Pesadelo

Dezembro 4, 2006

telecomando.jpg

aspas_azuis2.jpg A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.
E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No indindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

(…)

E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

(…)

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta…

Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
– Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

(…)
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade…

Vou deixá-la – decidido –
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

Mário de Sá-Carneiro “Serradura”

«Desculpe, não pode fumar cá dentro…» Desculpe, desculpe!… Desculpa peço eu, que devo ter adormecido, se adormecer se pode entre os corredores e as prateleiras. «Porque é que arrancaram a alcatifa e deixaram este chão de cimento que faz isto parecer um matadouro? Porquê?» Porquê, o quê, Cuspidora de Fogo?! Adormecer de repente? Ter sonhado acordada? «Não! O chão! O chão…» Sim, o chão. Afinal não era o sono! «Desculpe, volto a dizer: não pode fumar aqui… » Desculpe, peço desculpa. Outra vez. Mais uma vez.  Não sei o que sucedeu, peço desculpa. A última coisa de que me lembro eram as dobras das calças do Vasco, a escorrer lama e futebol, o calcanhar a sobrar no contra-forte, as chuteiras cor-de-tijolo, que a Raquel diz que são cor-de-laranja e eu teimo que são cor-de-burro-quando-foge, e o Vasco a concordar comigo, porque não e porque sim, porque concorda sempre com tudo o que eu digo e hoje acredita mais ainda, só para não voltar para casa sem uns sapatos novos. Mas depois devo ter sonhado, ou senão adormecido. Também é provável que tenha caído no sono. Aqui. Assim. De olhos abertos. Por não ter tido tempo de os fechar. Desculpe, desculpe!… Peço desculpa. Eu é que peço desculpa, sim. Porque ia jurar que estava só a cumprir a ordem firme de Dama de Ferro: encontrar um funcionário, pedir mais um par do 33, enquanto Cuspidora de Fogo se dedicava às botas de montanha 34 que ficam tão giras no pé da Raquel, a Raquel que eu acho tão igual a nós, tão mais parecida connosco do que nós, quando tinhamos a idade dela, e ninguém a concordar comigo, e ninguém a achar como eu e eu a ter a certeza sozinha sem me importar com consensos. E as vozes das Meninas todas bagunçadas, as vozes das crias a correr pelos quatro cantos, uma mão a afagar a minha e a afastar-se sem perguntar nada, e o meu ombro a roçar a gabardine encharcada do estranho que se cruza comigo, e a porta, e as luzes dos faróis dos carros a passar na rua, o escuro de já ser noite, o alívio de já ter saído, de já ter dito ‘até amanhã!’ e só voltar a falar no dia seguinte, e os corredores, e as prateleiras, e as botas de montanha, e os ténis e as chuteiras, e as caixas numeradas com algarismos míopes a iludir por fora a ordem que não respeitam dentro, e a lama nas dobras das calças do Vasco e as sardas da Raquel, e aquele sorriso firme à minha espera depois do cotovelo do corredor central, e o segurança careca que não tem bigode a entrar-me pela orelha esquerda: «Desculpe, não me ouviu dizer-lhe? Não pode fumar aqui…» Sim, sim… Não, não ouvi. Ou já ouvi. Ou parece que tinha ouvido, sim. Mas é que não sei o que aconteceu: adormeci e devo ter sonhado. Um pesadelo, sabe?!… Sabe como são os pesadelos, não sabe?! Mesmo que não saiba, não queira que lhe conte o meu. Era real, tão real!… «Como o Pai Natal??», pior, Vasco pior! «Também tinha barbas brancas?» Tinha barbas brancas, mas era mais antigo! «E também era velho??», muito, muito velho, Vasco! «E queres que eu lhe dê aquele meu grito fininho que deixa a Raquel surda às vezes??» Quero, quero sim. Ou antes,não quero! Já não quero. «Porquê?? Porque estamos dentro da loja e os senhores vêm e zangam-se??» Não, Vasco, não. Porque não ia adiantar: não ia servir para acordar,mesmo assim. «No pesadelo tiveste tempo de ver se havia o meu número?» Não, desculpa! Mas vou ver agora. «E era um pesadelo com dragões ou com gigantes? O que é que tinha? O que é que vinha lá? Viste??» Vinha um telecomando gigante… «Ah, afinal sempre havia gigantes!… E faziam o quê?? Marchavam ou só andavam com a barriga no chão?» Marchavam, sim! Marchavam sem sair do lugar e iam crescendo: os botões do telecomando, os canais da televisão, o ecran da televisão… e quando já estavam muito grandes e muito inchados, eram engolidos pelas almofadas do sofá… acho que era um sofá, sim… ou uma cama! Podia muito bem ser também o edredon de uma cama. Um telecomando enorme a crescer em direcção ao tecto, a casa a explodir pelo telhado, e os braços de uma pessoa a cair aos bocadinhos, a pessoa a ficar primeiro sem pés e a não poder andar, a não poder fugir, e depois a ver cair os braços, a perder os dedos e a já não poder mudar o canal da televisão, a não poder abraçar, a não poder fazer festas, a já não poder levantar-se e ir à cozinha fazer torradas, e o sofá que também podia ser cama a engolir a pessoa que já só era humana porque ainda tina orelas e tinha ouvidos, mas que já não tinha boca, nem pés, nem pernas, nem mãos, nem dedos, nem nada, a pessoa a ser engolida entre a sumaúma, as penas de ganso, eu não sei! Sou alérgica. espirrei muito e quando espirro fecho os olhos, deixo de ver. «E coças os olhos?» Sim, porque parece areia. «Havia uma praia, ao pé do telecomando gigante?!» Não, mas pareceu-me ouvir o mar. Ao fundo, lá muito ao fundo,é certo. Mas ainda me pareceu ouvir o mar. «Se calhar era a chuva… Olha, lá fora está outra vez a chover!» Sim, ou então também era sonho. «Não sonhaste, tiveste um pesadelo. É diferente!» Sim é diferente. Tive um pesadelo, se calhar foi isso. «Seja como for, não pode fumar aqui…» Sim, eu sei. Peço desculpa! Mas é que preciso sempre de um cigarro quando acordo, preciso sempre de um cigarro quando tenho um pesadelo. «Anda! Vamos por este corredor escondido! Assim o telecomando gigante não te encontra, mesmo que ainda venha à tua procura!» Não, não vem. Eu sei. Entrou em modo stand by, até amanhã.

(…)

Cuspidora de Fogo, sempre corrosiva: «Então? Já voltaram do Reino do Peter Pan!?..» E o Vasco a salvar-me outra vez: «Não! Fomos só ali um bocadinho à Terra do Nunca mas já voltámos!».  Voltámos, sim. E sabem que mais?! Vou saber se há o 33! Estou cheia de fome: apetece-me jantar!…

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2 Respostas to “Pesadelo”

  1. V. Says:

    Esse mesmo poeta se pergunta em outro verso: «Como é que em dor genial eu me eternizo?»
    Penso igual, lendo você. Incrivel como “em dor genial” você se “eterniza”, Bela!
    Um dom exclusivo de artistas e crianças.
    Você é os dois. Eis o que lhe salva da ruína, do desamparo, da doença da alma, do coração doente e da loucura: sua mágica capacidade de reverter sombras em arte.

    Baccio, Bela!


  2. (…)
    «Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
    Foi álcool mais raro e penetrante:
    É só de mim que ando delirante —
    Manhã tão forte que me anoiteceu.»

    Mário de Sá-Carneiro

    Sim, conheço o poema. Gosto dele, nesta parte mais ao fim. 🙂


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