Das causas em horário nobre

Outubro 9, 2006

alexandralencastre.gif
Foto: Alexandra Lencastre

Há pequenas causas que são grandes na exacta proporção de cada vida e da história que ela encerra. «Sem pieguices», nem «beliscar a honra» de cada protagonista, como lembrou e bem Júlia Pinheiro, a TVI estreou esta noite Canta Por Mim. Celebridades e figuras públicas, em dueto com cantores, em nome de um caso de solidariedade: «um caso de alguém especial, com uma vida difícil ou necessidades muito urgentes, e que precisa de uma oportunidade para mudar a sua vida».

O programa colocou hoje no ar os primeiros quatro duetos. Não há qualidade, mas há boa vontade. Serve a nobreza da intenção, o duvidoso e sempre questionável propósito dos shares e das audiências, é certo. Mas, se pelo caminho, alguém cumprir a meta, tiver o apoio e o amparo que lhe é urgente, já não terá sido de todo desperdiçado o tempo em antena.

Alguém lembrava, á laia de salvaguarda, antes da votação, que o júri «não está aqui para pontuar as causas – todas elas tocantes, sem dúvida – mas as prestações de cada dueto que sobe ao palco para as defender». Pelo que vi esta noite, não creio que se possam criar grandes expectativas quanto às actuações. O mesmo não me parece que vá suceder com os casos de solidariedade em causa. Por mais prementes ou dramáticos, parece-me inevitável que a simpatia e o coração nos aproximem mais de uns do que de outros, independentemente da urgência de cada situação, com toda a injustiça que, aparentemente, isso encerre.  A mim, confesso, tocou-me em particular o optimismo da mulher divorciada que vive com os dois filhos numa garagem e só quer dar-lhes uma «cama quentinha» e «um tecto mais parecido com uma casa». Impressionou-me pela forma irredutível com que contornou a insinuação da apresentadora, relativamente à situação financeira delicada em que a separação a teria deixado. Foi clara: «não estou aqui para culpar nada nem ninguém. Entendi que para continuar a estimar-me como pessoa e como mulher tinha que me separar e separei. Pronto.» Comoveu-me a coragem na autonomia e o senso de verticalidade. Sem «pieguices», nem miserabilismos. E depois seduziu-me a força e o optimismo, a alegria e a vitalidade daquela mulher tão jovem, que queria mais de si e mais para os seus, da jovem que não se acomodou, que se empenhou em estudar contabilidade e aprendeu quatro idiomas, mesmo trabalhando numa fábrica, sendo mãe de duas crianças pequenas e trabalhando como empregada-a-dias, nos bocadinhos que sobram. Enterneceu-me que o único pesar que lhe tenha escapado à confissão fosse o de gostar demasiado de livros e os ver apodrecer com a humidade da garagem onde mora. Podem ser detalhes, pode até ser o mais irrisório dentro do drama que é não ter direito a uma morada humana, mas para mim foi um desabafo de uma grandeza imensa: o da mãe que tremendo com os filhos, ainda se preocupa e cuida de zelas por esse bem precioso que é a sua biblioteca, por mais humilde que seja, como quem pressente e entende o valor que fica contido entre a capa e a contra-capa.

Teria de bom grado votado na dupla que defendeu, a cantar, a jovem mulher divorciada, sim. Mesmo que fosse a mais desafinada de todas. Pelo simples reconhecimento de lhe dar um lugar onde montar uma estante e prateleiras em condições, para albergar esse bem maior que cultiva do centro de todas as privações: o do saber e dos livros. Teria votado, sim. Feliz e plena da convicção de não estar a subverter o regulamento do concurso. Em nome dela e dos seus livros.  Apesar da outra família, muito mais numerosa e também a viver numa casa a desabar, e do rapaz-pintor que quer uma cadeira de rodas eléctrica para se deslocar, ou do pequeno e talentoso Marcelino Samblé, de 11 anos, cuja família não tem como custear-lhe os estudos para prosseguir uma carreira de bailarino. Vá-se lá saber! Acontece que é assim o movimento solidário do coração: abre-se ás causas que o sensibilizam e não há nada a fazer!

Como diria a diva das novelas portuguesas, Alexandra Lencastre, que, mesmo ao lado do próprio Luis Represas, lhe conseguiu simplesmente arruinar a canção “Feiticeira”, com o desastre da performance: «Posso ter-lhe estragado a canção ao cantá-la , mas juro que a cantei com o coração. Mas pronto!… Foi mais uma de tantas outras coisas na vida que estragamos com o coração…!»

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: