pedes-me a confiança que ainda não me devolveste. Queres-me no lugar daquela velha cegueira incondicional, indestrutível, incorruptível, inabalável, à prova de fogo e à prova de bala, onde não consigo ainda voltar a chegar. Mas sossega, Querida. Sossega, sim. Está tudo bem, eu não minto. Está tudo bem assim, tal como está: sem estar.  E depois, desta vez, também eu tenho os meus planos de emergência. Se acaso tudo voltar a falhar, sei que ao menos o meu abrigo permanecerá intacto: porque, desta vez – à cautela – ainda fui a tempo de me lembrar de não voltar a construir o meu refúgio no teu peito.

Script #30 | A presença do medo

Novembro 10, 2006

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Foto: Scarlett Johansson e Dita Von Teese

aspas_azuis2.jpg  Tienen miedo del amor y no saber amar
Tienem miedo de la sombra y miedo de la luz
Tienem miedo de pedir y miedo de callar
Miedo que da miedo del miedo que da

Tienem miedo de subir y miedo de bajar
Tienem miedo de la noche y miedo del azul
Tienem miedo de escupir y miedo de aguantar
Miedo que da miedo del miedo que da

El miedo es una sombra que el temor no esquiva
El miedo es una trampa que atrapó al amor
El miedo es la palanca que apagó la vida
El miedo es una grieta que agrandó el dolor

Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de acender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como um laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar

Tienem miedo de reir y miedo de llorar
Tienem miedo de encontrarse y miedo de no ser
Tienem miedo de decir y miedo de escuchar
Miedo que da miedo del miedo que da

Tenho medo de parar e medo de avançar
Tenho medo de amarrar e medo de quebrar
Tenho medo de exigir e medo de deixar
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma sombra que o temor não desvia
O medo é uma armadilha que pegou o amor
O medo é uma chave, que apagou a vida
O medo é uma brecha que fez crescer a dor

El miedo es una raya que separa el mundo
El miedo es una casa donde nadie va
El miedo es como un lazo que se apierta en nudo
El miedo es una fuerza que me impide andar

Medo de olhar no fundo
Medo de dobrar a esquina
Medo de ficar no escuro
De passar em branco, de cruzar a linha
Medo de se achar sozinho
De perder a rédea, a pose e o prumo
Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo

Medo estampado na cara ou escondido no porão
O medo circulando nas veias
Ou em rota de colisão
O medo é do Deus ou do demo
É ordem ou é confusão
O medo é medonho, o medo domina
O medo é a medida da indecisão

Medo de fechar a cara, medo de encarar
Medo de calar a boca, medo de escutar
Medo de passar a perna, medo de cair
Medo de fazer de conta, medo de dormir
Medo de se arrepender, medo de deixar por fazer
Medo de se amargurar pelo que não se fez
Medo de perder a vez

Medo de fugir da raia na hora H
Medo de morrer na praia depois de beber o mar
Medo… que dá medo do medo que dá
Miedo… que da miedo del miedo que da

Pedro Guerra/Lenine/Robney Assis“Miedo”
(Para ver e escutar, em dueto com Julieta Venegas:  aqui)

Script #32 | O Cubículo

Novembro 10, 2006

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Foto: Dan Olek

Ás vezes tenho a impressão que o único chão que há termina na beira dos lençóis e não vai além da ponta mais afastada do colchão. Um mundo assim tão estreito é pouco. Depressa falta por onde apeteça andar. 

Script #29 | Infinito Amor

Novembro 8, 2006

quartoc.jpgÁs vezes na desordem das coisas planas, gente grande também perde o norte e atropela pelo chão o lugar certos das coisas! Quando se pára não mais que o instante suficiente para reparar, damo-nos conta que tudo saiu como que por feitiço, do lugar certo, da linha, do prumo, do ar. E, então, ficam os braços contrafeitos e o peito atordoado, sem saber como foi possível tanto caos em tão pouco tempo.
Palavras duras não são, em boa verdade, a melhor forma de começar os dias, mas as conversas sérias são precisas, sim, Pequena Cria. Mais que precisas, elas serão sempre a mais legitima das prioridades e a menor e mais branda das exigências entre aqueles que se querem bem e querem muito. Portanto, Meu Anjo, saiba tão só que hoje amanheci com uma vontade insana de não mais deixar para amanhã tudo aquilo que ainda não fiz, disposta a tomar as rédeas do que me é de dever. Se alguma coisa a vida que foi passando por mim me ensinou aos solavancos é que não há nada de mais terrívelmente insuportável que a desilusão na face de quem se ama, e nada mais impossível de remediar que a quebra da promessa de se cuidar de alguém. Não quero, meu anjo, não posso, querer para ti minguas e mágoas. Deixam um gosto amargo na língua, um travo feio e desprotegido na asa mais frágil do coração, acredita. Portanto, considero que foi esplendoroso o começo desta manhã e parto para o dia mais feliz e mais forte do que há instantes atrás: quando os meus olhos cegos não viam motivos para maior alarde, nem pálida sombra de descontentamento. Orgulhosa de ti, Pequena Cria. Orgulhosa e decidida a reparar a distracção que me fez, ainda que por breves instantes, ficar áquem do que te é devido.

