Archive for the 'Photos' Category

‘No Promises’: Começar 2007 em Beleza

Janeiro 10, 2007

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play_3475.gif Carla Bruni – “If You’re Coming In The Fall” videoclip1.gif

Se o link não funcionar podem ver AQUI

(…)

Para começar em beleza, o novo ano traz de volta Carla Bruni, a cantautora que há 4 anos surpreendeu tudo e todos com Quelqu´un m´a Dit. Tenho andado a escutar No Promises com atenção e em crescente devoção, confesso. A somar à música, a delicadeza estética do projecto gráfico do álbum: muito, muito bonito.

Sob o efeito do entusiasmo que me invade ainda, recomendo vivamente o trabalho de composição de Carla Bruni sobre poemas de autores como o poeta irlandês William Butler Yeats, o inglês Wystan Hugh Auden, Christina Rossetti (grande senhora da poesia britânica do séc. XIX), Walter de la Mare, Emily Dickinson e Dorothy Parker, referências de eleição da literatura norte americana.

Há um player online, no MySpace da cantora, onde se podem ouvir todas as faixas de No Promises  AQUI.

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Citando de cor | Aos que não se escondem

Dezembro 30, 2006

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Po karalho mais os sms e os mms e os msn[arroba]dasssssssseeeee
por Mega 

Po caralho mais as novas tecnologias, paaahhh! E mais esses cabrões que se escondem atrás dessas merdas de mensagens de telemóveis e messengers porque não têm tomates para dizer as merdas nos olhos, fodam-se. Já nem escrever sabem. «É a mesma coisa e não sei quê!». O caralho! E o cheiro? E o toque? E a frontalidade? E os gestos? E as pessoas, seus merdosos? Qualquer dia andam a fazer filhos pelo messenger e a chamá-los Rita(smile)@hotmail.com e o caralho. Mas cuidado com os abortos espontâneos, caralho, não vá o sinal enfraquecer e lá se fode a ligação. Cabrões do Caralho! E já agora ponham o Hi5 também no cu, seus paneleiros de merda!

in Blog po-caralho-pah

Conheço Mega na vida. Descobri-o quase por acaso no cyberespaço, num imediato reconhecimento da habilidade da escrita e da pena exímia e certeira que é a sua.  Segui lendo o seu blog (até que enfim! benvindo! bem haja!…) e reconheci, a um tempo, o discurso e a postura, em suma, o esquisso e a traça do caracter de um ser humano inequivocamente ímpar, que me mora no coração há alguns anos e que guardo como umtalismã da vida e dos encontros que ela prepara.
Leio o que Mega escreve comum orgulho difícil de expressar. Percorro-lhe raivas e revoltas e sei, a cada entre-linha, porque fio de prumo se guia e norteia o afecto que lhe tenho. Aprecio-lhe, sempre lhe apreciei, a capacidade de se indignar e a coragem de se insurgir incondicionalmente. Sempre me curvei em vénia diante da sua espinha dorsal tão vertical e das suas vísceras tão susceptíveis. Não é condescendente, não faz concessões, não sabe – e nem quer saber – o que é “ser politicamente correcto“. É franco e transparente e basta-lhe. Comove-se e emociona-se e chega. Sente e isso é já muito (tanto!). Não se desculpa, não se desfaz em remedeios, não dá o dito-pelo-não-dito, não tapa o sol com a peneira, não mete-os-dedos-pelos-olhos-dentro a ninguém. Não tem duas vidas, duas caras, duas palavras,dois corações. Não tem dois pesos e duas medidas, não pede o que não pede, antes de mais, a si próprio, não exige o que não é capaz de dar, não age nem reage por interesses, nem tem por hábito deitar prévias contas à vida, nem tem por costume colocar nos pratos da balança o compto de perdas e ganhos, nem se move em função das conveniências. Não engole sapos: cospe sapos. Alto e para bem longe, sem nenhum receio que lhe caiam em cima, nem se preocupar tão pouco onde possam vir a cair.  

Assim é Mega: como o post que acabo de evocar permite intuir… e  este e este e este e mais este e ainda este e, para acabar, este.

(…)

E – não necessariamente a propósito do final do ano prestes a cumprir-se e da proliferação de metáforas e outras simbologias, de que andam cheios os nossos ouvidos e o património da História Universal -, deixo um texto curioso desse outro ‘mestre grande’ da palavra, Millôr Fernandes.

Que cada um lhe dê a serventia que entender ou desentender: na vida ou na morte, para fechar 2006 ou para entrar em 2007, eu sei lá!…  Deixo-o, em todo o caso, aqui, assente que está o primado que confere a cada leitor a liberdade de fazer do que por cá encontra o que mais lhe agradar. 

O ‘Foda-se’
por Millôr Fernandes

Existe algo mais libertário do que o conceito do foda-se!? O foda-se! aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor.

Reorganiza as coisas. Me liberta. Não quer sair comigo? Então foda-se!.

Vai querer decidir essa merda sozinho (a) mesmo? Então foda-se!.

O direito ao foda-se! deveria estar assegurado na Constituição Federal.

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

Prá caralho, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que Prá caralho? Prá caralho tende ao infinito, é quase uma expressão matemática.

A Via-Láctea tem estrelas prá caralho, o Sol é quente prá caralho, o universo é antigo prá caralho, eu gosto de cerveja prá caralho, entende?

No gênero do Prá caralho, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso Nem fodendo!.

O Nem fodendo é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida.

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um Puta-que-pariu!, ou seu correlato Puta-que-o-pariu!, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba… Diante de uma notícia irritante qualquer puta-que-o-pariu! dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso vai tomar no cu!? E sua maravilhosa e reforçadora derivação vai tomar no olho do seu cu!. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: Chega! Vai tomar no olho do seu cu!. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e sai a rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

«100 Imagens Reconfortantes Para Fumadores em Tempos Difíceis »

Dezembro 30, 2006

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Vale a pena correr as 100 imagens que, a este propósito, o David coleccionou num blog especialmente criado para o efeito!…

Mulher | A coisa mais impressionante que alguém jamais me disse

Dezembro 29, 2006


Foto: Matsuo – Ela, a minha Gueisha

Ontem fui jantar a casa dos pais. Devia estar bem disposta porque falei ainda mais do que o costume. E ninguém saía da mesa, e eram muitas as gargalhadas e as caras divertidas. Estavamos nisto há muito, muito tempo (nem sei quanto!…), quando me lembrei da tia-avó de 91 anos que a mãe foi buscar a casa e tem tido com ela, nestes últimos dias. Interrompi-me de repente e caí em mim. Ocorreu-me que não devia estar a perceber nada, pedi-lhe desculpa por tantas frases atropeladas em pressa e riso, tanto barulho, tanto disparate e prometi-lhe que me ia calar imediatamente. Foi também só nessa altura que me dei conta que me seguia atenta com o olhar e que também ela ria e ria e ria, um riso estranho, que saía assim desbargado mas sem fazer nenhum ruído. Ria mesmo muito porque quando olhei para ela vi que ia limpando discretamente as lágrimas do riso com a ponta do lenço de linho, que sempre traz entalado na manga, rente ao pulso. «Continue, continue, filha! Estou a gostar de ouvir», disse. E no frenesim incontrolável das gargalhadas em que me encontrava, aquilo deve ter sido, de facto, o bastante para me encorajar a retomar o tropel.
Sim, devo ter continuado, porque mais à frente voltei a cair em mim e a deter-me. Voltei a pedir-lhe desculpa pelo barulho e por tanto disparate. E eis que ela me diz:

«Continue, filha! Continue que eu estou a gostar muito. É a primeira vez que me rio assim. Sabe?! Eu nunca me ri. Nem me lembro de me ter rido. Desde que fiz 23 anos, então, tenho a certeza: nunca me ri. É a primeira vez.»

A tia-avó casou aos 23 anos e esteve casada 68. Ontem, enquanto se ria, tinha já 91 anos.

(…)

É verdade eu ando contente e animada. É verdade que, geralmente, mesmo dentro das maiores tormentas e tempestades, me sucede esta coisa esquisita de genuinamente me saber de bem com a vida. E também é verdade, sim, que ando particularmente alegre e bem disposta. Mas, muito francamente, ontem, já tarde na noite, quando saí de casa dos pais, tive a clara certeza de que, se não andasse, ficava!… Há lá alguma coisa que possa ter a pretensão de ser suficientemente forte e importante para ensombrar a felicidade de ouvir alguém dizer-nos que tivemos a capacidade de a fazer rir, pela primeira vez, em 68 anos?? 

Subitamente, sou eu quem tem vontade de lhe saltar ao pescoço e lhe dizer que se tornou ainda mais minha tia-avó do que nunca, que me ganhou todos os afectos e mais algum, que me conquistou em absoluto o coração, pela forma franca e pura com que se rendeu ao meu efeito: sem defesas, sem pudores, sem receios, nem máscaras.
Não fosse já tão tarde, nem esta sensação me ter ocorrido durante o caminho, e teria invertido a marcha e voltado atrás, só para lhe dizer que também ela foi a primeira pessoa a ser capaz de me devolver na íntegra algo de que também já não me lembrava: aquele sentimento ímpar e indescritível de me sentir e saber (sim!) a menina mais feliz e especial do mundo. 

(…)

Nunca (agora digo eu!) ninguém me disse nada que me tivesse perturbado tão profundamente! Foi, sem sombra de dúvida, a coisa mais impressionante que jamais alguém me disse e é só por isso que, ainda que possa parecer descabido, não consigo evitar de mencionar o “episódio“.

Mulher | «About a Girl»: Cibelle

Dezembro 29, 2006

 
Foto: Cibelle

A última vez que estivemos juntas foi em Abril. Chovia torrencialmente em Lisboa e passámos grande parte da manhã a beber chá, perto do Marquês de Pombal, a admirar o tríptico de gravuras japonesas suspenso na parede, aproveitando para pôr em dia as novidades de Londres e a espiar a rua pelo  foyer envidraçado, à espera de uma aberta no dilúvio que nos permitisse cumprir o projecto de fazer uma incursão pelas lojas de vintage do Bairro Alto. Dois dias depois viajámos para o Porto. Ela subiu ao palco da Casa da Música e eu escutei-a entre os lambrins do backstage e a primeira fila da plateia.

O meu jornal e algumas estações de rádio da Invicta foram os únicos a assinalar-lhe a presença entre nós. No mais, a sua passagem por Portugal passou quase despercebida. Sempre aquela avaliação cretina e precipitada que vem sendo usual nos media de cá: “mais uma brasileira, e daí?!”. Foram tolos, foram tontos: falharam a qualidade de excelência do trabalho singular que ela vem desenvolvendo na Europa. Só depois do espectáculo se deram conta. Porque foi irrepreensível e resolveram ir indagar quem era afinal aquela lolita, entre o avant-gard e o retro, que parecia saída de um filme dos anos 50, lábios carmim, pele alva, cabelo à garçon e poses encenadas na mais anacrónica coquetterie, inspirada nas caprichosas divas de Hollywood e nas demoisélles mignons dos cafés parisienses do começo do século. Foram tarde: ela partia em voo próximo, embarcava no dia seguinte, em Pedras Rubras, com a sua gabardine de Ingrid Bergman e as suas valises tigresse e crocco.  

Conversámos há dias por telefone, e entre os votos Feliz Natal lá me deu as novidades. No começo de Fevereiro canta no ilustre Carnegie Hall, em Nova Iorque, e lá mais para o meio do mês regressa a Portugal para dois concertos.

Chama-se Cibelle e é bom que, desta vez, os interessados estejam atentos. Para não falharem a oportunidade de a ver de perto e a ouvir ao vivo. Como em Abril.

Para ouvir AQUI

Chatterbox | Fly me to the moon!

Dezembro 27, 2006

Secção | Querido Leitor 

Durante os próximos dias é ver os amigos partir, num misto de mini-férias de Inverno e planos de Réveillon. Na impossibilidade de reter na memória as datas e horários de todos os vossos voos e escalas, opto por pendurar aqui na janela do blog um cartaz gigante: boa viagem, a todos!
Que a passagem de ano seja a perfeita alegoria de outras viagens em trânsito, das que anseavam por começo e das que ainda faltavam cumprir, e que 2007 chegue pleno de rumos, em direcção a um tempo de coisas novas e mais felizes!

Boa Viagem, a todos vocês e (por favor!) aproveitem cada instante de coração limpo de mágoas e ressentimentos: não há porque não confiar que 2007 seja um muito melhor ano – a memória do menos bom de 2006 tem que servir para alguma coisa, certo?!

Cuidem-se e regressem de sorriso renovado!

Ass: a autora do blog

Chatterbox | Feliz Natal!!

Dezembro 25, 2006

Secção | Querido Leitor

Grata e sensibilizada com todos os mimos e ternuras que me têm feito chegar.
Que este seja, então, um muito excelente Natal!

Fica o meu forte abraço a todos vós.

Ass: a autora do blog

Guerrilhas e actos terroristas em Noite de Natal

Dezembro 25, 2006

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Foto: Ali Haider

Tenho estado a reflectir sobre as múltiplas referências à paz que, nos últimos dias, se foram acrescentando aqui nos comments e nos emails que me enviaram.

