«Muito Louca»

Dezembro 11, 2006

eweston_sadspring.jpg
Foto: E. Weston – Sad Spring

Assim, sem mais nem porquê, Grande Loba tinha o hábito de citar de cor delirantes passagens de Alice no País das Maravilhas. Nunca percebi se, de algum modo, eu lhas inspirava, mas desconfio que por sempre ter sido assim e lhe estar na estéctica ou na natureza, eu sei lá. Essas tiradas entravam nas conversas, umas vezes de rajada, outras mais de mansinho, invadiam as falas, atravessavam a sequência dos discursos – vindas não se sabe de onde, para alcançar não sabe o quê –  e largavam-se em seguida, ora de fininho, ora abruptamente. Deixas sábias, a interpelar o cérebro como um jogo hábil, insinuante de rumos e verdades essenciais, a que sempre eu tentava ser atenta, mesmo quando me pareciam totalmente desprovidas de nexo e ligação. Espantava-se, Grande Loba, muitas vezes com a minha memória tão presente dos pequenos detalhes solúveis dessas narrativas da infância que, por norma o passar dos anos crescidos vai descolorindo e ratando. Espantava-me eu também, com a nitidez precisa com que me afluiam na lembrança, a cada toque que as evocava.
Muito, muito louco!… Tudo muito louco. Sempre.

Mas isso foi antes. Antes deste tempo de agora, deste tempo em que depois caí e teimo em me demorar, pueril e inconsequente, constrangedoramente banal e sem graça, de tão presa a frases básicas, palavras frouxas, atavismos fúteis, gestos frugais, emoções medíocres, tudo isto bem embolado num quotidiano cretino, requentado, mastigado e servido frio num prato de inox, pobre em nutrientes e vitaminas, sem sal nem pimenta, sem açúcar nem canela, que lhe dêem sabor ou condimento. Faltam-me as especiarias. Faltam-me as “especialidades”!…

E se me ocorre tudo isto agora, é porque (apesar de tudo) a saudade nunca me deu descanso e não pára de me morder. 
A saudade… Que saudade!…
… Quanta saudade, dessa órbita desmesurada onde tudo era grávido e grande, onde tudo era nobre e superior.
Como a loucura e os seres muito loucos.

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Uma resposta to “«Muito Louca»”

  1. Erwin Says:

    Se vens a uma terra estranha
    curva-te

    se este lugar é esquisito
    curva-te

    se o dia é todo estranheza
    submete-te

    – és infinitamente mais estranho.

    Orides Fontela


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