Archive for Novembro, 2006

Chatterbox | Animado de um endiabrado Matrix endemoniado!

Novembro 24, 2006

Secção | Querido Leitor 

Um problema grave no meu laptop. O cursor move-se sozinho e desata a fazer acentos agudos em todo o espaço em branco que apanha: documentos word, notepad, barra de url, dashboard do blog, na caixa dos comments dos blogs que sigo e aprecio, na dos que aqui mesmo alguns de vós vão tendo a delicadeza de deixar… tudo e em todo o lado! Fico parada a ver o monitor desenhar acentos agudos à velocidade da luz,  imparável (tipo Matrix!!), animado de uma vida que não sai dos meus dedos. Impossível escrever. Ninguém supõe a luta árdua que me valem estas linhas: uma tarefa de teimosa persistência e sistema nervoso à prova de bala, tão desconectado como este teclado. Tentarei remediar  o problema e regressar online o mais depressa que me for possível. Até lá, nem tão pouco posso vaguear pela net porque, como já expliquei, até na barra do Google e dos url, os acentos se escrevem sozinhos, baralhando a direcção, adulterando os endereços.
Saibam tão só que, cega e muda, estarei aqui, sim, a esgrimir no silêncio contra este estado ausente que agora me enlouquece.

Um muito excelente começo de semana, para todos!

Ass: a autora do blog

Lugares | Sesimbra: … apesar da tempestade

Novembro 24, 2006

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Estar onde nunca tinhamos estado, ir onde nunca nos tinhamos lembrado: é bom o sabor das coisas novas sobre o mofo de tanto passado guardado entre a cânfora. É bom voltar ao prazer indelével das coisas primeiras, das coisas feitas pela primeira vez. Para variar. Para viver.  É bom para mim, que estou tão irremediavelmente cansada de reviver; bom para mim, que estou profundamente entediada de sobreviver. É bom:… a novidade. É bom:… outra vez este gosto de vez primeira.  E mais não sei. O resto não sei.

«Em todas as ruas te encontro / Em todas as ruas te perco»

Novembro 23, 2006

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A tua dor é um quase nada a eu acedo só porque já nada posso, diante do reflexo extemporâneo de tudo o que tanto  me doeu também. E se fico é porque já não me fixo. Porque só a esperança fere e só quem acredita teme, e eu já nada temo, a mim já nada me dói. Perdi-me da ânsia e de tudo o mais que é fome desse resto que falta ao vazio. E se fico, não é porque acredite que ainda nos possa salvar, não é sequer por ainda desejar um qualquer castigo justo que nos imortalize as perdas e os danos. Se fico é porque chove, e eu hei-de morrer a pertencer à raça daqueles que não crêem que os céus se rasguem em prantos vãos. 

(…)

A rua, Querida. Eu a descer a rua. Tu parada na rua, Querida. Na mesma rua, Querida. Como se acasos não houvesse, como os há. Como se quisessem dizer alguma coisa, como nem sempre querem. Como se servissem para alguma coisa, como nunca mais serviram. Como se adiantassem o suficiente para mudar as coisas, para guinar os rumos e modificar a parte tangível do mundo.  Eu e tu, Querida: outra vez na mesma rua. Como se ainda fossemos acaso. Como se ainda fossemos destino.

(… )

aspas_azuis22.jpg  Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

E o verso do poeta que me não larga… E esse fio das palavras a atravessar-se por entre a chuva… a salvar-me de mais um abismo que possa suceder-se ao breu e à noite escura… Como uma branda mão de demiúrgo a guiar-me por entre o labirínto da água em dia de tempestade…

Lisboa, em dia de temporal

Novembro 23, 2006

Lisboa, em dia de tempestade: um cemitério de abrigos a cada esquina, um depósito de inutilidades abandonadas na berma, esqueletos de varetas dobradas a meia haste largados de mão, caídos rente às sarjetas. Como corpos. Frágeis. Desnecessários. Supérfulos, agora. Por todos os cantos a imagem afogada dos essenciais dispensáveis – afinal, tão dispensáveis! -, o prosseguido passo adiante, após a ligeireza dos dedos que se abrem e desenvencilham do tropeço. Lisboa, em dia de temporal. Como não guardava na memória que pudesse ser: um denso céu de chumbo a vomitar água em dilúvio, a ventania a sacudir o avesso das coisas, as coisas pelo avesso, e a noite a chegar demasiado cedo. Como se o tempo fosse um absurdo sem razão, sem lugar à memória de uma qualquer outra lembrança que o pudesse ainda amainar. Em tempestade. Em dia de temporal. Lisboa: assim.  

O fado dela

Novembro 23, 2006

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Foto: Reinaldo Rodrigues

Aldina Duarte“Sonho Lento”
Para escutar AQUI

Teimas em forçar a intromissão e vens, inconsciente, lembrar-me um colo emprestado que só me magoou os ossos, sem que eu perceba como é possível tu achares que possa achar bela a memória de mais uma noite arruinada. Mas tu segues teimando, que teimar é o dom maior de que te orgulhas, e vens evocar-me uma noite que, para teu bem, melhor fora me deixasses esquecer.  Traço o xaile e desço o que resta à rua. Já nem te contrario o devaneio de te ver assim, a insistir em te fazeres presente nos lugares onde já não estás. Deixo-te, pois, como gostas e preferes:… a errar com toda a alma / a fingir que a dor se calma / cada dia mais sozinha… enquanto eu sigo descendo a rua aconchegada no meu xaile bem traçado.

O fado em mim

Novembro 23, 2006

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Foto: Reinaldo Rodrigues

Aldina Duarte“Canção a Meia Voz”
Para escutar AQUI

Solene, esse pico em que a palavra atravessa o acorde assim: rente ao nervo. Acordado o nervo. Serenado o nervo. Brando e manso. Como a espuma. Como o indelével fio de nylon que guia cada coisa ao seu sentido.

Mood | espírito para o fim-de-semana

Novembro 18, 2006

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Olhando atentamente para a fotografia… reparando bem… creio que é possível ver-me à transparência. Ser transparente. Eu.

Coisas banais de quando há vida

Novembro 18, 2006

Grande revolução dentro do carro! As meninas agitam-se entre mil notícias da actualidade. Sentem como se tudo lhes diga respeito, e isso é bom: greve dos alunos contra as aulas de substituição, referendo sobre o aborto, demissões na direcção do Benfica, subsídios do governo contra os estragos causados pelo mau tempo, o pretenso plágio de Miguel Sousa Tavares, o casamento do Tom Cruise no tal castelo de Itália, a condenação à prisão perpétua do militar americano que violou uma rapariga no Iraque, uma candidata do sexo feminino à presidência francesa, enfim… tudo. Mais do que as opiniões que proferem, confesso que me orgulho do acto simples de as ouvir falar das coisas. Gosto desse lado resoluto, da forma desperta com que não se resignam nem adormecem diante dos acontecimentos, sejam eles quais forem. Gosto dessa coisa delas acharem que tudo lhes diz respeito. Sei que enquanto for assim estarão a salvo. É tão perigoso este mundo onde ninguém pensa e, com a idade, se vai cansando cada vez mais de pensar!!…

(…)

Dentro de pouco tempo deixo as meninas no teatro e outras duas na explicação de matemática, em casa de Dama de Aço. Ficamos com o Vasco e o amiguinho mais um pouco e depois Cuspidora de Fogo vai deixá-lo no palacete brasonado do pai, o Barão Infame. Fotógrafa Poderosa segue deliciada, a empolgar os argumentos das meninas e a contar os segredos que conhece dos bastidores dos actores de televisão. Alguém tem depilação marcada, alguém tem uma aula de yoga ao fim da tarde, alguém tem uma paixoneta entalada numa esplanada de praia que morre se não vir, nem que seja por dez minutos, alguém quer ir a uma loja do Chiado, alguém tem um compromisso de trabalho e volta mais tarde. Há também um estirador para ir buscar ao Ikea, umasThimberland de cano alto nº 37 , reservadas e à espera no Shopping das Amoreiras, uma revista guardada na papelaria do CCB e mais dois bilhetes para comprar para o espectáculo desta noite, apesar de eu já ter cedido os nossos. E depois, eu. Eu que não tenho nada de especial para fazer, nada que queira em particular, a não ser um verniz para ver se páro outra vez de roer as unhas, ou um corta-unhas (de preferência, urgente!) para me livrar deste espigão que me está a matar e outra vez uma lâmpada porque se fundiu mais um candeeiro lá em casa. Fora isso, não quero nada, não tenho nada, só mesmo esta sensação enorme de alívio dentro do peito de já não me sentir responsável por nenhum fim-de-semana, nenhuma grande história, nenhum amor suspenso, a deixar-me ser feliz não importa onde, nem a fazer o quê.
Deixo-me ir tranquila, no lugar da frente, entretida a  mudar as frequências ao FM. Enquanto isso, vou rindo com as conversas cruzadas, metendo uma ou outra colherada e pensando no quanto gosto desta coisa de cabermos todas no mesmo carro e do facto de ninguém ter que sair para ceder lugar a ninguém. Acho que, na verdade, o que quero dizer, é que nunca conseguiria viver sem que fosse possível ser assim. Não me imagino num mundo onde tudo isto fosse estranho e fosse preciso ser de outra forma. Bem pelo contrário! Do modo como sinto a vida, sei que estaria condenado à partida tudo o que se me apresentasse só possível mediante exigências de exclusão, ainda que momentâneas, concertadas, democráticas, diplomáticas, e etc e tal, de qualquer outra frente dos mundos da minha vida, fosse ela qual fosse: amigos, nem pensar, crias e familía, então, verdadeiramente impensável. É certo que, para quem me conhece, não acrescento nada de novo. Sempre tive uma estima imensa nesta ausência de fronteiras e barricadas. Mas hoje em dia, acho que estou pior. Quando páro e penso um pouco, dou-me invariavelmente conta que esse é um dos equilíbrios que mais prezo. Preciso que todos os mundos em que me movo tenham comunicação entre si. Sem que assim seja, e eu o saiba, não me sinto livre nos movimentos e acontece (cada vez mais) que sem liberdade não sei ser feliz.

(…)

Agora desliguei o rádio. Apeteceu-me interromper o noticiário, para ver se ponho fim ao caudal de converseta das pré-adolescentes, no banco de trás. Cuspidora de Fogo volta a explicar ao Vasco que os pés não são para colocar contra o assento dos bancos. Fotografa Poderosa engana-se mais uma vez no cruzamento da tua rua. Red Bull teria remediado com uma transgressão, mas Fotógrafa Poderosa não é Red Bull e se Red Bull estivesse aqui, concerteza que não estaria a vir ao teu encontro, como faz Fotógrafa Poderosa agora. Graças a Deus que estamos quase a deixar as crias e a passar para um carro maior.  Estou a entrar na fase em que já só quero outra vez tempo para mim, em que me apetece ter mais espaço. Suponho que tenho passado demasiadas horas fechada dentro de carros: de uma forma ou de outra, a claustrofobia era previsível.

(…)

Demónio de Guarda telefona. Ena, ena!… Toca já tudo para o aeroporto. E o Vasco? E o amiguinho? Creio que agora vai ter que ser o Barão Infame, senhor, seu pai, a esperar!… Ligo a Dama de Ferro que, expedita, como sempre, resolve logo o problema da melhor maneira: vem buscar as meninas a meio do caminho. O amiguinho do Vasco pragueja, o Vasco pragueja, Cuspidora de Fogo refila porque as minhas pastilhas não são as que ela gosta. Tu refilas com Fotógrafa Poderosa e ela contigo: mais uma vez, desentendimentos de percurso. Peço menos rumor, menos barulho, menos energia, menos alegria, eu sei lá!… Cuspidora de Fogo deslisa no banco de trás e aproxima-se do meu encosto. «É vida, de que te queixas?! Tinhas vida, no fim-de-semana passado?!», pergunta-me baixinho ao ouvido. Não respondo. Também não faz mal: até parece que Cuspidora de Fogo precisa que alguém responda por ela!… «Não tinhas coisa nenhuma, era o que era!!». Pois não, não tinha. Não tinha mesmo. Não tinha nada. Não tinha coisa nenhuma. «Vá, vá! Isso aí também não!… Tinhas-nos a nós: todas e todos! Porque é que julgas que pouco já não te chega??» Talvez, se calhar. Não quero pensar. Não adianta pensar. Não me apetece pensar. Esgotei o cérebro e a paixão por tanto ter que pensar.  «Agora olha, remédio santo! Não há, não há, pronto!», Cuspidora de Fogo, sempre pragmática «O amor gasta-se, o que é que pensas?!» Curioso!… Se considerar que amor é um sinónimo de coração, então terei escrito exactamente o mesmo, aqui há umas horas atrás. Lembro-me de não me esquecer de dizer isto a Cuspidora de Fogo, daqui a pouco, quando sairmos do carro: por nada em especial, achei graça à coincidência, mais nada. Saimos do carro. Lembro-me que não me queria esquecer. Não me esqueço. Lembrei-me. Digo-lhe. «Achas estranho?? Eu não! A realidade é só uma. Quando duas pessoas olham para ela, só podem ver o mesmo, dizer o mesmo. Quando há duas versões é porque uma está enganada e, assim sendo, o caldo já está entornado. Já viste um tipo do benfica a falar com outro do sporting? Achas que alguma vez se vão entender?! Pois é evidente que não!!… Bem podem ficar para ali a falar do mesmo para o resto da vida: um vê verde, outro encarnado. O daltónico não interessa, não é por isso que o que não é se consegue fazer explicar!», Cuspidora de Fogo no seu esplendor: lúcida e bruta como ela só!… Corro a abraçar Demónio de Guarda: «Sozinha e com piada ou amancebada e miserável?», pergunta-me. A primeira. «Como??», o sorriso de Demónio de Guarda a suavizar a maldade da pergunta repetida, a festa de Demónio de Guarda nos meus cabelos.  As lágrimas ainda me vêm aos olhos, mas já não caem. Como eu. Iguais a mim. Ou não fossem os olhos o espelho da alma, a boca do coração.

