Fundos de Açúcar

Dezembro 13, 2006

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Eu gosto de reparar nas pequenas coisas suspensas nas coisas mais banais do dia-a-dia. Não sei bem se será por gosto, se será por não conseguir evitar essa quase involuntária atenção que lhes presto.

Hoje, por exemplo!… Gosto de café. Toda a gente sabe que amo o cheiro e o sabor do café. Gosto, pois, do prazer inexplicável de uma chávena da café. E como sucede com todas as coisas, gosto muito e gosto muitas vezes. Mas depois também gosto logo, também gosto agora e já, como igualmente me sucede em relação a quase tudo o que gosto. Assim sendo, tenho por hábito ter sempre café feito, em casa. Café com que vou enchendo a caneca e aquecendo no micro-ondas. Também gosto de beber sempre pela mesma caneca, o que equivale a dizer que a caneca é sempre a mesma e o café se vai revezando lá dentro. Soma-se ainda a esta quantidade de peculiaridades totalmente irrisórias a meu respeito uma irremediável preguiça para afazeres domésticos, particularmente gritante no caso de todos aqueles que passem pela cozinha. Ora, o micro-ondas está na cozinha, que apesar das excentricidades que me apontam, ainda não me deu para o instalar nem por cima da caixa do correio, nem ao lado da banheira. Está, portanto, como a maioria dos micro-ondas, instalado na cozinha. É quanto baste para, ainda que artificialmente, me surgir associado no subconsciente a essa zona de alarme e alergia que me aguça a preguiça, no que toca aos afazeres domésticos. Fica assim explicado por que razão, mesmo tendo o café fresco, acabadinho de fazer, como um dos meus prazeres de eleição, me resigno muitas vezes a esta coisa de beber café requentado da cafeteira.

Há bocado, apeteceu-me café. Já me tinha apetecido outras vezes, esta manhã. Mas há bocado apeteceu-me mais. Lembrei-me da cafeteira cheia e, entre a preguiça e a vontade, senti-me satisfeita com a imediatez e a facilidade de ter à mão tudo o que precisava para satisfazer o desejo. Repeti, portanto, o gesto:  peguei na caneca, levantei-me, fui até à cafeteira, repus o nível de líquido no seu interior, meti-a no micro-ondas, rodei o botão, tamborilei os dedos na bancada durante os breves segundos que demorou a aquecer, esperei pela campaínha, retirei a caneca, deixei cair só uns pequenos grãos de açúcar e voltei com ela para dentro.

Quando a levei à boca, porém, e o café me chegou aos lábios, o sabor era intragável e o prazer nenhum. Amargava de tão doce! Refiz mentalmente o processo de preparação da nova caneca de café. Tinha a certeza de que não deixara escorregar mais do que uma ínfima quantidade de grãos de açúcar lá para dentro…. E então?! O que sucedera? Que foi que tinha corrido mal?… Voltei à cozinha. Despejei o café no lava-loiças e fiquei a vê-lo escoar pelo ralo a baixo. Inclinei a caneca ligeiramente. Uma vez vazia, deixava ver um fundo semi-cristalizado de várias camadas de açúcar acumuladas durante a manhã, em resultado de todas as vezes que a enchi e tornei a encher. Abri a torneira, passei-a por água. Voltei a recordar-me do sabor intragável que me deixara na boca o último golo. Aumentei a potência do jacto de água. O fundo voltou a mostrar a superfície de porcelana a brilhar de limpa e vazia. Repeti a operação de a encher com café e de outra vez a aquecer. Voltei a tamborilar os dedos sobre a bancada, voltei a esperar o som da campaínha, a retirá-la de dentro do micro-ondas e a regressar com ela para dentro. Voltei a levá-la à boca. Desta vez nenhum doce a amargar nos lábios. Perfeito! Tal e qual como se quer, pensei.

E, no entretanto, fiquei eu a registar a ocorrência, fiquei eu a pensar que o fenómeno talvez seja passível de ser transposto para a vida, em geral. Não é bom encher e tornar a encher por cima de um conteúdo que se esvaziou. Porque há sempre sobras de açúcar que se vão acumulando no fundo e sucede que esse fundo de açúcar acumulado é o que nos há-de mais tarde amargar, intragável, quando mais uma vez nos roçar os lábios. 

E quando dou por mim, passei o resto da manhã a equacionar mentalmente a lista das coisas que devo urgentemente passar por baixo de um jacto de água que lhes limpe o fundo. 

Saio decidida a não enrolar o dia e voltar o quanto antes para casa, assustada com a quantidade de coisas que se foram acumulando à espera que eu as passe pela torneira.

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2 Respostas to “Fundos de Açúcar”

  1. aNa Says:

    de vez em quando é preciso fazer uma limpeza – é isso mesmo.
    é que, muitos poucos fazem um muito. e ainda para mais, azedado. cheio de ranço.
    abraço cheio de sol – está um dia lindo! 🙂

  2. Erwin Says:

    Certa palavra dorme na sombra
    de um livro raro.
    Como desencantá-la?
    É a senha da vida
    a senha do mundo.
    Vou procurá-la.

    Vo procurá-la a vida inteira
    no mundo todo.
    Se tarda o encontro, se não a encontro,
    não desânimo,
    procuro sempre.

    Procuro sempre, e a minha procura
    ficará sendo
    minha palavra.

    Carlos Drummond de Andrade


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