Coisas banais de quando há vida

Novembro 18, 2006

Grande revolução dentro do carro! As meninas agitam-se entre mil notícias da actualidade. Sentem como se tudo lhes diga respeito, e isso é bom: greve dos alunos contra as aulas de substituição, referendo sobre o aborto, demissões na direcção do Benfica, subsídios do governo contra os estragos causados pelo mau tempo, o pretenso plágio de Miguel Sousa Tavares, o casamento do Tom Cruise no tal castelo de Itália, a condenação à prisão perpétua do militar americano que violou uma rapariga no Iraque, uma candidata do sexo feminino à presidência francesa, enfim… tudo. Mais do que as opiniões que proferem, confesso que me orgulho do acto simples de as ouvir falar das coisas. Gosto desse lado resoluto, da forma desperta com que não se resignam nem adormecem diante dos acontecimentos, sejam eles quais forem. Gosto dessa coisa delas acharem que tudo lhes diz respeito. Sei que enquanto for assim estarão a salvo. É tão perigoso este mundo onde ninguém pensa e, com a idade, se vai cansando cada vez mais de pensar!!…

(…)

Dentro de pouco tempo deixo as meninas no teatro e outras duas na explicação de matemática, em casa de Dama de Aço. Ficamos com o Vasco e o amiguinho mais um pouco e depois Cuspidora de Fogo vai deixá-lo no palacete brasonado do pai, o Barão Infame. Fotógrafa Poderosa segue deliciada, a empolgar os argumentos das meninas e a contar os segredos que conhece dos bastidores dos actores de televisão. Alguém tem depilação marcada, alguém tem uma aula de yoga ao fim da tarde, alguém tem uma paixoneta entalada numa esplanada de praia que morre se não vir, nem que seja por dez minutos, alguém quer ir a uma loja do Chiado, alguém tem um compromisso de trabalho e volta mais tarde. Há também um estirador para ir buscar ao Ikea, umasThimberland de cano alto nº 37 , reservadas e à espera no Shopping das Amoreiras, uma revista guardada na papelaria do CCB e mais dois bilhetes para comprar para o espectáculo desta noite, apesar de eu já ter cedido os nossos. E depois, eu. Eu que não tenho nada de especial para fazer, nada que queira em particular, a não ser um verniz para ver se páro outra vez de roer as unhas, ou um corta-unhas (de preferência, urgente!) para me livrar deste espigão que me está a matar e outra vez uma lâmpada porque se fundiu mais um candeeiro lá em casa. Fora isso, não quero nada, não tenho nada, só mesmo esta sensação enorme de alívio dentro do peito de já não me sentir responsável por nenhum fim-de-semana, nenhuma grande história, nenhum amor suspenso, a deixar-me ser feliz não importa onde, nem a fazer o quê.
Deixo-me ir tranquila, no lugar da frente, entretida a  mudar as frequências ao FM. Enquanto isso, vou rindo com as conversas cruzadas, metendo uma ou outra colherada e pensando no quanto gosto desta coisa de cabermos todas no mesmo carro e do facto de ninguém ter que sair para ceder lugar a ninguém. Acho que, na verdade, o que quero dizer, é que nunca conseguiria viver sem que fosse possível ser assim. Não me imagino num mundo onde tudo isto fosse estranho e fosse preciso ser de outra forma. Bem pelo contrário! Do modo como sinto a vida, sei que estaria condenado à partida tudo o que se me apresentasse só possível mediante exigências de exclusão, ainda que momentâneas, concertadas, democráticas, diplomáticas, e etc e tal, de qualquer outra frente dos mundos da minha vida, fosse ela qual fosse: amigos, nem pensar, crias e familía, então, verdadeiramente impensável. É certo que, para quem me conhece, não acrescento nada de novo. Sempre tive uma estima imensa nesta ausência de fronteiras e barricadas. Mas hoje em dia, acho que estou pior. Quando páro e penso um pouco, dou-me invariavelmente conta que esse é um dos equilíbrios que mais prezo. Preciso que todos os mundos em que me movo tenham comunicação entre si. Sem que assim seja, e eu o saiba, não me sinto livre nos movimentos e acontece (cada vez mais) que sem liberdade não sei ser feliz.