(…)

«Planos para o serão?» Abdico. Apetece-me a casa. «Ficar à espera, não vá dar-se o caso de ser hoje que te vão buscar!…» Não, é vontade da casa mesmo! Vontade de vida dentro da casa, como nunca deveria ter deixado de ser. E depois amanhã é Domingo de plantão… Não quero passar a semana toda a sentir saudades do que não fiz. Estou cansada de sentir que as coisas me faltam.  «Antes assim!»

Coisas doces, sem açúcar

Novembro 18, 2006

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Foto: João Tito via Projecto C

Levam-me à rua, compram-me castanhas. Que bom! Simples e tão, tão bom.

Mulher | Causa da morte: anorexia

Novembro 18, 2006

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Foto: Keate

Carla Sobrado Casalle tinha 22 anos, 1, 74 m e apenas 55 kg.  Morreu na manhã de 5ª feira, vítima de duas paragens cardíacas, no Hospital da Beneficência Portuguesa, em Araraquara. Estudava moda na faculdade paulista Anhembi Morumbi. Ainda não era tão conhecida como a modelo Ana Carolina, falecida na passada 3ª feira, mas teve o mesmo fim que ela: a anorexia matou-as às duas. Com apenas 2 dias de intervalo.

Leio | ‘A Décima Segunda Noite’ – Luis Fernando Veríssimo

Novembro 18, 2006

16_mvb_verissimo01.jpgEm menos de uma semana, é a segunda ou terceira vez que aqui me refiro a Luis Fernando Veríssimo. Agora, por exemplo, é para dar conta de que acaba de ser publicado A Décima Segunda Noite, o último livro do autor , sob a chancela da Editora Objetiva.
A história passa-se num salão de cabeleireiro de parisiense e é contada por um papagaio verde e amarelo, que não é de Flaubert, mas (ao que parece) poderia muito bem ser. O autor define-o como «um narrador sem umbigo».

Alguns excertos AQUI

‘Love me tender, love me do’

Novembro 18, 2006

sabadomanha18nov2006.jpgSábado de manhã. Abro os olhos pouco convencida. Sábado de manhã. Amanhã é outra vez Domingo. Tento não pensar no desperdício do último fim-de-semana, quando me ocorre que amanhã é dia de plantão. Que é para não me irritar, que é para não me arrepender, que é para não me culpar, nem castigar, agora que já não vale a pena. Sábado de manhã. A campaínha da porta a tocar logo cedo. Sábado de manhã. Eu ainda a pairar na asa dos fados da noite passada, o xaile ainda traçado aos pés da cama. Sábado de manhã. Sol com chuva, lá fora. A campaínha da porta, uma outra vez. Uma segunda voz dentro da casa. Sábado de manhã e ainda bem. Sábado de manhã e já nada é grave. Sábado de manhã e tudo volta a parecer-me ter concerto. Sábado de manhã e eu achar que talvez não mereça que a vida me recomece tantas vezes.

aspas_azuis22.jpg  … Amando noites afora
Fazendo a cama sobre os jornais
Um pouco jogados fora
Um pouco sábios demais
Esparramados no mundo
Molhamos o mundo com delícias
As nossas peles retintas
De notícias…

Chico Buarque

‘Come loirinha, come!’

Novembro 18, 2006

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Um desejo antes de fechar os olhos e adormecer: amanhã quero acordar assim!…

Script # 35 | Morde a saudade. Salva o coração.

Novembro 18, 2006

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… É que o coração gasta-se, Querida!… E não é só um blog, não é só um belíssimo nome que alguém se lembra de dar a um blog. É real como a vida: o coração também se gasta. Como os ossos e a energia, como a crença, a esperança e a paciência. Mesmo que não seja logo ao final de meia-hora e, contra todas as expectativas, sobreviva um pouco mais aos obscenos abusos do tempo. É real: o coração também se gasta. Gasta-se, afinal. Gasta-se. Como tudo.

Quando eu for grande quero ser pequena

Novembro 17, 2006

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