
Lisboa, em dia de tempestade: um cemitério de abrigos a cada esquina, um depósito de inutilidades abandonadas na berma, esqueletos de varetas dobradas a meia haste largados de mão, caídos rente às sarjetas. Como corpos. Frágeis. Desnecessários. Supérfulos, agora. Por todos os cantos a imagem afogada dos essenciais dispensáveis – afinal, tão dispensáveis! -, o prosseguido passo adiante, após a ligeireza dos dedos que se abrem e desenvencilham do tropeço. Lisboa, em dia de temporal. Como não guardava na memória que pudesse ser: um denso céu de chumbo a vomitar água em dilúvio, a ventania a sacudir o avesso das coisas, as coisas pelo avesso, e a noite a chegar demasiado cedo. Como se o tempo fosse um absurdo sem razão, sem lugar à memória de uma qualquer outra lembrança que o pudesse ainda amainar. Em tempestade. Em dia de temporal. Lisboa: assim.




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