A Hora e a Vez

Novembro 12, 2006

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Foto: Ferr@Fog@Faísc@

É Domingo. Deixo todas as janelas da casa abertas de par em par, mando-te uma mensagem com um beijo para que tenhas um acordar tão feliz quanto o meu e saio para a rua.  Apesar do céu limpo e azul e do sol vibrante, noto que pela primeira vez o ar da manhã está mais fresco. Caminho só pelo lado do passeio onde o sol bate. Oiço o chilrear ensurdecedor dos pássaros, aproveitando enquanto ainda há folhas nas copas, como se fosse a Primavera e não o Inverno a chegar. Acordei cedo. Tão cedo que ainda não há velhos nos bancos do meu jardim, nem latidos de cachorro, nem gritos de criança a perturbar o borbulhar da água no lago de pedra. Tenho pena que não estejas aqui agora, comigo. Pena que mais uma vez se desperdicem os raros fins-de-semana sem que possamos voltar a ter uma manhã de Domingo, mas enfim. Começo por pagar facturas, na caixa automática. Escolho sempre estas ocasiões para colocar a vida em dia, sem ter ninguém impaciente na fila, a apressar-me por trás do ombro. Ainda é cedo, é muito cedo. Espero na banca que cheguem os jornais do dia. é preciso comprar lâmpadas cá para casa, mas as lojas ainda não abriram. Esta é outra das coisas de que mais me orgulho, no meu bairro: as lojas funcionam todos os dias, como mães zelosas, para que nunca nos falte nada. Entro na pastelaria, tomo café e fico muito tempo a passear pelos jornais, o sol quente a embrulhar-me o corpo todo, a entrar assim, em lençóis de claridade pelas vidraças amplas da montra. Primeiro sou só eu e as beatas que se afobam entre a mercearia e o pequeno-almoço de comadres, a caminho da missa de Domingo. Depois, com todo o vagar, o movimento vai acordando lá fora. Gosto deste encontro casual de gente amigo, com olhos inchados de sono e preguiça de lazer a pingas do cabelo aos gestos, que se vai juntando na mesa, sem combinação prévia, só por que é costume ser assim e se gosta que assim seja. São as primeiras conversas do dia, as primeiras risadas do dia, os primeiros disparates também. Gosto da promiscuidade de copos e chávenas, dos cinzeiros atulhados, da confusão de isqueiros, telemóveis e óculos de sol que se misturam com torradas e papo-secos. Gosto da dança de jornais, revistas, encartes e suplementos de mão em mão. Gosto deste vai e vem para tirar os carros parados em segunda fila, para dar um salto ao talho e resgatar o que ficou encomendado ou por uma das crias a andar na baleia que canta que fica na rua, do lado de fora do café. Entro na farmácia porque perdi a minha escova de dentes de viagem, compro alfazema ao quilo na drogaria, meio metro de elástico e doze botões no retroseiro para a empregada arranjar a minha camisa preferida, dois quilos de limões do Algarve e nem sequuer me esqueço das lâmpadas que se fundiram cá em casa. Faço o caminho de volta dentro da mesma lógica: só caminho pelo passeio onde o sol bate, mais forte agora, mais quente agora, apesar de continuar fresco o ar da manhã. No jardim já há crianças a correr, cães a passear entre os canteiros e velhos a tagarelar nos bancos pintados de verde. Há um carro funerário parado frente à sacristia, mulheres de terço na mão, homens de gravata preta, dois amigos de longa data a fumar um cigarro à porta da capela mortuária, a rir, não sei se da última anedota, se da fragilidade da vida.  Para lá dos degraus há um morto preste a sair do breu para a eternidade do cemitério, no seu corsel humilde de palmas e grinaldas. Reparo no debicar dos pombos, à cata dos restos de bago de arroz que ficaram presos entre as pedras do chão, depois do casamento de ontem. Porque é assim, aqui no bairro, casa-se ao Sábado, morre-se ao Domingo. Tudo tem sempre uma lógica que só quem cá mora reconhece. E é depois (só depois) que reparo também numa certa tonalidade de luz que dá entre a folhagem. Sigo andando e a reparar pelo caminho. Sigo atrás do passo lento dos mais velhos que os filhos vão buscar religiosamente ao Domingo para a missa. Gosto do toc-toc das bengalas de madeira contra o basalto da calçada gasta, tão gasta como os ossos, tão gasta como a pressa. O sino volta a tocar: mais uma missa, mais um chamado, assim é ao fim-de-semana, quando o frenesim do altar se anima mais do que o costume no adro da Igreja. Gosto de não ter nenhuma razão esquálida a exigir-me que ultrapasse o passo lento da romaria. Sigo atrás dela entretida comigo mesmo e com os meus próprios pensamentos. Olho, ora a cidade que se estende adiante do miradouro, ora o reboliço dos pássaros, das crianças e dos cachorros, ora esta certa luz que vem dano entre a folhagem. E então toca-me a nostalgia do calendário, a certeza de que em breve hei-de fazer este percurso entre os galhos nus, quando for Dezembro. Dezembro!… Pois é, outra vez Dezembro a aproximar-se! Agora me lembro, há pouco, enquanto comprava cigarros, a senhora da papelaria estava pendurada no escadote a debruar prateleiras com guizos e anjos de papel maché. Não tarda a ser Natal, não tarda e é outro ano a chegar ao fim, e champanhe e passas e serpentinas. Estremeço. Estremeço outra vez. A lembrança faz descer um denso eclipse sobre a manhã ensolarada de Domingo, que come os cachorros e as crianças, devora o chilrear dos pássaros, engole o sino, a calmaria, o brobotar da fonte e até os velhinhos (os que estão sentados nos bancos pintados de verde do jardim e os outros, os que arrastam os pés a caminho da missa, uma mão na bengala, outra no ombro dos genros, dos filhos e das noras). Fica tudo negro, tudo a arder, tudo em cinzas, tudo a padecer de um vírus sazonal, uma espécie de doença antiga prestes a chegar ao seu tempo de desincubar. Uma bicicleta de turista buzina para me desviar, não sei se da sua frente, se da minha própria memória. Vale-me, ainda assim: obriga-me a mover para fora do torpor. Estou a passar agora frente à porta da Igreja. Sinto um ímpeto para entrar que me é pouco habitual. Desacelero o passo ainda mais. Faço um breve compasso para ver se o impulso persiste. Imagino-me dentro da nave de talha dourada a crescer até à cúpula. Lembro-me dos pingos de sangue coalhados entre o Cristo, os cravos e a superfície rugosa da Cruz. Lembro-me que cá fora há sol e que lá dentro deve estar escuro, porque é sempre escuro dentro do ventre das Igrejas. O vírus letal e corrosivo que se ameaça ante a lembrança do calendário e a ideia de que está quase a ser Dezembro outra vez, provoca-me a ânsia de um colo madre, de um ventre madre, mesmo que mais escuro e mais sombrio. Continuo parada, à espera de resolver o passo. Ocorre-me também que o ar da manhã está pela primeira vez mais fresco. Se entrar vai parecer-me mais fresco ainda. A ideia dos pés dormentes dentro dos sapatos e a doer ao pisar o chão desanima-me o ímpeto de entrar. Dobro à esquerda e começo a descer o pedacinho de calçada que vai do adro à minha porta. Aos poucos o eclipse negro, que engoliu de uma assentada a manhã e tudo o que lhe respirava dentro, vai-se dissolvendo. Volta a luz, a claridade, o sol bom que faz este Domingo. Procuro a chave de casa. Encontro-a sem dificuldade. Os olhos recuperaram o foco e a nitidez. Reparo, portanto, que há um ramo de margaridas brancas preso na grade pequenina da porta da rua.  Penso em ti e não penso. Sei que é demasiado cedo para ser de crer que entretanto tenhas acordado. Desato com cuidado o arame acobreado que as prende. Reorganizo os jornais e os sacos das compras nos dedos da mãos. Acabo por traçar o ramo das margaridas brancas no braço esquerdo. Abro a porta, subo as escadas, rodo a fechadura, volto a casa. Ponho as flores na água, enxoto as moscas que rodam em festim por todas as divisões, mantenho as janelas abertas, escolho um disco e ponho-o a tocar.  O telefone toca logo depois, mas não és tu. É Domingo, já se sabe: quando não trabalhas, demoras a acordar.  Tenho pena (volta assaltar-me esta leve pena) que o fim-de-semana avance assim, sem que eu e tu tenhamos oportunidade de o esbanjar ao mesmo tempo, pelos mesmos lugares. Almoço ao pé do mar. Sim, depois de matar a fome do meu bairro, costuma ser hora de me mover para ao pé do mar. Hoje não há porquê ser excepção. Não, não demoro, vou já! Achas que faz mal deixar as janelas todas abertas? É que acordei outra vez com este prazer simplório de puxar os lençóis atrás e arejar a casa… outra vez com esta impressão que o cheiro dos plátanos consegue atravessar os armários e perfumar tudo o que lá está guardado dentro!

