Hoje é dia de eleições presidenciais no Brasil

Outubro 1, 2006

20060911131017060911_bandeira_ap203i.jpgAcordo cedo. A casa arrumada e perfumada. Respiro fundo. Hoje é Domingo, mas estou de piquete. Queria poder ficar aqui, a gozar a ordem que demos à casa, fruir preguiçosamente e sem muito porquê o prazer minúsculo de saber cada coisa em seu lugar. E depois o barulho do restolhar das folhas na copa das árvores do jardim, o coachar da água na fonte que sempre me causa esta impressão de ter um riacho a correr à porta. Abro todas as janelas. Faz sol. As madeiras dos tectos e do soalho cheiram a cera fresca. Pelo ar há este aroma pão fresco e maçãs verdes dissolvido na alfazema que andámos a repor nas gavetas e armários e que ainda paira por todo o lado. É bom quando a vida é mansa. É melhor ainda quando ela nos amansa. Volto a lembrar-me que ao começo da tarde entro de piquete. Recordo-me que o Brasil vota hoje para decidir se Lula continua ou não no Palácio do Planalto. Ocorre-me que estava no Brasil, a quando das últimas presidenciais de 2002. Ocorrem-me todas as emoções, toda a felicidade, todas as estreias, todas as novidades… Aquele sentimento de cumprir alguma coisa com que há muito se sonhava, pela primeira vez. Ponho café a fazer: mais um perfume a somar-se aos aromas da casa. Fumo o primeiro cigarro. Abro as edições online dos jornais do dia, ligo o Skype, converso por cima das águas com o outro lado do oceano. De repente sinto-me de novo nas ruas verdes e amarelas, envolta na parafernália eleitoral que tão bem conheço: um carnaval fora do tempo, garrido e ruidoso, como se nenhuma desilusão fosse suficientemente gravosa para demover a liberdade, o anseio e a festa. Como se a esperança sobrevivesse sempre a tudo: até à leviandade do herói feito vilão. Queria escrever que sinto hoje a mesma euforia empolgada que senti em 2002. Queria escrever que vibro apaixonadamente nessa época, que rezo e cruzo os dedos e faço força e me agito para ver a esperança ganhar realidade. Queria mas não consigo. Já não sou capaz: já não me sai ou já não sinto. Ou, então, sinto mas já não me sai. Se Lula perder e cair do trono, é só mais um sinal de um certo reinado que chegou ao fim.  Acendo outro cigarro, bebo mais um café, concentro-me no chilreio dos pássaros a entrar pelas janelas e saboreio a certeza de ser domingo, de haver descanso, de a casa estar em ordem e de cada coisa brilhar no seu exacto lugar. Mesmo sabendo que não tarda muito tenho que ir trabalhar. Mesmo assim. Que se dane o Lula e sonho desfeito de 2002!… Sou feliz na mesma. Sou feliz igual. Sou feliz agora. Sou feliz aqui. E que me perdoem o egoismo.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: