Archive for the 'Mood' Category

Mulher | A coisa mais impressionante que alguém jamais me disse

Dezembro 29, 2006


Foto: Matsuo – Ela, a minha Gueisha

Ontem fui jantar a casa dos pais. Devia estar bem disposta porque falei ainda mais do que o costume. E ninguém saía da mesa, e eram muitas as gargalhadas e as caras divertidas. Estavamos nisto há muito, muito tempo (nem sei quanto!…), quando me lembrei da tia-avó de 91 anos que a mãe foi buscar a casa e tem tido com ela, nestes últimos dias. Interrompi-me de repente e caí em mim. Ocorreu-me que não devia estar a perceber nada, pedi-lhe desculpa por tantas frases atropeladas em pressa e riso, tanto barulho, tanto disparate e prometi-lhe que me ia calar imediatamente. Foi também só nessa altura que me dei conta que me seguia atenta com o olhar e que também ela ria e ria e ria, um riso estranho, que saía assim desbargado mas sem fazer nenhum ruído. Ria mesmo muito porque quando olhei para ela vi que ia limpando discretamente as lágrimas do riso com a ponta do lenço de linho, que sempre traz entalado na manga, rente ao pulso. «Continue, continue, filha! Estou a gostar de ouvir», disse. E no frenesim incontrolável das gargalhadas em que me encontrava, aquilo deve ter sido, de facto, o bastante para me encorajar a retomar o tropel.
Sim, devo ter continuado, porque mais à frente voltei a cair em mim e a deter-me. Voltei a pedir-lhe desculpa pelo barulho e por tanto disparate. E eis que ela me diz:

«Continue, filha! Continue que eu estou a gostar muito. É a primeira vez que me rio assim. Sabe?! Eu nunca me ri. Nem me lembro de me ter rido. Desde que fiz 23 anos, então, tenho a certeza: nunca me ri. É a primeira vez.»

A tia-avó casou aos 23 anos e esteve casada 68. Ontem, enquanto se ria, tinha já 91 anos.

(…)

É verdade eu ando contente e animada. É verdade que, geralmente, mesmo dentro das maiores tormentas e tempestades, me sucede esta coisa esquisita de genuinamente me saber de bem com a vida. E também é verdade, sim, que ando particularmente alegre e bem disposta. Mas, muito francamente, ontem, já tarde na noite, quando saí de casa dos pais, tive a clara certeza de que, se não andasse, ficava!… Há lá alguma coisa que possa ter a pretensão de ser suficientemente forte e importante para ensombrar a felicidade de ouvir alguém dizer-nos que tivemos a capacidade de a fazer rir, pela primeira vez, em 68 anos?? 

Subitamente, sou eu quem tem vontade de lhe saltar ao pescoço e lhe dizer que se tornou ainda mais minha tia-avó do que nunca, que me ganhou todos os afectos e mais algum, que me conquistou em absoluto o coração, pela forma franca e pura com que se rendeu ao meu efeito: sem defesas, sem pudores, sem receios, nem máscaras.
Não fosse já tão tarde, nem esta sensação me ter ocorrido durante o caminho, e teria invertido a marcha e voltado atrás, só para lhe dizer que também ela foi a primeira pessoa a ser capaz de me devolver na íntegra algo de que também já não me lembrava: aquele sentimento ímpar e indescritível de me sentir e saber (sim!) a menina mais feliz e especial do mundo. 

(…)

Nunca (agora digo eu!) ninguém me disse nada que me tivesse perturbado tão profundamente! Foi, sem sombra de dúvida, a coisa mais impressionante que jamais alguém me disse e é só por isso que, ainda que possa parecer descabido, não consigo evitar de mencionar o “episódio“.

Chatterbox | Fly me to the moon!

Dezembro 27, 2006

Secção | Querido Leitor 

Durante os próximos dias é ver os amigos partir, num misto de mini-férias de Inverno e planos de Réveillon. Na impossibilidade de reter na memória as datas e horários de todos os vossos voos e escalas, opto por pendurar aqui na janela do blog um cartaz gigante: boa viagem, a todos!
Que a passagem de ano seja a perfeita alegoria de outras viagens em trânsito, das que anseavam por começo e das que ainda faltavam cumprir, e que 2007 chegue pleno de rumos, em direcção a um tempo de coisas novas e mais felizes!

Boa Viagem, a todos vocês e (por favor!) aproveitem cada instante de coração limpo de mágoas e ressentimentos: não há porque não confiar que 2007 seja um muito melhor ano – a memória do menos bom de 2006 tem que servir para alguma coisa, certo?!

Cuidem-se e regressem de sorriso renovado!

Ass: a autora do blog

Chatterbox | Feliz Natal!!

Dezembro 25, 2006

Secção | Querido Leitor

Grata e sensibilizada com todos os mimos e ternuras que me têm feito chegar.
Que este seja, então, um muito excelente Natal!

Fica o meu forte abraço a todos vós.

Ass: a autora do blog

Guerrilhas e actos terroristas em Noite de Natal

Dezembro 25, 2006

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Foto: Ali Haider

Tenho estado a reflectir sobre as múltiplas referências à paz que, nos últimos dias, se foram acrescentando aqui nos comments e nos emails que me enviaram.

Ontem, logo pela manhã, no rádio do carro, fui informada da invasão da Somália por tropas da Etiópia. As crias desataram a fazer perguntas (muitas perguntas!). Perguntas difíceis de atenuar porque questionam perplexidades sem resposta que são minhas também. Somo as sombras da Somália às guerras ateadas e aos conflitos latentes que me angustiam. Por razões minhas, aflige-me de sobremaneira o que se passa em Timor e o horrendo genocídio a lavrar em Darfur.  Não vale a pena fazer aqui o inventário do horror, lembrar que também existe o Iraque e a Faixa de Gaza. Vale, todavia, a pena reproduzir uma frase de Pequena Cria, no banco de trás:

«As pessoas dizem que temos sorte, que em Portugal, pelo menos, não há guerras, mas eu acho que há. Só que são guerras invisíveis porque andam escondidas no coração de algumas pessoas e não se vêem. Há muitas pessoas que trazem o coração e a cabeça em guerra e só damos por isso quando nos bombardeiam com coisas que nos magoam muito!…»

(…)

E vem a noite e a Consoada. No ecran da televisão sem som passam imagens fugazes de gentes e países a braços com guerras que não se interrompem só porque já é meia-noite. E vou eu pensando, de mim para comigo, em como é implacável e estridente esse estampido dos mísseis disparados de longe, mesmo quando carregar numa tecla permite que lhe retiremos o som!… E volto a lembrar-me das crias e da sua lucidez, no banco de trás do carro, esta manhã. Subitamente, Portugal já não me parece um oásis a salvo de tormentos bélicos: há sim, perigosos corações a ameaçar a nossa paz com as guerras atrozes que os mastigam por dentro e cujos estilhaços beliscam à distância os vidros da casa em festa. E ergo do fundo do peito qualquer coisa a que nem sei se chame voto, desejo ou prece, ou senão que outro nome lhe dê. Qualquer coisa que pede que se aquietem para sempre, para seu e nosso bem.   

(…)

Porque eu não entendo, juro que não entendo, como podem alguns teimar na escolha dos caminhos da eternalização dos conflitos.
Não entendo, juro que não entendo, como pode haver quem considere a Noite de Natal uma oportunidade propícia ao assalto e ao embuste, um momento estratégico para o avanço camuflado da invasão.
Que “santa” saudade poderá ser essa, que dizem albergar-se-lhes nos corações, e que se mata estremecendo a paz, minando o sossego e vangloriando-se do seu poder para espalhar a discórdia?!

Não, eu não entendo – e jamais entenderei – que “nobres” sentimentos e intenções são essas, que fazem alguns serem capazes de actos de pura guerrilha e terrorismo em plena Noite de Natal. 

(…)

… E esta frase, só esta frase, a ribombar dentro de mim, o resto da madrugada:
«Deixo-vos a Paz, dou-vos a minha paz»
Vá-se lá saber porquê?!…

Warm

Dezembro 21, 2006

Esta semana a casa encheu-se das luzes que nunca se deveriam ter apagado. Porque são mais felizes as coisas bonitas! Muito, muito mais felizes, eu sei. Tenho a certeza.

Christmas Wish

Dezembro 21, 2006

… E depois compra-me algodão doce! Para eu fazer de conta que és ainda tu, a derreter na minha boca.

«As portas que batem / nas casas que esperam»

Dezembro 15, 2006

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Foto: Vik Muniz in Aldina Duarte

Há alguns dias que esta imagem me arranha, daqui e dali.  Alocou-a Aldina no seu blog. Colocou-o lá e costurou-lhe na baínha um poema de Maria Judite de Carvalho, a que faz muito tempo não ouvia ninguém fazer alusão. Não sei falar, e na verdade nem muito importa que fale, do efeito perturbador que me causou.  Ao limite, sei bem o quanto são insondáveis as razões dos interpelos. O que é certo é que já passaram alguns dias – dias cheios, de tudo e de nada, como é próprios dos dias e da gente, dos dias que quase toda a gente tem: eu sem excepção –  e, ainda assim, a imagem não me larga, antes persiste no interpelo: AQUI

Fundos de Açúcar

Dezembro 13, 2006

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Eu gosto de reparar nas pequenas coisas suspensas nas coisas mais banais do dia-a-dia. Não sei bem se será por gosto, se será por não conseguir evitar essa quase involuntária atenção que lhes presto.

Hoje, por exemplo!… Gosto de café. Toda a gente sabe que amo o cheiro e o sabor do café. Gosto, pois, do prazer inexplicável de uma chávena da café. E como sucede com todas as coisas, gosto muito e gosto muitas vezes. Mas depois também gosto logo, também gosto agora e já, como igualmente me sucede em relação a quase tudo o que gosto. Assim sendo, tenho por hábito ter sempre café feito, em casa. Café com que vou enchendo a caneca e aquecendo no micro-ondas. Também gosto de beber sempre pela mesma caneca, o que equivale a dizer que a caneca é sempre a mesma e o café se vai revezando lá dentro. Soma-se ainda a esta quantidade de peculiaridades totalmente irrisórias a meu respeito uma irremediável preguiça para afazeres domésticos, particularmente gritante no caso de todos aqueles que passem pela cozinha. Ora, o micro-ondas está na cozinha, que apesar das excentricidades que me apontam, ainda não me deu para o instalar nem por cima da caixa do correio, nem ao lado da banheira. Está, portanto, como a maioria dos micro-ondas, instalado na cozinha. É quanto baste para, ainda que artificialmente, me surgir associado no subconsciente a essa zona de alarme e alergia que me aguça a preguiça, no que toca aos afazeres domésticos. Fica assim explicado por que razão, mesmo tendo o café fresco, acabadinho de fazer, como um dos meus prazeres de eleição, me resigno muitas vezes a esta coisa de beber café requentado da cafeteira.

Há bocado, apeteceu-me café. Já me tinha apetecido outras vezes, esta manhã. Mas há bocado apeteceu-me mais. Lembrei-me da cafeteira cheia e, entre a preguiça e a vontade, senti-me satisfeita com a imediatez e a facilidade de ter à mão tudo o que precisava para satisfazer o desejo. Repeti, portanto, o gesto:  peguei na caneca, levantei-me, fui até à cafeteira, repus o nível de líquido no seu interior, meti-a no micro-ondas, rodei o botão, tamborilei os dedos na bancada durante os breves segundos que demorou a aquecer, esperei pela campaínha, retirei a caneca, deixei cair só uns pequenos grãos de açúcar e voltei com ela para dentro.

Quando a levei à boca, porém, e o café me chegou aos lábios, o sabor era intragável e o prazer nenhum. Amargava de tão doce! Refiz mentalmente o processo de preparação da nova caneca de café. Tinha a certeza de que não deixara escorregar mais do que uma ínfima quantidade de grãos de açúcar lá para dentro…. E então?! O que sucedera? Que foi que tinha corrido mal?… Voltei à cozinha. Despejei o café no lava-loiças e fiquei a vê-lo escoar pelo ralo a baixo. Inclinei a caneca ligeiramente. Uma vez vazia, deixava ver um fundo semi-cristalizado de várias camadas de açúcar acumuladas durante a manhã, em resultado de todas as vezes que a enchi e tornei a encher. Abri a torneira, passei-a por água. Voltei a recordar-me do sabor intragável que me deixara na boca o último golo. Aumentei a potência do jacto de água. O fundo voltou a mostrar a superfície de porcelana a brilhar de limpa e vazia. Repeti a operação de a encher com café e de outra vez a aquecer. Voltei a tamborilar os dedos sobre a bancada, voltei a esperar o som da campaínha, a retirá-la de dentro do micro-ondas e a regressar com ela para dentro. Voltei a levá-la à boca. Desta vez nenhum doce a amargar nos lábios. Perfeito! Tal e qual como se quer, pensei.

E, no entretanto, fiquei eu a registar a ocorrência, fiquei eu a pensar que o fenómeno talvez seja passível de ser transposto para a vida, em geral. Não é bom encher e tornar a encher por cima de um conteúdo que se esvaziou. Porque há sempre sobras de açúcar que se vão acumulando no fundo e sucede que esse fundo de açúcar acumulado é o que nos há-de mais tarde amargar, intragável, quando mais uma vez nos roçar os lábios. 

E quando dou por mim, passei o resto da manhã a equacionar mentalmente a lista das coisas que devo urgentemente passar por baixo de um jacto de água que lhes limpe o fundo. 

Saio decidida a não enrolar o dia e voltar o quanto antes para casa, assustada com a quantidade de coisas que se foram acumulando à espera que eu as passe pela torneira.

«Muito Louca»

Dezembro 11, 2006

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Foto: E. Weston – Sad Spring

Assim, sem mais nem porquê, Grande Loba tinha o hábito de citar de cor delirantes passagens de Alice no País das Maravilhas. Nunca percebi se, de algum modo, eu lhas inspirava, mas desconfio que por sempre ter sido assim e lhe estar na estéctica ou na natureza, eu sei lá. Essas tiradas entravam nas conversas, umas vezes de rajada, outras mais de mansinho, invadiam as falas, atravessavam a sequência dos discursos – vindas não se sabe de onde, para alcançar não sabe o quê –  e largavam-se em seguida, ora de fininho, ora abruptamente. Deixas sábias, a interpelar o cérebro como um jogo hábil, insinuante de rumos e verdades essenciais, a que sempre eu tentava ser atenta, mesmo quando me pareciam totalmente desprovidas de nexo e ligação. Espantava-se, Grande Loba, muitas vezes com a minha memória tão presente dos pequenos detalhes solúveis dessas narrativas da infância que, por norma o passar dos anos crescidos vai descolorindo e ratando. Espantava-me eu também, com a nitidez precisa com que me afluiam na lembrança, a cada toque que as evocava.
Muito, muito louco!… Tudo muito louco. Sempre.

Mas isso foi antes. Antes deste tempo de agora, deste tempo em que depois caí e teimo em me demorar, pueril e inconsequente, constrangedoramente banal e sem graça, de tão presa a frases básicas, palavras frouxas, atavismos fúteis, gestos frugais, emoções medíocres, tudo isto bem embolado num quotidiano cretino, requentado, mastigado e servido frio num prato de inox, pobre em nutrientes e vitaminas, sem sal nem pimenta, sem açúcar nem canela, que lhe dêem sabor ou condimento. Faltam-me as especiarias. Faltam-me as “especialidades”!…

E se me ocorre tudo isto agora, é porque (apesar de tudo) a saudade nunca me deu descanso e não pára de me morder. 
A saudade… Que saudade!…
… Quanta saudade, dessa órbita desmesurada onde tudo era grávido e grande, onde tudo era nobre e superior.
Como a loucura e os seres muito loucos.

Mood | Daqui a pouco há-de ser Domingo!

