Chatterbox | «Amanhã é sempre longe demais!»

Novembro 3, 2006

Secção | Mailbox

Querido Leitor, 

Não são grandes os meus predicados, asseguro-lhe. Se tiver perdido algum tempo neste blog, já terá certamente reparado de que padeço de um irreparável defeito cósmico: sou de leão e, portanto,  os defeitos abundam mais que as virtudes. Em todo o caso, esclareço que não há grande segredo para esta coisa de «ter um prazer imenso em viver» (para usar a sua expressão),  nem tão pouco de «ser sempre invejavelmente feliz enquanto existe». Acredite-me: por detrás dessa constactação de facto (que é a sua , convém relembrar!), talvez não estejam atributos de tão meritória excelência assim. Acontece simplesmente que deixei-me de querer convencer a vida: ela que me convença, se for capaz ou estiver para isso, já que tem sempre argumentos mais fortes do que qualquer um de nós, simples e comuns mortais. Enquanto isso prossigo com a minha vida ou, como muito bem diz, «existindo». Não se espere pois que desista de viver para ficar à espera do resultado (ou não) do esforço empregue para a convencer ( a vida, claro está!), coisa que, aliás, lhe reconheci de avanço que já me deixei de fazer.
É como lhe digo, Querido Leitor, a vida que se moa e torture com esse dilema e se acaso se decidir por me convencer, que o faça de forma eficaz, porque nestas coisas da crença, não chega ter bons argumentos ou simplesmente ter jeito para a persuasão. Há que conseguir ser também convincente, acima de tudo convincente, eu diria.

E, posto isto, talvez o Querido Leitor compreeenda com mais facilidade porque razão escrevo: é porque não posso de modo algum deixá-lo incorrer nesse olhar magnânime e generoso que me lança, sob pena de pecar pela mais “umbiguista” e inqualificável das omissão. É certo que sou de leão, mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra! Felizmente não me cairam sobre os ombros todos os defeitos do zodíaco. Gosto do meu ego tal como está: um pouquinho de ferrugem aqui, um bocadito de verdete acolá, três ou quatro grãos de poeira por limpar, um recanto mais baço de onde em onde, mas parece-me aceitável no conjunto. Dispenso grande brilho e parece-me desnecessária a melindrosa tarefa de lhe puxar mais lustro.

Bem vê, Querido Leitor, é que eu tenho apenas para mim que o desencanto e o desprazer são como que a parte mais fácil da taluda, uma espécie de lotaria que, de acordo com o calculo de probabilidades e a constância crónica da sua própria sucessão matemática, já nos saiu mesmo antes de ser anunciada. Se quer que lhe seja completamente sincera, Querido Leitor, suspeito que perante esta composição congénita e estruturante da realidade universal a surpresa é coisa rara, senão mesmo impossível. Assim sendo,  limito-me a conservar a hipótese dessa ínfima percentagem de erro indispensável, como sabe, a qualquer verdade científica. Depois de Karl Popper, nenhum de nós pode ter a pretensão de incorrer na tentação de inviezar a percepção e dizer depois que se tratou de um equívoco teórico.  Estamos todos advertidos: todos. Neste capítulo, considero portanto que já basta a minha disponibilidade para me deixar surpreender, mesmo não fazendo nenhuma fé na supresa. E se acontecer… olhe, muito me surprenderá, Querido Leitor! A surpresa, bem entendido:  a surpresa. Mas até lá, não creio. Não creio e não espero, Querido Leitor. Não espero para viver. Não, Querido Leitor, já me deixei disso! Por conseguinte, já não comprometo nada, nem empenho coisa alguma, assim como também já não desperdiço, não desisto, não troco, não deito nada fora. Não na espera dessa tal possibilidade ínfima de me poder surpreender.  Sei lá eu se vem ou não!… o que sei é que, surpresas à parte, o que tenho me dá felicidade suficiente para gostar por demais de continuar a viver!

E pergunta-me a rematar: «Não a angustia que algo mais a procure depois da hora?» Ora, eu já lhe respondi, Querido Leitor!… Quer mesmo que repita?! Muito bem: já me deixei disso, eu tinha-o avisado. Que posso eu fazer se a vida tiver a surpresa de não vir a tempo de me poder surpreender?! Nada! Absolutamente nada. Tanto pior para ela, para a vida(claro está, mais uma vez) . Por muito que queira, eis uma coisa contra a qual nada posso: viver já sem vida o que a vida trouxe quando já não havia vida. Seja qual for a razão do atraso, contra a grandeza irreversível do tempo nada posso, ninguém pode. Está condenado, tudo o que vem depois da hora. Ainda assim (e novamente) não creio que haja sentido em me angustiar. Terei vivido, senão a surpresa tardia, outra qualquer coisa em seu lugar, outra qualquer coisa chegada em sua vez, enquanto se demorava e retardava. Quanto há vida, não sei, não me pergunte. Imagino que lhe reste um desconsolo de que, pelo menos, fui poupada –  afinal será ela (a vida, certo?!) que ficará a braços com o vazio, com a ausência de alguém que possa viver a surpresa que enfim lá se tinha convencido a preparar.

Lamento, Querido Leitor, não poder ser mais conclusiva a partir daqui. Sugiro que pergunte à vida, pois entramos num terreno que só lhe diz respeito a ela e sobre o qual, por maioria de razão, só ela pode responder. Tente, se quiser. Tenho as minhas dúvidas e reservas e, mesmo que quisesse ajudá-lo, parece que a vida ainda não criou um blog e não consta que tenha por hábito responder a e-mails.

Fica Um Abraço Meu!

Ass: a autora deste blog

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