Script # 33 | ‘… que em vidas que andam juntas, ninguém faz’

Novembro 11, 2006

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Desculpa se desligo de forma abrupta, mas é que se continuar agarrada, nem que seja à tua orelha, vou magoar-me a mim ou magoar-te a ti: uma das duas – é inevitável.
Queria, talvez, ter conseguido ficar um minuto mais, para te dizer que não desligo porque não vens, ou porque vais e onde vais não é para aqui. Desligo porque se não é para aqui já não interessa, já não me interessas, percebes?! E não é por dor, nem é por mágoa, como antigamente. Não é a ti que quero é ao que sentia antigamente. Não anseio por que me voltes, anseio por voltar a sentir o mesmo de antigamente. Não é de nós a saudade insuportável que me consome, é de me sentir como me sentia por nossa causa.

Queria, talvez ter conseguido ficar mais um minuto para te dizer que não me sinto nem um pouco zangada contigo. Queria dizer-te que não estou intranquila contigo, é comigo. Sei que te esforças, que te estás a esforçar, que te tens vindo a esforçar, e se calhar o problema é mesmo esse: o meu remorso por não te dizer que se calhar não vale a pena, entendes?! Que o facto de te “esforçares” em vez de te trazer para perto de mim, só te afasta mais e mais de onde estou. Porque onde estou é onde se chega sem esforço, sem nenhum esforço, na verdade. Remorso por te dizer o que sei: que vais na direcção errada, vais no sentido contrário e dificilmente nos voltaremos a encontrar.

Queria, talvez, ter ficado um pouco mais para te dizer que a minha insegurança não é por tua causa, é de não estar absolutamente segura de continuar a ficar onde estou e me julgas ter deixado, é de me lançar em feliz e desanuviada correria para todos aqueles lugares onde só posso ir sem ti e onde estar contigo me impede de jamais poder regressar, entendes?! E o meu medo é o medo que sinto de já não saber passar sem eles, de não tornar a ser capaz de os abandonar, de tão feliz e capaz que me fazem para viver.

Se repares com atenção, percebes que já não te exijo nada, assim como também já não digo que é nada aquilo que dás. Porque na verdade o nada já não me assusta, agora que eu sei aonde encontro tudo, sempre tudo à espera de mim.

Ia dizer que queria pedir-te desculpa, mas afinal não digo. Porque afinal não quero, não sinto que deva. A liberdade soberana que tens de não vir e não aceitar causalidades de dano ou prejuízo que nos possam atingir, é exactamente a mesma que eu sinto em ir.

A diferença, se a houver, há-de ser meramente circunstancial: tu dizes ir a arrastar-te, cansada e sem vontade; eu assumo que vou só porque quero, entusiasmada e de fôlego renovado.  Tenho pena, somente isso, de ter desligado antes de te assegurar que tudo isto é independente de nós e não tem nada a ver contigo, que não é uma coisa de escolher, optar ou preferir, que não tem nada a ver com isso, que é uma coisa outra e não estão em causa prioridades. Mas não houve tempo, entendes?! Era preciso agir rápido para chegar a tempo.

E estamos melhores, estamos mais crescidas, acredita! Percebo-o como, quando hoje cedo, no mercado, afastei de imediato a ideia de comprar castanhas para cozer em casa porque me lembrei que podias nunca chegar a chegar e que a isso nada te obrigava (só a vontade, é certo, mas essa é caprichosa, como convém: nunca se sabe quando aparece e aparece só quando bem quer). Percebo-o no próprio sentiumento de alívio que me vem do facto de nunca fazermos planos e de o único plano que temos ser sempre e só garantir que, aconteça o que acontecer, não caímos na asneira de ter plano algum. Percebo-o no espaço que vai do teu primeiro ao segundo telefonema e no facto de, ao invés de me enfurecer, servir já tão só para me alagar de uma mansa tranquilidade: afinal não me vieste surpreender-me, afinal ainda te conheço, afinal continuas a ser quem eu esperava. Percebo-o porque desligo já em movimento, e não tombo em desalento, nem acendo mil cigarros estarrecidos, nem tomo um atarax para controlar a falta de ar causada por alguma decepção. Percebo-o quando dou comigo a entrar de novo no duche, a sair a porta resgatando o sentimento perfeito de ser fim-de-semana e poder ter tempo para tudo o que escasseia durante o espartilho do quotidiano, sentada diante da vela, cotovelos sobre o impecável branco da toalha, debruçada sobre um catálogo de azulejos, a montar um painel como quem, enfim, domina a arte dos puzzles.

E quando me perguntam por ti, digo que vais a caminho de um magusto, e que a esta hora deves estar entre erva doce e castanhas assadas, coisas normais, de gente normal, coisas tranquilas de pessoas tranquilas, como nós aqui, a pedir mais sushi, entre o crú e o verde limão para um ou outro friso, a ligar à pressa para por de pé tudo o que há-de vir a seguir, enquanto falamos da cria e do gato, da revisão do carro, do edredon de penas de ganso, da conta da lenha e das propriedades da cerâmica mais resistente.

Queria, talvez, ter ficado mais um minuto antes de desligar para te dizer que não é medo de nunca haver compromisso é, quem sabe, o pânico de ser possível que já não haja possibilidade para volte a haver compromisso algum. 

Porque sabes, Querida, quer-me parecer que chegamos finalmente a um ponto em que talvez sejamos demasiado idênticas. Dás o que queres e nada nem ninguém tem o direito de te exigir que deixes de viver como gostas. Nunca te entendi tão perfeitamente como agora, que me sinto igual: dou o que posso e ninguém tem o direito de me exigir que dê seja o que for que me impeça de viver como gosto. Nem tu, nem eu estamos dispostas a por em causa a vida que temos, da forma que nos agrada que ela seja. Aceites estas premissas, de parte a parte, não vejo por que alguma de nós tenha mais alguma vez que se sentir intranquila: basta tão só que não desbaratemos o tempo que nos sobra uma para a outra a tentar o impossível: voltar a  ser o que já fomos um dia – porque nesse caso ( e só nesse caso) sim, seria preciso mudar radicalmente a vida que quer tu, quer eu, temos agora.

Sejamos felizes, portanto. Mais importante do que estarmos juntas agora é cada uma estar onde mais se quer neste momento. Sem dramas, sem complicações, aceitando a verdade dos factos e tudo o que transparecem do nosso mais íntimo querer, da nossa mais sincera e genuína vontade.

Vamos acreditar que o tempo não acaba tão cedo e que não há-de faltar-nos mais tarde. Há mais fins-de-semana e, afinal de contas, depois de tudo o que já passámos, podemos esperar, eu e tu, como algumas outras coisas da minha e da tua vida não podem.

Come castanhas por mim. Lembra-te do quanto eu costumava amar o cheiro que a erva-doce deixava nas madeiras da casa, quando trazias a panela para o meu colo, acendias a lareira e adormeciamos, tarde, pelo chão!… Lembrar-me-ei também do quanto, em tempos, sonhavas com o instante de projectar comigo a casa, e pensar no alpendre em que eu haveria de trabalhar, enquanto brincavas com os cães grandes e pretos, e escolherei os azulejos novos em homenagem secreta a ti.  Felizes nós, Querida, porque afinal nem todos os nossos sonhos cairam derramados e impossíveis pelo chão! Cada uma à sua maneira, vamos resgatando o que podemos. Mesmo que sem ser juntas e lado a lado e mão na mão e colo dentro do colo, como um dia chegámos a desejar que fosse, cada uma à sua maneira, lá segue salvando os sonhos esquecidos no chão.

Gosto de te imaginar, neste minuto, tão aconchegada a comer castanhas com erva doce, como gosto de imaginar que me gostarias de me imaginar a mim, aqui – dentro do mesmíssimo minuto que o teu –  se eu não tivesse desligado logo e tivesse tido tempo para te contar que esta noite, finalmente, vou escolher os azulejos novos.

Tem, então, um muito bom fim-de-semana, Querida!

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Uma resposta to “Script # 33 | ‘… que em vidas que andam juntas, ninguém faz’”

  1. maddie breed Says:

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