Hoje voltei a fotografar

Dezembro 2, 2006

printflowers.jpg

Hoje voltei a fotografar. Andámos pela feira de galochas nos pés e camisolas quentinhas. Comprámos compotas na senhora do costume e ela ofereceu-me uma tijela de marmelada. O velhote dos legumes também fez uma festa quando nos viu. Tornou a tentar convencer-me que os rabanetes fazem bem aos ossos. Tornei a responder-lhe que o meu esqueleto há-de morrer comigo. O homem que vende hortênsias continua a montar a banca na mesma curva da estrada, à direita de quem desce. Olhei para os vasos, senti-me tentada, mas não comprei nenhuma. As hortênsias eram para a varanda da casa com cães pretos. Não cabem em mais nenhuma. Também comemos scones na casa de chá que fica no largo mais escondido, pertinho da igreja velha. Quiseram ir ver o mar, mas eu não fui. Foram. Voltaram. Chegámos atrasadas, mesmo assim: deixaram a lenha à porta. Apanhou chuva e molhou-se um pouco, como nós. Á tarde as crianças foram ao circo: três camarotes, para caberam todas. Eu não fui. Gostava de gostar do circo, mas afligem-me as gargalhadas durante o número do arame. Também não gosto das palmas, a seguir aos palhaços, nem dos cães com frou-frou de bailarina, nem dos cavalos a correr em circulo. Só gosto dos leões quando eles não saltam e dos trapezistas porque afinal voam.  Em vez disso fui com Pintora da Rua das Musas comprar tintas à Casa Ferreira. Continua a fazer segredo sobre a tela do momento. Continua anão me querer por perto.  Faço-lhe a vontade. Como ela me faz a mim. Como ela me faz sempre as minhas. Cuspidora de Fogo telefona do fim-de-semana por Terras dos Templários. Escriba de Eleição foi amá-la lá, no lugar onde fica a única igreja cavada na terra, a única igreja que é igual a um ventre materno. Desligo feliz: afinal, há mais gente da mesma galáxia que eu. Combinamos dedicar-nos ao restauro dos frescos até ser hora de jantar. Olho em redor: ena, somos tantas! Sirvo-me da desculpa: dedico-me à geometria escusa do quarto dos roupeiros que apanha a sacada das águas-furtadas. Tenho ideias geniais, muitas ideias, todas geniais. Não sei ainda quantas delas serão concretizáveis, mas isso pouco importa: sabe-me bem ter ideias, é bom falar de ideias, é melhor ainda que nos oiçam enquanto estamos a ter ideias! Dá-nos mais ideias ainda ou, pelo menos, aumenta-nos o desejo de continuar a tê-las. Vou tomar banho: não pintei nada, mas tenho tinta por todos os lados. Menos no cabelo. Gostava de ter tinta no cabelo! Não me importava. Tinta verde musgo, daquela que levam as palmeiras e os arbustos, da panorâmica de Goa. Tinta azul, da cor da água, do painel que ainda tem uma nesga de Tejo. Ou então um laranja de acerola, como o que está no papo do faisão, na parede onde a matilha de galgos corre atrás da caça sem os caçadores. Vou tomar banho: não gosto de lilás.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: