Script #19 | Perdão, mas na minha agenda não cabe mais nada!

Outubro 2, 2006

null
Foto: Ferr@Fog@Faísc@

Dez minutos em pleno habitat laboral e já estou para aqui às voltas, a pensar na impiedosa voracidade do quotidiano e nos seus tropéis. Devia ser crime violentar desta maneira o livre curso do pensamento alheio! Como é que eu me posso ocupar de autorizações e recomendações, telefonemas  que façam a ponte e a porta abrir-se mais depressa? Como querem que eu tenha disponibilidade mental para ser estratega, e exercer influências, e facilitar contactos, e redigir cartas de alforria, e tudo o mais e afins, se estou para aqui ocupada com o inventário mental das coisas que quero colocar na bagagem, já que desta vez vou por mais dias que não só os de um fim-de-semana mais esticado?!… Que posso eu fazer se as ideias me vagueiam por outras frentes?! Que culpa eu tenho que arranjar a dobradiça da caixa do correio e resolver o problema do estore que corre mal, sejam mais importantes que tudo o resto? Que posso eu fazer se estou mais preocupada em caiar o muro da varanda do que com a agenda do governo para a próxima semana? De que adianta falarem-me de todas essas certimónias, factos e eventos, se para mim o grande acontecimento há-de ser aprender a plantar mirtilos, podar as buganvílias do alpendre e voltar a encher a despensa com frascos de compota de figo e framboesa, no mercadinho sobre a arriba da falésia? Quero lá eu saber de mais um convite de gala ou uma carta elogiosa que chegou!… Eu estou é a pensar no cheiro a maresia que entra pelo café do largo, agora deserto de veraneantes, onde daqui a algumas horas me hei-de sentar a ler e a escrever, com um chá bem quente a aquecer os dedos ao poente! Eu quero é saber de adormecer ao som das marés vivas de Outubro e de acordar com os gritos das gaivotas a rasar a açoteia! Eu quero é pisar os restos de areia que o vento do Outono sopra de mansinho pelos quatro cantos da casa, e de sentir a humidade salgada presa às vidraças e aos cabelos, e rir e conversar com aqueles que entendem que a vida não tem necessariamente que ser um espartilho de regras e pressas vazias, nos serões intermináveis por onde a conversa nos jorra entre manjares e iguarias cozinhadas devagar.

Vão portanto desculpar-me, mas acontece que o meu foco é diferente do vosso. E é por isso que não me agasto nas mesmas úlceras e neuroses, no mesmo stress, agito e agonia que vos faz a todos ser só ansiedade e irritação. Lamento, mas não consigo. Mesmo que tentasse, nunca poderia ser bem sucedida e muito menos conseguiria ser suficientemente convincente para vos satisfazer a excitação. Sou pois solidária com o vosso frenesim, mas não posso partilhá-lo tão sentidamente como acaso esperam e gostariam. Cedo a assinatura, a foto e o poder de desempatar e decidir, em última instância. Cedo de bom grado. Só não me aborreçam. Só não me peçam o que não tenho como vos dar: interesse nos vossos entusiasmos, entrega nas vossas prioridades, simpatia para com os vossos sacrifícios.

E por falar nisso… que horas são? Quanto tempo é que ainda falta para já ser amanhã e ficarem só a faltar umas escassas horas para eu estar liberada e me poder ir embora mais um bocadinho??

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: