O Ponto de Equilíbrio

Dezembro 2, 2006

dartofmovement.jpg Acordo a tactear equilíbrios. Precisamos tanto de equilíbrios!… Será que ainda seremos capazes de nos equilibrar?…

(…)

Estou aqui a pensar que, em cada músculo, em cada tendão, algures na junção de todas as articulações do corpo, possuimos dentro o milenar segredo dos equilíbrios aparentemente mais impossíveis.

Suponho que quem um dia já dançou entende perfeitamente aquilo a que me refiro!… Para aqueles que nunca tenham dançado, repito as palavras que nunca mais esqueci. Devia ter uns cinco anos e chovia desalmadamente lá fora, sobre os carris de eléctrico da célebre rua Vitor Córdon. Entre os pingos do algeiroz e o silêncio atento das meninas sentadas em roda sobre o chão de linólio (remendado com fita adesiva azul), ficou para sempre essa espécie de truque mágico, ensinado com olhos duros e dedo pousado nos lábios, à laia de quem revela um segredo para guardar com a vida:

«Imaginem um fio de nylon, muito fininho e invisível. Tão invisível que só se vê com os olhos que estão guardados dentro da alma e do coração. Cada uma vê o seu. Ninguém vê o da vizinha do lado. Só cada uma pode ver o seu. Procurem esse fio. Quando o encontrarem imaginem que sai da planta dos pés, entra pelo pipi, pelo umbigo, pela barriga, atravessa o corpo todo e sai pelo cucuruto da nuca. É esse fio que vos sustenta. É esse fio que importa manter sempre bem esticado, a cada movimento que façam. Porque vos segura. Mesmo quando saem do chão. Se deixarem que se dobre, caem. Se se esquecerem dele não dançam. Mexem-se, mas não dançam. E depois caem. E depois não saem do chão.» Margarida Callais

(…)

Tentei imaginar o fio. Tentei imaginar o nylon… imaginá-lo fininho, muito fininho. Tentei encontrar o caminho que vai da planta dos pés ao cucuruto da nuca. E depois fui à procura da alma, para ver onde tinha os olhos. Fui à procura do coração para ver que olhos tem. E ainda procuro, porque nunca mais me esqueci, embora às vezes esqueça. Mas se me acontece esquecer, lembro-me depois: quando caio ou sempre que não consigo sair do chão. Fecho os olhos. Volto a ter cinco anos e a ouvir os pingos da chuva, do outro lado das vidraças, naquele edifício de esquina da rua Vitor Córdon. Sou uma menina de sorte: ensinaram-me o truque. Sou uma menina com muita sorte: já não tenho cinco anos, mas não me esqueci. Guardei, sim, esse segredo mágico para a vida. Continuo, sim, a guardá-lo com a vida.

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