Mulher | Violadores são mais agressivos quando conhecem as vítimas

Novembro 3, 2006

Leio em O Público, desta manhã, um artigo sobre a tese de mestrado da psicóloga Francisca Rebocho, a primeira na área de ciências forenses criada na Universidade do Porto, sobre agressores sexuais de mulheres adultas:

aspas_azuis215.jpg  O violador sexual é mais agressivo com as vítimas que conhece do que com desconhecidas. E estas últimas resistem menos do que as primeiras, provavelmente por temerem de imediato pela própria vida. Os agressores, por sua vez, revelam uma personalidade psicopática, com características anti-sociais, associadas a traços de paranóia, desconfiança e suspeição. A conclusão é de Francisca Rebocho, psicóloga e autora de uma tese de mestrado – a primeira na área de ciências forenses criada na Universidade do Porto – que há cerca de duas semanas foi defendida, com distinção.
O trabalho de campo ainda vai continuar, mas para já este é o primeiro grande estudo sobre agressores sexuais de mulheres adultas, que assenta numa amostra significativa: foram entrevistados 38 dos 55 condenados a cumprir penas nas cadeias portuguesas pelo crime de violação.
“Inicialmente falaram-nos em 140 reclusos. Mas percebemos que o número diminuía se retirássemos os casos de abusos sexuais a menores. Também afastámos as situações de violações a deficientes e acabámos por ficar com apenas 55 sujeitos. Desses, não foi possível entrevistar todos, pelas mais variadas razões, e o estudo assentou em 38 entrevistas, onde tentámos abordar várias questões, com o objectivo de chegar ao perfil do agressor sexual”, disse a psicóloga ao Público.

Ausência de remorsos
Dos 38 reclusos entrevistados, a psicóloga verificou que a maioria era proveniente de um meio rural carenciado e que se tratava sobretudo de indivíduos pouco diferenciados, tanto a nível académico como profissional. Mais conclusões: há uma predominância de homens solteiros, caucasianos, com uma idade média de 32 anos, sendo provenientes de famílias com uma vivência harmoniosa. “Não se verificam casos de grande conflitualidade nas famílias. Embora verifiquemos, numa análise mais detalhada, que nos momentos anteriores ao crime houve alguma conflitualidade acrescida com as famílias”, adiantou a investigadora.
Francisca Rebocho diz ainda no seu estudo que a maioria dos homens entrevistados tem envolvimentos superficiais e promíscuos, muitas vezes a par de um relacionamento sério e duradouro. E que a deterioração do relacionamento com a mãe é também propiciador da superficialidade afectiva, com diversos parceiros pontuais, em detrimento de relacionamentos mais sérios.
O mesmo trabalho dá ainda conta que estes indivíduos não apresentam antecedentes de doença física ou mental, nem têm historial de alcoolismo. Cometeram os crimes a maior parte das vezes na via pública e em meio urbano, sendo clara a existência de premeditação.
Outra característica comum à grande maioria dos entrevistados é a ausência de remorsos ou arrependimento. “Uma porção significativa dessa amostra expressou claramente a sua ausência ou verbalizou um remorso que nitidamente não era sentido”, pode ler-se na conclusão da tese, que refere ainda ser o remorso apenas verificado nos casos em que o crime foi praticado concomitantemente com outro (como o roubo).

Vítimas que não sofreram
O grosso dos entrevistados por Francisca Rebocho considerou que as vítimas não sofreram com a violação, embora a maioria tivesse manifestado resistência. Nos casos em que a vítima é desconhecida, uma parte significativa dos agressores volta a cometer o mesmo crime, o que é inverso nas situações em que há alguma familiaridade entre as mulheres e os homens que as violaram.
Além disso, no decurso da agressão, as vítimas cujo comportamento antes do crime foi percebido como provocante tentaram resistir, e as que têm, aos olhos dos agressores, um comportamento normal tendem a resignar-se durante a violação. Na sequência das entrevistas, a investigadora percebeu também que são as vítimas mais novas e as que os homens conhecem as que assumem um comportamento provocante – por este motivo, os agressores consideram que elas não evidenciam sofrimento.
Os dados sobre estes indivíduos apontam ainda para personalidades com problemas de rejeição e autoridade, revelando ainda um deficitário controlo dos impulsos. O seu pensamento está ainda focado na forma como foram negligenciados e como podem proteger-se ou conseguir a almejada vingança. Apresentam ainda personalidades egocêntricas e auto-indulgentes, com níveis de psicopatia algo elevados. Um aumento que é proporcional, também, ao aumento do risco de violência sexual.

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Uma resposta to “Mulher | Violadores são mais agressivos quando conhecem as vítimas”

  1. Liliana Says:

    Gostei do que li!
    Gostava ainda mais se tivesse a entrevista feita aos violadores em questão. É extremamente importante saber o que eles pensam para que cada uma de nós se possa defender dessas pessas perturbadas gravemente…


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