‘A ver a banda passar / Cantando coisas de amor’

Outubro 5, 2006

Feriado nacional. Implantação da República. O rei caiu e a monarquia afundou-se nos cafundós dos séculos, remetida para as páginas da memória e dos anais da História.

Cigana das Terras de Sua Magestade chegou no voo desta manhã para se juntar a nós. Demónio de Guarda madrugou e voluntariou-se para a apanhar no aeroporto. A cozinha da casa foi o local que escolhemos para extravazar euforias e emoção. Rimos muito. Ri o sol connosco também. São pouco mais que oito da manhã e faz calor, um calor bom de Outubro, um calor bom de amizades fortes. As meninas vão acordando aos bochechos e enchendo a cozinha. Lembro-me inusitadamente de Ally McBeal e do seu sonho de montar um resort só para raparigas. Sim, Ally McBeal deveria estar aqui. Tenho pena que não esteja. Quem sabe um dia, quando se libertar do lado disparatado e sem sentido que se impõe a si própria em nome da sociedade com Red Bull! Ah, Red Bull!… Faz dias que não pensava, nem me lembrava de Red Bull, é verdade. Imbecil e idiota! Enfim… adiante, que esse tema é poeira vã, causa inútil, batalha do passado. Red Bull lá sabe das suas escolhas: que se dane, contando que seja feliz.

De súbito, a tranquilidade da manhã é invadida pelo som descompassado da banda da vila. Demoramos alguns instantes a ~perceber que música é essa que vem vindo da rua, em perigoso crescente desafinado. Corremos lá para fora, para o muro da casa. Um cortejo ridiculamente esquálido desfila pela rua. Na frente três homens atarracados, em fato domingueiro, cheio de vincos e pregas mal passadas. As meninas defendem que um deles deve ser o presidente da Junta de Freguesia local. Os outros dois ninguém imagina quem sejam. Atrás deles, vem a banda, vestida de branco e turquesa, os instrumentos polidos a cintilar sob os raios do sol de Outubro. E alguém mais rápido mata a charada: «Deve ser por causa do 5 de Outubro!» E alguém mais mordaz remata a conclusão: «Magra vai a República, nos tempos que correm!».

Ficamos a ver a banda desaparecer na curva do Largo. Voltamos para dentro. A vinda de Cigana de Terras de Sua Magestade é, para nós, um acontecimento bem mais digno de registo do que a Implantação da República, convenhamos. Lamentamos, temos pena, mas é verdade.

Na cozinha, não sei se para assinalar o facto, alguém se lembra de repente de começar a cantar acordes do Chico. Assim:

  Chico Buarque – ” A Banda”  

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