(…)

Agora desliguei o rádio. Apeteceu-me interromper o noticiário, para ver se ponho fim ao caudal de converseta das pré-adolescentes, no banco de trás. Cuspidora de Fogo volta a explicar ao Vasco que os pés não são para colocar contra o assento dos bancos. Fotografa Poderosa engana-se mais uma vez no cruzamento da tua rua. Red Bull teria remediado com uma transgressão, mas Fotógrafa Poderosa não é Red Bull e se Red Bull estivesse aqui, concerteza que não estaria a vir ao teu encontro, como faz Fotógrafa Poderosa agora. Graças a Deus que estamos quase a deixar as crias e a passar para um carro maior.  Estou a entrar na fase em que já só quero outra vez tempo para mim, em que me apetece ter mais espaço. Suponho que tenho passado demasiadas horas fechada dentro de carros: de uma forma ou de outra, a claustrofobia era previsível.

(…)

Demónio de Guarda telefona. Ena, ena!… Toca já tudo para o aeroporto. E o Vasco? E o amiguinho? Creio que agora vai ter que ser o Barão Infame, senhor, seu pai, a esperar!… Ligo a Dama de Ferro que, expedita, como sempre, resolve logo o problema da melhor maneira: vem buscar as meninas a meio do caminho. O amiguinho do Vasco pragueja, o Vasco pragueja, Cuspidora de Fogo refila porque as minhas pastilhas não são as que ela gosta. Tu refilas com Fotógrafa Poderosa e ela contigo: mais uma vez, desentendimentos de percurso. Peço menos rumor, menos barulho, menos energia, menos alegria, eu sei lá!… Cuspidora de Fogo deslisa no banco de trás e aproxima-se do meu encosto. «É vida, de que te queixas?! Tinhas vida, no fim-de-semana passado?!», pergunta-me baixinho ao ouvido. Não respondo. Também não faz mal: até parece que Cuspidora de Fogo precisa que alguém responda por ela!… «Não tinhas coisa nenhuma, era o que era!!». Pois não, não tinha. Não tinha mesmo. Não tinha nada. Não tinha coisa nenhuma. «Vá, vá! Isso aí também não!… Tinhas-nos a nós: todas e todos! Porque é que julgas que pouco já não te chega??» Talvez, se calhar. Não quero pensar. Não adianta pensar. Não me apetece pensar. Esgotei o cérebro e a paixão por tanto ter que pensar.  «Agora olha, remédio santo! Não há, não há, pronto!», Cuspidora de Fogo, sempre pragmática «O amor gasta-se, o que é que pensas?!» Curioso!… Se considerar que amor é um sinónimo de coração, então terei escrito exactamente o mesmo, aqui há umas horas atrás. Lembro-me de não me esquecer de dizer isto a Cuspidora de Fogo, daqui a pouco, quando sairmos do carro: por nada em especial, achei graça à coincidência, mais nada. Saimos do carro. Lembro-me que não me queria esquecer. Não me esqueço. Lembrei-me. Digo-lhe. «Achas estranho?? Eu não! A realidade é só uma. Quando duas pessoas olham para ela, só podem ver o mesmo, dizer o mesmo. Quando há duas versões é porque uma está enganada e, assim sendo, o caldo já está entornado. Já viste um tipo do benfica a falar com outro do sporting? Achas que alguma vez se vão entender?! Pois é evidente que não!!… Bem podem ficar para ali a falar do mesmo para o resto da vida: um vê verde, outro encarnado. O daltónico não interessa, não é por isso que o que não é se consegue fazer explicar!», Cuspidora de Fogo no seu esplendor: lúcida e bruta como ela só!… Corro a abraçar Demónio de Guarda: «Sozinha e com piada ou amancebada e miserável?», pergunta-me. A primeira. «Como??», o sorriso de Demónio de Guarda a suavizar a maldade da pergunta repetida, a festa de Demónio de Guarda nos meus cabelos.  As lágrimas ainda me vêm aos olhos, mas já não caem. Como eu. Iguais a mim. Ou não fossem os olhos o espelho da alma, a boca do coração.

(…)

«Planos para o serão?» Abdico. Apetece-me a casa. «Ficar à espera, não vá dar-se o caso de ser hoje que te vão buscar!…» Não, é vontade da casa mesmo! Vontade de vida dentro da casa, como nunca deveria ter deixado de ser. E depois amanhã é Domingo de plantão… Não quero passar a semana toda a sentir saudades do que não fiz. Estou cansada de sentir que as coisas me faltam.  «Antes assim!»

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2 Respostas to “Coisas banais de quando há vida”

  1. provisorio Says:

    História interessante. Belo desabafo!
    O curioso é que me identifico com isto. Não percebo porquê, mas prendeu-me a atenção.
    Por ser Sábado á tarde, talvez.


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