Falando em impressão, uma outra me assalta: a de que ultimamente, a somar à fase de vergonhoso “umbiguismo”, tenho descurado um pouco este blog. No telefonema, peço, pois, meia hora. Meia-hora para me dedicar a si, Querido Leitor, que nem sei como continua a passar por aqui, a visitar-me, a ler-me e ainda se dá à delicadeza de não se esquecer de continuar a escrever-me!… Acontece que a resposta é «sinto muito, não podemos dar-nos ao luxo de desperdiçar meia hora, num dia de Domingo. Não tarda a semana vem aí outra vez e ninguém sabe quando será a próxima folga». Sim, é verdade, nem eu própria!… Além do mais, não posso estar mais de acordo: não podemos dar-nos ao luxo de abrir mão dos hábitos bons e felizes.  Seja, então! Prioridade ao prazer do costume: almoçar com luz, horizonte e mar.

Como muito bem diz, esta semana, Aldina Duarte no jornal Sol, “e passando ao resumo”: «são as minhas pequenas rotinas que me salvam do risco de me perder».

P.S – Tentarei usar as novas tecnologias e ver como me saio se me der para colocar um post  de lá, de perto do mar, ok?!
Até lá, um óptimo Domingo, Gente Minha!

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Uma resposta to “A Hora e a Vez”

  1. V. Says:

    Seres especiais sempre terão a capacidade de encher de mágica o ato mais simples do dia a dia. A seu lado não tem tédio ou aborrecimento. Por isso seres especiais são tão cobiçados. A seu lado a vida se torna super interessante. Impossível abrir mão de Crianças-Artistas-Pintoras, que sabem como ninguem dar cor à vida. Eta força da natureza!

    Belíssimo texto, comoventemente retratados bairro, manhã e coração.

    Impossível viver sem ter mais a mágica contagiante que invade tudo. Quero de volta todos seus domingos.
    Saudade eterna, baccio Bela!


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