Dezembro 10, 2006

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Foto: Ana Arpa

  Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o amor por fim tenha recreio.

Natália Correia“Poema Destinado a Haver Domingo” in Passaporte (1958)

Acordo a ouvir esta música. Está por todos os lados, esta música, por todos os cantos e pisos da casa. Reproduz-se sozinha, sem precisar de tecla ou aparelho. Toca e toca e volta a tocar. No ar.  Como se fosse o som que o ar tem. Não é fantástico?!… Ás vezes acho que é por causa destes sortilégios que me acontecem na vida, que me ocorre mover como se ela fosse mágica. Toda mágica. Só mágica. Pura mágica. Pura e mágica. A tocar assim: como esta música que é como o som do ar, que está por todos os lados, a reproduzir-se sozinha por todos os cantos e pisos da casa, e que eu ainda não parei de ouvir desde que acordei.

Air“Playground Love”
Para escutar AQUI  ou AQUI

Sketching Lisbon

Dezembro 5, 2006

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Duas horas da tarde e ninguém pelas ruas. Diverte-me conduzir assim, atravessar a cidade deserta que é só água e ventania. Pensar as pessoas abrigadas do temporal. Longe da vista e do olfacto. Recolhidas algures. Só eu à mercê. Eu que não me importo. Eu que até gosto e acho belo: o temporal, a água, a ventania, e todas as coisas que não pedem a presença de mais ninguém.

Pela Lisboa da ‘Reconquista’

Dezembro 5, 2006

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Ontem jantei no Bairro Alto e,na véspera, em Alfama. É impressionante o efeito benéfico  que a mesa pode ter numa desejada reconciliação com Lisboa! Subitamente, neste alegre trânsito pelas colinas da cidade, dou-me conta que talvez tenha andado demasiado arredada pelos arrebaldes, junto ao rio que amo e (sim!) acho belo. Acontece que não é bom abandonar em definitivo o coração das cidades. Não é bom esquecer eternamente as ruas onde passa gente.

‘Até amanhã!’

Dezembro 4, 2006

gmail.jpgHoje, por todo o dia falei no gmail. Ou não falei no gmail. Seja como for, estive sempre no gmail.  Lá mais para o fim da tarde, quando estava prestes a desligá-lo, ocorreu-me o poema de Pessoa. E a seguir saí, que eu sei que depois das 19h ainda há tempo, ainda sobra muito tempo. Eu sei, sim. Depois do poente ainda há muita vida. Há (finalmente) a vida porque estive à espera todo o santo dia! 

(…)

aspas_azuis2.jpg  Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e práctico
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…

Álvaro de Campos – “Adiamento”

Café da manhã e umas voltas na Roda Gigante

Dezembro 4, 2006

cafedamanha04dez2006.jpgÉ sempre assim, nos períodos de grande turbilhão criativo: uma energia que acorda redobrada, imune às noites de sono curto. Ainda não são 10h da manhã e já mil coisas aconteceram, já mil coisas se fizeram, mil coisas se pensaram e ocorreram. Amo por demais este fulgor subterrâneo ao quotidiano, esta coisa de acordar e sentir o mundo como uma roda gigante que já se pôs em movimento.  E é por isso que não me toca a dormência do dia cinzento, nem posso perder tempo com as pemumbras insinuadas de Dezembro. É por isso que começo o dia já pedindo desculpa por me serem tão indiferentes o tédio e a branda passividade desses nadas que acontecem só porque se deixa, só porque se permite que alastrem como um caldo morno e insípido, um aconchego neutro em estômago vazio, um suave remédio preguiçoso da cura.

É boa, esta coisa de estar entre os primeiros a chegar! É boa, esta coisa de chegar a rir. É boa, esta coisa da alegria!

E á pergunta de sempre, á interjeicção do costume – “Bom dia, como estás?” – eu só posso responder: Estou ASSIM!

E, para começar, creio que  fica quase tudo dito.

Peito

Dezembro 4, 2006

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Trazes a mim o Mundo Verde e já nada mais padece da gravidade das coisas vãs. Tudo fica insignificante e pequeno. Até mesmo os desastres do coração.