Ontem, logo pela manhã, no rádio do carro, fui informada da invasão da Somália por tropas da Etiópia. As crias desataram a fazer perguntas (muitas perguntas!). Perguntas difíceis de atenuar porque questionam perplexidades sem resposta que são minhas também. Somo as sombras da Somália às guerras ateadas e aos conflitos latentes que me angustiam. Por razões minhas, aflige-me de sobremaneira o que se passa em Timor e o horrendo genocídio a lavrar em Darfur.  Não vale a pena fazer aqui o inventário do horror, lembrar que também existe o Iraque e a Faixa de Gaza. Vale, todavia, a pena reproduzir uma frase de Pequena Cria, no banco de trás:

«As pessoas dizem que temos sorte, que em Portugal, pelo menos, não há guerras, mas eu acho que há. Só que são guerras invisíveis porque andam escondidas no coração de algumas pessoas e não se vêem. Há muitas pessoas que trazem o coração e a cabeça em guerra e só damos por isso quando nos bombardeiam com coisas que nos magoam muito!…»

(…)

E vem a noite e a Consoada. No ecran da televisão sem som passam imagens fugazes de gentes e países a braços com guerras que não se interrompem só porque já é meia-noite. E vou eu pensando, de mim para comigo, em como é implacável e estridente esse estampido dos mísseis disparados de longe, mesmo quando carregar numa tecla permite que lhe retiremos o som!… E volto a lembrar-me das crias e da sua lucidez, no banco de trás do carro, esta manhã. Subitamente, Portugal já não me parece um oásis a salvo de tormentos bélicos: há sim, perigosos corações a ameaçar a nossa paz com as guerras atrozes que os mastigam por dentro e cujos estilhaços beliscam à distância os vidros da casa em festa. E ergo do fundo do peito qualquer coisa a que nem sei se chame voto, desejo ou prece, ou senão que outro nome lhe dê. Qualquer coisa que pede que se aquietem para sempre, para seu e nosso bem.   

(…)

Porque eu não entendo, juro que não entendo, como podem alguns teimar na escolha dos caminhos da eternalização dos conflitos.
Não entendo, juro que não entendo, como pode haver quem considere a Noite de Natal uma oportunidade propícia ao assalto e ao embuste, um momento estratégico para o avanço camuflado da invasão.
Que “santa” saudade poderá ser essa, que dizem albergar-se-lhes nos corações, e que se mata estremecendo a paz, minando o sossego e vangloriando-se do seu poder para espalhar a discórdia?!

Não, eu não entendo – e jamais entenderei – que “nobres” sentimentos e intenções são essas, que fazem alguns serem capazes de actos de pura guerrilha e terrorismo em plena Noite de Natal. 

(…)

… E esta frase, só esta frase, a ribombar dentro de mim, o resto da madrugada:
«Deixo-vos a Paz, dou-vos a minha paz»
Vá-se lá saber porquê?!…

Warm

Dezembro 21, 2006

Esta semana a casa encheu-se das luzes que nunca se deveriam ter apagado. Porque são mais felizes as coisas bonitas! Muito, muito mais felizes, eu sei. Tenho a certeza.

Christmas Wish

Dezembro 21, 2006

… E depois compra-me algodão doce! Para eu fazer de conta que és ainda tu, a derreter na minha boca.

Lugares | 69 horas em Roma

Dezembro 19, 2006


Foto: M.C. – Coliseu de Roma (Dezembro de 2006)

Lugares | Colors of India

Dezembro 16, 2006

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Foto: V. G. – 12 de Dezembro de 2006

Script # 36 | A Maldição de Adamastor

Dezembro 15, 2006

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Foto: M. C. – detalhe do Palácio da Pena (Sintra)

Sou forçada a dar a mão à palmatória e a constatar que é verdade, sim: por mais estranho e inconcebível que nos possa parecer, alguns humanos corações preferem para si a maldição de Adamastor. E vivem de bom grado e sem grande fadário, sim, o tormento que até a um gigante de pedra consumia: o cerco próximo do intangível.

«As portas que batem / nas casas que esperam»

Dezembro 15, 2006

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Foto: Vik Muniz in Aldina Duarte

Há alguns dias que esta imagem me arranha, daqui e dali.  Alocou-a Aldina no seu blog. Colocou-o lá e costurou-lhe na baínha um poema de Maria Judite de Carvalho, a que faz muito tempo não ouvia ninguém fazer alusão. Não sei falar, e na verdade nem muito importa que fale, do efeito perturbador que me causou.  Ao limite, sei bem o quanto são insondáveis as razões dos interpelos. O que é certo é que já passaram alguns dias – dias cheios, de tudo e de nada, como é próprios dos dias e da gente, dos dias que quase toda a gente tem: eu sem excepção –  e, ainda assim, a imagem não me larga, antes persiste no interpelo: AQUI

Fundos de Açúcar

Dezembro 13, 2006

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Eu gosto de reparar nas pequenas coisas suspensas nas coisas mais banais do dia-a-dia. Não sei bem se será por gosto, se será por não conseguir evitar essa quase involuntária atenção que lhes presto.

Hoje, por exemplo!… Gosto de café. Toda a gente sabe que amo o cheiro e o sabor do café. Gosto, pois, do prazer inexplicável de uma chávena da café. E como sucede com todas as coisas, gosto muito e gosto muitas vezes. Mas depois também gosto logo, também gosto agora e já, como igualmente me sucede em relação a quase tudo o que gosto. Assim sendo, tenho por hábito ter sempre café feito, em casa. Café com que vou enchendo a caneca e aquecendo no micro-ondas. Também gosto de beber sempre pela mesma caneca, o que equivale a dizer que a caneca é sempre a mesma e o café se vai revezando lá dentro. Soma-se ainda a esta quantidade de peculiaridades totalmente irrisórias a meu respeito uma irremediável preguiça para afazeres domésticos, particularmente gritante no caso de todos aqueles que passem pela cozinha. Ora, o micro-ondas está na cozinha, que apesar das excentricidades que me apontam, ainda não me deu para o instalar nem por cima da caixa do correio, nem ao lado da banheira. Está, portanto, como a maioria dos micro-ondas, instalado na cozinha. É quanto baste para, ainda que artificialmente, me surgir associado no subconsciente a essa zona de alarme e alergia que me aguça a preguiça, no que toca aos afazeres domésticos. Fica assim explicado por que razão, mesmo tendo o café fresco, acabadinho de fazer, como um dos meus prazeres de eleição, me resigno muitas vezes a esta coisa de beber café requentado da cafeteira.

Há bocado, apeteceu-me café. Já me tinha apetecido outras vezes, esta manhã. Mas há bocado apeteceu-me mais. Lembrei-me da cafeteira cheia e, entre a preguiça e a vontade, senti-me satisfeita com a imediatez e a facilidade de ter à mão tudo o que precisava para satisfazer o desejo. Repeti, portanto, o gesto:  peguei na caneca, levantei-me, fui até à cafeteira, repus o nível de líquido no seu interior, meti-a no micro-ondas, rodei o botão, tamborilei os dedos na bancada durante os breves segundos que demorou a aquecer, esperei pela campaínha, retirei a caneca, deixei cair só uns pequenos grãos de açúcar e voltei com ela para dentro.

Quando a levei à boca, porém, e o café me chegou aos lábios, o sabor era intragável e o prazer nenhum. Amargava de tão doce! Refiz mentalmente o processo de preparação da nova caneca de café. Tinha a certeza de que não deixara escorregar mais do que uma ínfima quantidade de grãos de açúcar lá para dentro…. E então?! O que sucedera? Que foi que tinha corrido mal?… Voltei à cozinha. Despejei o café no lava-loiças e fiquei a vê-lo escoar pelo ralo a baixo. Inclinei a caneca ligeiramente. Uma vez vazia, deixava ver um fundo semi-cristalizado de várias camadas de açúcar acumuladas durante a manhã, em resultado de todas as vezes que a enchi e tornei a encher. Abri a torneira, passei-a por água. Voltei a recordar-me do sabor intragável que me deixara na boca o último golo. Aumentei a potência do jacto de água. O fundo voltou a mostrar a superfície de porcelana a brilhar de limpa e vazia. Repeti a operação de a encher com café e de outra vez a aquecer. Voltei a tamborilar os dedos sobre a bancada, voltei a esperar o som da campaínha, a retirá-la de dentro do micro-ondas e a regressar com ela para dentro. Voltei a levá-la à boca. Desta vez nenhum doce a amargar nos lábios. Perfeito! Tal e qual como se quer, pensei.

E, no entretanto, fiquei eu a registar a ocorrência, fiquei eu a pensar que o fenómeno talvez seja passível de ser transposto para a vida, em geral. Não é bom encher e tornar a encher por cima de um conteúdo que se esvaziou. Porque há sempre sobras de açúcar que se vão acumulando no fundo e sucede que esse fundo de açúcar acumulado é o que nos há-de mais tarde amargar, intragável, quando mais uma vez nos roçar os lábios. 

E quando dou por mim, passei o resto da manhã a equacionar mentalmente a lista das coisas que devo urgentemente passar por baixo de um jacto de água que lhes limpe o fundo. 

Saio decidida a não enrolar o dia e voltar o quanto antes para casa, assustada com a quantidade de coisas que se foram acumulando à espera que eu as passe pela torneira.