Archive for the 'MPB' Category

Crónica | “A Criança de Botequim” – Paulo R. Pires

Julho 12, 2006

botequim.jpgMesa da uisqueria Villariño, onde Lucio Rangel, «discreto super-herói da música brasileira», apresentou certo dia Vinicius de Moraes e Tom Jobim, e que continua de pé no Centro do Rio de Janeiro. «No fundo do bar, há a reprodução, que ocupa toda uma parede, da famosa fotografia de uma mesa dos anos 50, tirada naquela exata posição no Villariño. Nela estão Vinicius, Lúcio, Paulo Mendes Campos, Fernando Lobo, José Condé, Sérgio Porto (de costas), um sujeito de óculos que jamais foi reconhecido e, solitariamente, encarando a câmera, uma criança. É Pedro de Moraes, filho do poeta e hoje fotógrafo de primeira, que na época devia ter uns 10 anos e, na foto, parece perdido entre baldinhos de gelo, copos longos, garrafas de uísque e boêmios históricos.»

Paulo Roberto Pires entrou na uisqueria Vilariño. Ficou a fixar a parede. E entre o olhar e a foto, qualquer coisa aconteceu. Aconteceu que a cabeça do pequeno Pedro, filho de Vinicuius de Moraes, espreitando sobre copos e gargalos, o impressionou. Aconteceu que deu consigo a perguntar se os filhos que os boémios levam consigo para bares e tertúlias são vitímas ou privilegiados. E por entre a divagação, escreveu um texto formidável, onde, entre outros interessantíssimos reparos, se lêem reflexões de vital pertinência pedagógica como por exemplo estas:

aspas_azuis2.jpg  Pois a criança de botequim não conhece geração, época ou lugar. É filho ou filha de boêmio e, em idade tida como imprópria e hora havida como incorreta, acaba freqüentando com o pai (ou a mãe) um meio em que adultos bebem, conversam, riem, namoram, contam histórias, casam, descasam, comemoram, lamentam. Um mundo que se abre diante de uma criança entre perplexa e entediada, a quem procuram agradar com revistas, lápis de cor e balas. E que finge entreter-se, destinando aos adultos a sábia condescendência infantil.

A criança de botequim é, na verdade, cumulada de afeto, do afeto possível do pai ou da mãe que, não resistindo aos apelos do desregramento boêmio, precisam manter um vínculo com a vida dos calendários e relógios.

Pois se a criança, quando no botequim, vive a solidão, pouco tempo depois acaba assimilando alguns valores nada desprezíveis. Sabe, desde cedo, que a vida só é rica com o encontro, com a troca, com a conversa, com a disponibilidade. Descobre que o “fazer nada” do papo furado é, quase sempre, um “fazer tudo”, exercício de inteligência. Experimenta como a amizade, de botequim ou não, é um antídoto contra a cretinice da vida. Lembra, para sempre, do pai ou da mãe como um amigo próximo, com quem a qualquer momento você pode sentar e trocar idéias de igual para igual, como sempre os viu fazer com os outros.»

Anúncios