
Foto: D. Machado – Serra da Azóia
Um gato manso aninhado no meu colo, o cheiro da lenha a queimar, as revistas do fim-de-semana espalhadas sobre a mesa, este botão da camisa que teima em se desabotoar, um gato no meu colo, os candeeiros coloridos do Norte de África a suspender os Jardins da Babilónia aqui, as vigas de carvalho e as trepadeiras verdes encaracoladas nas traves, um gato no meu colo, as almofadas do canapé com perfume de fumo, o nevoeiro, lá em baixo, a abocanhar as escarpas da falésia, os chuviscos a riscar os vidros, a lama a empapar lá fora, o aroma da terra a acirrar-se lá fora, um gato no meu colo, a madeira a crepitar no fogo, os dois blusões de cabedal atirados para o canto, o odor do mar a salgar a limonada, o pior chili do mundo que pode muito bem ser o melhor chili do momento, um gato no meu colo, a vontade envergonhada de uma casa na serra, mesmo que nunca voltemos a atrever-nos a chamá-la “nossa”, tu sem fome, eu com menos vontade, tu a quereres sorrir e a não seres capaz, eu a sorrir e a não ser capaz, e um gato no meu colo, e o cheiro a lenha, e o mar a rugir, e o recorte abrupto da costa agreste, e esse perdão que há no beijo, por já nada ser perfeito e fazer já tão pouco mal que o não seja.




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