Tem um bom dia, Anjo Meu. Tem um muito bom dia, tu também!

Momento I | Dois talismãs

Novembro 7, 2006


Chico Buarque“Eu te Amo” e “Palavra de Mulher”
(Show Carioca – 2006)

Chico é grave. Muito, muito grave. Real como a carne. Digo. Tenho a certeza. E não, não esqueço. Não quero, nem tão pouco quero. É impossível. E é bom que me lembre e não esqueça. Sempre. Queimados os navios, depois de se ter amado feito pagãos, e acabar com as pernas, tantas vezes confundidas, a falhar na hora de partir, quando a sorte resta entornada pelo chão, e ficar com as roupas ainda no armário e os seios ainda nas mãos. Voltar feito viciada mesmo que a história seja só mais uma quimera e haver uma outra vadia no lugar. Descobrir que afinal o ego era mais forte e o amor mais pequeno. Palavra de mulher: é sem concerto, não tem remédio. Nunca mais se esquece. Eu sei. É o maior medo: que o melhor seja desistir de vez e nem pagar para ver. Se a dor volta ou, quem sabe, o milagre acontece e vai embora de vez. Para nunca mais se lembrar. Como até agora, como até aqui. A cada instante. Por melhor que ás vezes chegue. Desistir de regressar ao lugar de todas as tristezas e ficar enfim onde se é mais feliz.

(…)

Olho em volta: tanta gente ali, junta sob o mesmo credo…  há-de haver alguém que entenda, enquanto escuta, de que se fala afinal quando se canta. Não é possível que de entre os muitos que (quero crer!), não pagaram pelo ingresso só para marcar presença no happening da season, não haja alguém que entenda, alguém em quem o está sendo dito a cantar faça sentido, alguém para quem não seja só mais uma canção, não seja apenas e só o tema que se seguiu no alinhamento do repertório. Por acaso. Por mero acaso. Por capricho do artista. Será que se perguntar alto me mandam calar? Será que se perguntar alto me ouvem? Será que me respondem? Ou será que a minha pergunta vem perturbar o escuro, o silêncio, o espectáculo, o fim pago pelo ingresso? Não sei. Por isso fico quieta. Basta quieta. É tudo. Como as canções. Estas. As duas. Talismãs meus que não espero que mais ninguém reconheça. Basto eu. É tudo.

* grata a Tauil, autor do video, pela cortesia.

Script #28 | Assisto de camarote

Novembro 7, 2006

Não há enganos, sossega. Já nada nos atraiçoa. Nem mesmo nós. Nem mesmo o que fomos e que, por mais que queiramos, não conseguimos voltar. Livremente. Espontaneamente. Sem esforço. Porque sim. Como nos acontecia que fosse. Antes. Antigamente. Lá atrás.

(…) 

Esse perto ainda é longe, tão longe. Desabrido de um tanto ou quanto desajeitado. Desajeitado com o amor ou a eminência dele. Ou a insuficiência dele: agora, ainda, aqui, afinal. Embaraçado e desengonçado. Esquivo e oscilante. Irregular e disperso. A espaços. E então falta-lhe a força e o vinco rubro. Falta-lhe chama e contágio. E fico eu, a vê-lo assim, descrente de que alguma vez se possa voltar a exibir exuberante, firme e orgulhoso como outrora, a incendiar redores e olhares. Tão brando e tão igual aos outros, agora. Insonso como quase todos os outros, sem aquela diferença de antes que o distinguia e elevava. E largo a mão e largo a veia. Não me puxa, não me prende. Não procuro o que não me procura. Para mim também já tanto me faz. O descompromisso também me alivia. O desapego também me é preferível. A mim. Agora. Aqui. Assim. A distração dá-me espaço, rasga espaço, abre espaço, à disponibilidade, aos intervalos por preencher, a  tudo o que está em branco e vai sendo deixado em branco. Espaço para outros preenchimentos, quem sabe. Qualquer coisa que se insinue e chegue melhor e mais feliz, enlevos mais promissores, quem sabe. Nunca se sabe, já se sabe. Na desatenção fico, deixada solta, tão solta, demasiado solta. Mas não é mau, agora. Já não magoa, nem faz doer. A desatenção é assim como uma carta de alforria, ainda que por assinar, uma porta aberta para a liberdade, de qualquer forma. E nessa óbvia e manifesta incapacidade de voltar plena ao sentir de outrora, respiro eu de alívio também. Hoje, esta noite. Feliz de saber que afinal não tenho dono porque também não me importa ter um dono assim. Nada que caminha adiante de mim na calçada me possui. Ninguém que me esquece e larga pode me possuir. Nada nem ninguém que me desprefere e troca assim tão fácil, assim com tanta ligeireiza e superficialidade, pode ser meu dono e me chamar de seu. E eu gosto de liberdades e alforrias. Me alivia, pois, saber, sentir, ver, pressentir. Melhor assim, sim. por enquanto e até ver, eu já não acreditavaa mesmo. Não acreditava na possibilidade de uma elipse no tempo, no poder de reverter as eras, de tudo algum dia, alguma vez, poder voltar a ser aquilo que era. Porque já foi. Não é mais. E ainda bem porque agora já não dói.Como doeu. Mas isso era dantes, quando eu ainda era crente nos super-poderes dos seres sobrehumanos e invencíveis. 

(…)

E se eu começar a rir? A rir alto, a rir no escuro. E se eu começar a rir? Se meus olhos marejados gargalharem a felicidade aliviada e indolor que os molha neste instante? Se eu romper o abismo e desfizer o equívoco e de uma vez por todas revelar que atingi uma salvação que ainda esbracejas para alcançar? Sim, poderia ser. Mas não vale a pena. Não quero morrer carrasca de ninguém. Nem de ti.

(…)

seguras minha mão, não sei se porque tem de ser, se por não saberes que outra coisa mais fazer. Aqui. Agora. No escuro. Na solenidade que se queria a um  momento que não tem, na verdade, tanta solenidade assim. Só aquela que lhe queremos dar sem conseguir. E eu deixo, com vontade de te sossegar e de te sussurrar sem ninguém ouvir, que não tem que ser, que não é preciso. Não é por isso que me prendes nem trazes para mais perto de ti.

(…)

Já que é assim, eu vou e vou sem custo. Mas não era preciso, sabes?! Não tinha que ser, não era preciso. Mas vou sim. Para não te deixar cair no engano de achar que recuso por capricho ou, o que seria pior, por birra ou mágoa, capricho ou ofensa. Comemos qualquer coisa, no fim de tudo. Jantamos. Janto. Ao pé de ti.

(…)

Dou-te um beijo feliz. Esgotou-se por hoje o tempo de suportarmos a presença. Agora queremos distância e um pouco de solidão que nos proteja. Do tédio, do cansaço, da impaciência, quem sabe do medo. E entro no carro feliz. Por estranho que pareça, quando arranco e a cidade me engole, sou feliz. Somos outra vez iguais, tu e e eu. Sentimos o mesmo e isso é bom: aproxima-nos. Boa noite, Querida!

Script #27 | Par entre iguais

Novembro 3, 2006

famintos.jpgOnde é que está a urgência? Onde é que está a fome?… vou-me eu perguntando no rasto dos minutos que passam, que entretanto passaram e vão passando. Eu, que me conheço o suficiente para saber que só me interesso e movo em nome dos que são famintos e esfomeados, dos que são iguais a mim. Eu que sei, tenho a certeza, que de outra forma não vale a pena. Nunca há-de valer senão penas.

Script #26 | Dedicatória

Novembro 2, 2006

Mariza“Cavaleiro Monge”
(Letra: Fernando pessoa / Música: Mário Pacheco)

Vens-me sem aviso, densa e nítida, pelo escuro – no escuro do fado, meu fado escuro – a rasgar um sulco fino, um arrepio fundo. Vens-me do outro lado do mundo, agarrada a crinas d’ água pelo teu caminho das pedras, desfraldada e em desalinho, livre e bruta como um vento sem dono, como és e te amei um dia, antes de agora: tronco da mesma raiz.  E é tua a minha primeira lágrima. Tua ainda, a minha única lágrima desta noite. Aqui. Do outro lado do mundo. Agora. Eu. E só não sei se choro por ti, que prossegues longe e só, se por mim por ser pequena, tão pequena ainda afinal!… Tão pequena e presa ao que de maior me prende aquém de ti, de ti,  Senhora dos Bravios e Agrestes Galopes, meu Cavalo de Sombra, que “caminhais liberta / caminhais em mim”.

Script # 25 | Sobre a reeleição ou o primeiro dia do último mandato

Outubro 30, 2006

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Foto: Fernando Bizerra Jr.

Muito bem!… Acreditemos que sim, então: celebremos a vitória de Lula. Independentemente das razões políticas. Em nome daquela antiga conviccção: também num final de Outubro… quando estavamos ainda e só em 2002… antes, (ainda antes) do princípio de todas as derrocadas… Sabes, agrada-me pensar que enquanto o reinado de Lula respirar, há uma qualquer esperança que ainda reluz. Ainda que ténue. Mesmo que enfraquecida. Apesar de tudo. Apesar de todos os factos apontarem o contrário. Ainda que sem aquela outra euforia solta pelas ruas nordestinas, sem o autocarro vermelho garrido e exuberante de então. Seja, vamos lá, sim! Hoje: a homenagem, o copo erguido, as “loiras geladas”. Seja, então: celebremos, mais que não seja, a sobrevivência do rei que pode estar já quase morto, mas ainda não foi desta que foi deposto!