Script #28 | Assisto de camarote

Novembro 7, 2006

Não há enganos, sossega. Já nada nos atraiçoa. Nem mesmo nós. Nem mesmo o que fomos e que, por mais que queiramos, não conseguimos voltar. Livremente. Espontaneamente. Sem esforço. Porque sim. Como nos acontecia que fosse. Antes. Antigamente. Lá atrás.

(…) 

Esse perto ainda é longe, tão longe. Desabrido de um tanto ou quanto desajeitado. Desajeitado com o amor ou a eminência dele. Ou a insuficiência dele: agora, ainda, aqui, afinal. Embaraçado e desengonçado. Esquivo e oscilante. Irregular e disperso. A espaços. E então falta-lhe a força e o vinco rubro. Falta-lhe chama e contágio. E fico eu, a vê-lo assim, descrente de que alguma vez se possa voltar a exibir exuberante, firme e orgulhoso como outrora, a incendiar redores e olhares. Tão brando e tão igual aos outros, agora. Insonso como quase todos os outros, sem aquela diferença de antes que o distinguia e elevava. E largo a mão e largo a veia. Não me puxa, não me prende. Não procuro o que não me procura. Para mim também já tanto me faz. O descompromisso também me alivia. O desapego também me é preferível. A mim. Agora. Aqui. Assim. A distração dá-me espaço, rasga espaço, abre espaço, à disponibilidade, aos intervalos por preencher, a  tudo o que está em branco e vai sendo deixado em branco. Espaço para outros preenchimentos, quem sabe. Qualquer coisa que se insinue e chegue melhor e mais feliz, enlevos mais promissores, quem sabe. Nunca se sabe, já se sabe. Na desatenção fico, deixada solta, tão solta, demasiado solta. Mas não é mau, agora. Já não magoa, nem faz doer. A desatenção é assim como uma carta de alforria, ainda que por assinar, uma porta aberta para a liberdade, de qualquer forma. E nessa óbvia e manifesta incapacidade de voltar plena ao sentir de outrora, respiro eu de alívio também. Hoje, esta noite. Feliz de saber que afinal não tenho dono porque também não me importa ter um dono assim. Nada que caminha adiante de mim na calçada me possui. Ninguém que me esquece e larga pode me possuir. Nada nem ninguém que me desprefere e troca assim tão fácil, assim com tanta ligeireiza e superficialidade, pode ser meu dono e me chamar de seu. E eu gosto de liberdades e alforrias. Me alivia, pois, saber, sentir, ver, pressentir. Melhor assim, sim. por enquanto e até ver, eu já não acreditavaa mesmo. Não acreditava na possibilidade de uma elipse no tempo, no poder de reverter as eras, de tudo algum dia, alguma vez, poder voltar a ser aquilo que era. Porque já foi. Não é mais. E ainda bem porque agora já não dói.Como doeu. Mas isso era dantes, quando eu ainda era crente nos super-poderes dos seres sobrehumanos e invencíveis. 

(…)

E se eu começar a rir? A rir alto, a rir no escuro. E se eu começar a rir? Se meus olhos marejados gargalharem a felicidade aliviada e indolor que os molha neste instante? Se eu romper o abismo e desfizer o equívoco e de uma vez por todas revelar que atingi uma salvação que ainda esbracejas para alcançar? Sim, poderia ser. Mas não vale a pena. Não quero morrer carrasca de ninguém. Nem de ti.

(…)

seguras minha mão, não sei se porque tem de ser, se por não saberes que outra coisa mais fazer. Aqui. Agora. No escuro. Na solenidade que se queria a um  momento que não tem, na verdade, tanta solenidade assim. Só aquela que lhe queremos dar sem conseguir. E eu deixo, com vontade de te sossegar e de te sussurrar sem ninguém ouvir, que não tem que ser, que não é preciso. Não é por isso que me prendes nem trazes para mais perto de ti.

(…)

Já que é assim, eu vou e vou sem custo. Mas não era preciso, sabes?! Não tinha que ser, não era preciso. Mas vou sim. Para não te deixar cair no engano de achar que recuso por capricho ou, o que seria pior, por birra ou mágoa, capricho ou ofensa. Comemos qualquer coisa, no fim de tudo. Jantamos. Janto. Ao pé de ti.

(…)

Dou-te um beijo feliz. Esgotou-se por hoje o tempo de suportarmos a presença. Agora queremos distância e um pouco de solidão que nos proteja. Do tédio, do cansaço, da impaciência, quem sabe do medo. E entro no carro feliz. Por estranho que pareça, quando arranco e a cidade me engole, sou feliz. Somos outra vez iguais, tu e e eu. Sentimos o mesmo e isso é bom: aproxima-nos. Boa noite, Querida!

Anúncios

Uma resposta to “Script #28 | Assisto de camarote”

  1. V. Says:

    “Sempre
    Eu te contemplava sempre
    Feito um gato aos pés da dona
    Mesmo em sonho estive atento
    Para poder lembrar-te sempre
    Como olhando o firmamento
    Vejo estrelas que já foram
    Noite afora para sempre

    O teu corpo em movimento
    Os teus lábios em flagrante
    O teu riso e teu silêncio
    Serão meus ainda e sempre

    Dura a vida alguns instantes
    Porém mais do que bastantes
    Quando cada instante é sempre”

    Me roubaste, Bela, a oportunidade de estar perto pra te lembrar que, na noite passada, a canção era pra você. Passo pra remediar até onde tem remédio.
    Não me leve a mal, por favor. Delete o comment se preferir, também não levarei a mal, mas entenda, você me conhece, não sou dessas de te amar envergonhado, assim meio pedindo desculpa ao mundo por você ser tanta dentro do meu coração. Não me estranhe, Bela. Você conhece meus ímpetos. Faça desse daqui o que bem entender, como sempre fez, como sempre faz. Mas entenda, jamais te negarei as palavras que fazes nascer dentro de mim e continuará sendo assim. Passo ao acto, Bela, o acto que me trouxe a passar por aqui. Não grite, não se agite. Sossegue, Bela. Me deixe falar.

    Menina-Guerreira que um dia “andou nua pelo meu país”, venho dar o bravo que a noite passada calei por respeito a você, a suas escolhas, sismas e quimeras. Venho dizer que continua linda, Bela Mia, de todas a mais bela, Bela Mia. Minha Menina-Guerreira rainha ainda e sempre, tão diferente e tão especial, flor exótica desse Portugal, fulgor loiro a luzir no escuro da frisa sobre um ombro que não é o meu, sempre a mais bela entre as belas, Bela mia!

    A gente se fitando enfim, no fim da festa, naquela esquina de rua onde você deu de parar pra eu quase bater de frente. Vontade de gritar “bravo, Criança”, que não vacila, não balança. Só me fita e não atravessa a rua. Linda, linda, Bela mia, fulgor loiro vestido de negro a brilhar mais que os neons e o descaso que te deixa solta, Bela mia, rainha solta na avenida a mercê da cobiça de quem como eu passar por você.

    “A dor não presta
    Felicidade sim
    O sol ensolarará a estrada dela
    A lua alumiará o mar
    A vida é bela
    O sol, a estrada amarela
    E as ondas, as ondas, as ondas

    Bambeia
    Cambaleia
    É dura na queda
    Custa a cair em si
    Largou família
    Bebeu veneno
    E vai morrer de rir
    Vagueia
    Devaneia
    Já apanhou à beça
    Mas para quem sabe olhar
    A flor também é
    Ferida aberta
    E não se vê chorar
    O sol ensolarará a estrada dela
    A lua alumiará o mar
    A vida é bela
    O sol, a estrada amarela
    E as ondas, as ondas, as ondas”

    Sossegue seu coração Bela! Você é guerreira e te amo ainda e sempre por você ser assim: bandeira cravada no lugar que acredita ser o certo. Você é o punhal que ajudo a empurrar contra o peito, cruel de tão livre e franca, cruel de tão bela, cruel de tão afoita apesar de seus joelhos ainda tão machucados: Menina-guerreira! Amore mio…

    Parto amanhã cedo. Tempo apenas pra cumprir o combinado. Escutei no mesmo lugar que você: não faltei. Eu estava lá, por um acaso que deu nesse tropeço em você parada naquela esquina, sei que agora você sabe. Ontem mesmo você foi embora daquele lugar sabendo. Saiba que ao seu jeito de Menina-guerreira, eu mesma sei que você também esteve lá. E se não fico mais que horas nesse seu Portugal, não é por desalento, bem pelo contrário. Te ver tão linda e ademais tão em descaso, largada solta naquela esquina de avenida, depois da festa acabar, me confirma o que meu coração repete sem parar. O que vi me deu a certeza que é bom que vá indo logo, vá indo na frente: quero ir logo, sim. Preciso estar a lhe esperar quando você voltar pra casa.

    Eu não sei
    Se ela sabe o que fez
    Quando fez o meu peito
    Cantar outra vez
    Quando ela jura
    Não sei por que deus ela jura
    Que tem coração
    E quando o meu coração
    Se inflama
    Ela faz cinema
    Ela faz cinema
    Ela é assim
    Nunca será de ninguém
    Porém eu não sei viver sem
    E fim

    Te falei, Bela mia, que não à toa, Cacá Diegues escolheu a canção para o filme “O maior amor do mundo”. Não à toa, a noite passada, a canção era pra você, não esqueça nunca. Ainda que não seja o meu ombro lá, no escuro da frisa, nem o meu abraço a amparar você na descida da ladeira.

    “Sempre
    Eu te contemplava sempre
    Para poder lembrar-te sempre
    O teu corpo em movimento
    Os teus lábios em flagrante
    O teu riso e teu silêncio
    Serão meus ainda e sempre”

    Baccio, Bela!


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: