Seres que não nos negam poções mágicas com sabor a maçãs verdes e canela

Novembro 13, 2006

 chamacaecanela.jpg

Há cantadas que nos rompem qualquer coisa de muito frágil que trazemos guardado dentro, num qualquer lugar onde nem sabíamos. Há momentos em que a segurança de se saber que, diante da rédea e do chicote, a besta há-de cair estatelada aos nossos pés, às vezes não se consegue evitar o sentimento de desamparo que ainda assim, nos causa, quando nos afastamos e a deixamos a espumar pela boca no meio do chão. Apetece desatar em correria desenfreada para um peito que seja porto e onde caibamos por inteiro, apesar de, uma vez mais, termos saído vitoriosas, apesar de sermos fortes e nunca nada nos ameaçar com risco. Apetece um aconchego que nos repare com habilidade o desamparo e o que por dentro se nos rompeu. Vem-me à ideia uma vez anterior, eu a guiar furibunda do Monte Estoril à Baixa e o efeito milagroso da voz amantíssima da Filha do General a pedir serenidade, a pedir menos fúria e menos pressa no acelerador, aa prometer-me uma chávena de chá de maçãs verdes com canela. E, na confusão, sou transportada para aquela gare de Stª Apolónia, uns anos mais à frente, quando o comboio parou e as portas se abriram enfim, o pesadelo ainda a ribombar no peito, a mão na tecla do telefone e nada, e coisa nenhuma. Só o descaso de quem, ao confiar demais, nos abandona e deixa à deriva com essa coisa frágil rompida por dentro que minimiza. E a promessa suspensa no vazio: “o meu projecto é cuidar sempre de ti”. E o verso da canção a torturar-me entre acordes: “porquê você me deixa tão solta?!”. E outra vez a promessa falsa, outra vez a canção a incomodar: “Porquê você não cuida de mim?!”… Como se pudesse, como se adiantasse!… Como se servisse de alguma coisa para me evitar a saliva do cão coxo que baba e escorre, perigosamente próxima do meu pescoço, viscosa e suja, a pingar-me aos pés… Não, não  evitaria, mas estaria agora para me abir os braços e travar a vontade de correr e o desamparo. Só, mais nada. E já seria muito, já seia tudo, já seria tanto!
Entro no café em frente, ligo a Ally McBeal, ligo a Demónio de Guarda, ligo a Cuspidora de Fogo. Só não ligo para ti porque já não posso e, mesmo que pudesse, sei que ã única coisa que farias seria dizer-me que não poderias fazer nada. E uma súbita vontade de me ver na estrada, do Monte Estoril à Baixa, e ouvir uma voz amantíssima a garantir-me um chá de maçãs verdes com canela!… Demónio de Guarda continua em Glasgow. É bom que fique sossegada, não quero preocupá-la. Ally McBeal está diante de uma cliente, prestes a erguer uum projecto importante. Desejo-lhe por telepatia uma tarde feliz e muito sucesso e desligo sem lhe contar nada. Entre o segundo café e outro copo de água, vai a respiração aliviando na traqueia. Devagarinho. Lembro-me daquela menina de pouco mais de cinco anos que se sentou ao lado da minha toalha na Praia de São Conrado, no Rio de Janeiro, e me pediu um picolé, depois uma carcaça e a seguir uma história que falasse de Portugal e dos portugueses. Lembro-me do incómodo que toda aquela fragilidade à deriva pela Cidade Perigosa, me causou. E depois lembro-me de como se erguer num pulo, como uma fera atiçada, a afastar camelôs e outros meninos da rua do meu perímetro de areia; de como a criança de quase cinco anos me pareceu mais valente que uma mulher-polícia de dois metros de altura, ali, assim: capaz de tudo, até de matar, até de morder… e de como foi embora esse incómodo de me preocupar com ela e a sua sobrevivência. De alguma forma, ela haveria de se bastar a si mesma. Sozinha. O descanso voltou e o descaso também. Mais dois golos no copo de água que o empregado com cara de poucos amigos pousou com estrondo à minha frente, sobre o balcão. O meu coração bate um pouco menos. A jugular ainda salta, mas é normal, penso eu: deve ser normal. Todos os fluídos demoram a voltar ao repouso inicial, eu creio. Entretanto o telefone toca. É Cuspidora de Fogo. A princípio não digo nada, não conto nada, mas ela deve conhecer-me melhor do que suponho. Respondo. Afinal conto. Afinal digo. Mas resumo tudo numa frase curta, eu acho. E ela, do outro lado do Mágico Aparelho das Alegrias e das Tristezas: «Anda, sai já daí! Vem para cá: estamos a almoçar num lugar onde há sol. Anda rápido, guardo-te um lugar ao meu lado, faço-te festas e peço-te um chá.» E eu largo o copo, largo a água, largo o pensamento e a memória, as coisas boas e as coisas ruins. Se duvidar largo até este quê de desamparo e esta angústia da promessa abandonada a meio do caminho, solta e só sobre o abismo das coisas deixadas para trás, deixadas para lá, deixadas para amanhã, deixadas para um dia, mais tarde, lá frente, talvez, quem sabe. Saio do café. Subo a rua a correr até ao lugar onde estacionei o carro, uma força desconhecida a renascer-me na sola das botas e que eu sei que me vem do simples facto de saber que tenho para onde desatar a minha correria desenfreada. E chego alvoraçada à mesa do restaurante, ao lugar que me prometeu e onde, sim, há sol. Deixo-me cair de páraquedas em cima do almoço de todos, com esta enorme vontade de lhe dizer que me salvou a vida, que me salvou de mim, que me salvou de não mais poder esperar ser alguma vez salva por ti. Em vez disso aperto a sua mão, deixo que me alise os cabelos enquanto o almoço não vem, grata por, apesar de tudo a ter ali, como um dia a Filha do General, com uma simples chávena de chá de maçãs verdes com canela a remendar-me cada pedacinho que se me rompera por dentro.

(…)

Aquilo que mais amo em Cuspidora de Fogo é o fulgor orgulhosamente visperino que lhe escorre das veias à língua e a faz ser assim tão destemperada de impropérios e cóleras, tão estoirada de sinceros e genuínos descaramentos, tudo isso combinado com fel e pedigree, tudo isso bem agitado (“sturbed not shaked!”) entre a costela algarvia e a massa encefálica de intelectual excessiva, estovada e abusada, essa outra metade do toráx que tem de letrada, culta e vertebrada, esse ser capaz de tudo, que lhe vem da total e mais serena das ausências de remorso e do nenhum pudor de ser politicamente incorrecta só porque sim: porque se lhe atravessou uma espinha, a panela ferveu, o caldo entornou e quem quiser que se aguente. Da chinela ao salto, sempre no prumo da agulha, imune ao desconcerto nesse vai-vem que vai da anca à pluma, a echarpe à chita: salva de ser tão carne por ser tão nobre rente ao perfil do queixo, nuca erguida a uma elegância que jamais se lhe descola da pele: nem mesmo quando perde a razão e a alma se lhe enebria de menos dignas intenções. Mas o mais fantástico, a última cereja espetada no palito, a coroar o cocktail exótico de esquinas e reversos e avessos que, manhã após manhã, acordam invariavelmente atravessados, é o facto de ser pura desconstrução: até de si mesma – o facto de ser uma mulher da galeria das espécies em extinção, uma mulher de Almodovar, atiçada, encarniçada, irada, suada, desvairada, apaixonada. Porque Cuspidora de Fogo é assim, sim: frontal sobrevivente, case study para psiquiatras e sociólogos, para poetas, escritores, artistas e outros afins: espécie de manual ambulante de como sair sempre inteira e reparada das situações mais adversas, mestra na arte de inverter para bem reverter, sempre vitoriosa e inquebrável, irritante e irritável, mulher de Almodovar capaz de levar qualquer um à beira de um ataque de nervos, basta ela querer, ou mesmo que não queira, decidir, dar-lhe para ali, conforme a lua, o lado de que sopra o vento ou se acordou ou não com os pés de fora. Assim é Cuspidora de Fogo: insana de tão ágil, desmesuradamente louca e por isso tão lúcida.

Assim é Cuspidora de Fogo, minha grande e inseparável amiga, das horas boas e ruins, a parte garantidamente boa, segura e feliz do dia.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: