Script #36 | «Love Hurts Sometime When You Do It Right»

Dezembro 2, 2006

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Sem palavras, Querida. Já sem voz e sem resposta, que é breve a vida e não há-de durar-me para sempre. E se acaso consentires que me perca, sabe Querida, que te fiquei para lá de mim, que te fiquei talvez até onde já nem houvesse vida. E se assim foi, perdoa-me Querida, pois terá sido esse o meu erro, terá sido essa a minha maior falta, a minha única traição: permitir que em morte ainda me tocasses, quando jurei entregar sempre e só a minha vida.

(…)

Mas como todas as coisas belas, eu e tu somos infatigáveis. E como todos os que amam a cima do chão, às vezes, também eu acredito que posso mover-me entre os deuses sem que nenhuma asa se me quebre. E hoje não é excepção. Vem, sim, vem buscar-me. Sobrehumana e cheia. Poderosa e resitente como o aço dos heróis e dos centauros. Magnífica, no teu peito armado de rapariga imortal. Porque eu e tu somos irrecusáveis sempre que bebemos da mesma cicuta que nos arremeça às duas para lá do céu – para lá: onde já nenhuma razão importa.

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6 Respostas to “Script #36 | «Love Hurts Sometime When You Do It Right»”

  1. DaniCast Says:

    Obrigada pelo link. Seu blog é maravilhoso, pura vertigem. Likei-te também no meu chá.

  2. V. Says:

    Gazelas correm ainda nas noites trópicas, sacodindo sua juba leonina, pisando dengosas e altivas com seu rabo de penas de arara vermelha. Faminta se enterra a fome predadora nos cafundós da mata escura, ciosa da vida loira, saudosa da loira viva. Vejo que nada se perdeu na criatura que carrego ao peito. Continua igual e livre, magestosa de caprichos, exposta como um de fruto mordido na hora da sede. Enrolo um cigarro de tabaco dos Andes. Sei que o aroma lhe agrada. Falo com o rio, Bela. Me conta estorias do galope nu da gazela beirando o leito das águas. Guardo seu trono. Quando a poeira das constelações assentar veremos quem vai ficar!

    Baccio, Bela!


  3. «Lagos onde aprendi a viver rente
    Ao instante mais nítido e recente»

    Sophia de Mello Breyner Andersen“Brasília” – O nome das coisas, Obra Poética III.

  4. Mara* Says:

    Carlos Drummond – Trechos do poema “Aparição Amorosa

    Encantada contigo, suas aparições por lá e seus escritos.

  5. Mara* Says:

    Agora sim, Carlos Drummond.

    O desejo perdura em ti que já não és,
    querida ausente, a perseguir-me, suave?
    Tua transparência roça-me a pele, convida
    a refazermos carícias impraticáveis…
    Tua visita ardente me consola.
    Tua visita ardente me desola.
    Tua visita, apenas uma esmola.


  6. Drummond… Sophia… Drummond a evocar-me Sophia… um punhado de versos com a nitidez de Sophia… com a nitidez das coisas que se apresentam como são: de frente. Afinidades, sim. Afinidades, eu creio.

    «Porque os outros se mascaram mas tu não
    Porque os outros têm medo mas tu não

    Porque os outros são os túmulos caiados
    Onde germina calada a podridão.
    Porque os outros se calam mas tu não.

    Porque os outros se compram e se vendem
    E os seus gestos dão sempre dividendo.
    Porque os outros são hábeis mas tu não.

    Porque os outros vão à sombra dos abrigos
    E tu vais de mãos dadas com os perigos.
    Porque os outros calculam mas tu não.»

    Sophia de Mello Breyner


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