Crónicas | «Quantas coisas bacanas duram 20 anos?»

Outubro 23, 2006

O cronista Tutty Vasquez foi assistir a mais um show que a Intrépida Trupe tem em cartaz, lá na Fundação Progresso, para celebrar os 20 anos da companhia. No regresso o pensamento perde-se-lhe em elocubrações sobre “permanências” e “durabilidades”. Vai daí, propõe-nos um jogo mental delicioso, na sua crónica desta semana:

aspas_azuis214.jpg  Quantas coisas bacanas duram vinte anos na vida da gente? O bar a que você ia em 1986 continua no mesmo lugar? Em caso positivo, você ainda vai a bar? Sua casa, seu carro, as roupas de que você mais gostava, o flanelinha ou o segurança da sua rua, os amigos do peito, os peitos das amigas, seu estado civil, seu emprego, chefes e vizinhos, suas manhas e manias, itinerários e pontos de vista, seus vícios, sua comida preferida, aquele político que você tanto admirava… Fala sério, quase nada se conserva inalterado por duas décadas. Cabelos e barriga, então, nem se fala! Ninguém é o mesmo o tempo todo, muitas vezes somos várias pessoas ao mesmo tempo.

Tente lembrar quem era você há vinte anos. Uma foto talvez ajude. Se achou? Mudamos nós e/ou tudo a nossa volta? É ou não é impressionante o tanto de gente e de acontecimentos que, importantíssimos na época, passaram batidos, como a mania do tamagochi, para um canto qualquer dos porões da memória de cada um?

Tudo é muito rápido. Em cinco anos, a pet shop da esquina já foi pizzaria, loja de bicicletas, franquia de pão de queijo e, mais recentemente, videolocadora. O tempo deleta, nos faz esquecer, por exemplo, os dias de aflição que passamos em 1999 com a anunciada chegada do bug do ano 2000. Viu-se depois que era o mico do milênio. O fato é que, às vésperas da data prevista para a “odisséia no espaço”, Rivaldo foi eleito o melhor do mundo. Calma! Daqui a pouco você já terá esquecido disso de novo.

Esquecer pode ser uma arte do bem-viver, mas a brincadeira aqui proposta para produzir felicidade é outra. A questão é: quantas coisas bacanas duram vinte anos na vida da gente? Pode ser uma paixão, um sofá, um sapato, uma amizade, um aparelho celular, um programa, um percurso de caminhada, Carinhoso, do João Gilberto, queijo com goiabada, um sonho… Quem superar a casa das dez alternativas deve urgentemente buscar uma terapia, tanto quanto os leitores que não conseguirem descrever sequer uma situação prazerosa reincidente ao longo dos tempos. Bom é quando num domingão qualquer você se dá conta de um troço bacana que vive com você há um tempão, sem que a isso se atribua importância maior.

«Intrépidos Tempos»  in revista Veja

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