Song | “Clandestino”

Agosto 9, 2006

aspas_azuis213.jpg  Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.

Clarice Lispector – “A felicidade clandestina” 

É verdade: tenho «mau feitio».
E sabes que mais? Nunca, mas N-U-N-C-A te perdoarei todos os Verões felizes que tão descaradamente nos tens andado a roubar. 
E terias roubado mais um, se eu não fosse mais forte que tu. Ter-me-ias roubado este também, se eu não te segurasse pelo pulso, se eu não te cuspisse no meio da testa que é onde a vontade arde e as decisões se bolsam sem o enfadonho trabalho do cérebro… a mastigar prós e contras… a pesar vantagens e desvantagens… a somar e subtrair lucros e prejuízos… a calcular medos e verdades… motivos e causas… efeitos e consequências… a empenhar o lado genuíno das coisas em nome de uma fórmula mais exacta, que equacione sem erro o compto geral das perdas e ganhos.

A sinceridade não se decide: sente-se. Não se busca nem aguarda: simplesmente acontece. Acontece-nos.
Pró diabo, contigo!… Chega de insistir em continuar a  enganar-me: descobri que afinal não tens alma para dar conta do que, raras vezes, escolhe de entre todas as vidas apenas algumas vidas para chegar assim: com a indefectível marca das ventanias e tempestades. És só mais um flop, só mais um dos muitos bluffs que por aqui andam à solta. És uma artimanha que perdura, um engodo mal lançado, uma mentira frágil e mal contada que só por acaso ainda se aguenta de pé. Até ao dia!… Até ao dia que (palpita-me!), no teu caso, está bem mais próximo do que imaginas ou poderias ser levada a supor.
Afinal não tens alma para dar conta de avalanches e tsunamis!… E acontece que eu não posso fazer nada para contrariar a minha natureza. Berra demasiado alto, bem vês: sou e sempre serei clandestina. De alma, sangue e coração. Com todo o orgulho também: clandestina – eu. Mas sejamos sinceras: não é, nem nunca poderia ser, para o teu bico leviano, cobarde, apesar de tudo tão poucachinho e no fim das contas tão agrilhoado. E não é só por cansaço que te deixo ir, ou desisto de ti. Sei de mim que sou uma menina resistente e lutadora. Se quisesse, poderia ainda combater durante mais algum tempo, sem sofrido esforço de maior. É tão só porque não és mais, não tens mais e não se pode pedir a ninguém que seja aquilo que não é, que dê o que não tem para dar. Ou talvez se possa, mas eu não peço. Porque não me agrada. Porque no nada que és e tens de teu já não vejo nada que ainda me possa interessar o suficiente para me dispor ao generoso e altruísta gesto de ser capaz de pedir. Porque pedir é um acto que exige extremos de quem pede. Porque pedir nos coloca inteiramente nus e desprotegidos, à mercê das mãos de onde há-de vir a resposta ao pedido atendido. Para se ser capaz de pedir é preciso que se queira muito, que se tenha muito a certeza do valor que tem para nós aquilo que se pede. Não é o caso. Já não é o caso. Olho e tento sentir, ás vezes até pressentir, mas já nada em ti me intriga e preenche o suficiente para me fascinar, para eu querer e desejar, para me mover, eu creio. Se reparar bem, ainda descortino, de vez em quando, um certo isto ou aquilo de memória, de recordação. Mas isso é saudade, não é vontade. É nostalgia, talvez, mas não é necessidade. E, em última instância, bem vistas as coisas, isso eu já tenho: não preciso de pedir. Nem sequer a ti. Não preciso de ti para voltar ao passado. Posso regressar-lhe sozinha, se e sempre que me apetecer alimentar-me dele. Não preciso de ti para satisfazer essa fome. Acontece, Querida, que eu tenho esta coisa de só ser verdadeiramente faminta de presentes e futuros, mais próximos ou mais longínquos, não importa. Como na canção, como na tal «jura secreta» que, apesar de tudo, dizes que continuas a associar irremediavelmente a mim, mesmo apesar da ausência, do tempo e da distância… Não, não preciso de ti para possuir o passado. É já meu. Ninguém me o tira. Ainda que queira. Ainda que tente. Aí, só eu detenho o controlo. Só eu posso, inclusivamente decidir se o conservo ou tento esquecer. Não está nas mãos de mais ninguém, não depende de nada nem de ninguém. Só de mim. Aí, sou absolutamente soberana. Far-me-ias sentido se me faltasses para hoje e para a frente, se pudesses dar-me o que não sei, o que não vi, o que não tive ainda por não conhecer. Acontece que eu sei que tu não és o lugar de nada dessas coisas, as únicas que me são essenciais e me possuem o dom de me mover. Porque te olho e sinto e não encontro nenhuma delas em ti. Podia pedir-tas mesmo assim, eu creio. Dizem que faz parte do amor esta coisa de tudo lhe ser consentido, até a desmesura e a injustiça. Mas não peço. Porque não gosto de perder, porque não gosto de fracassos, porque não me apaixona nada que já esteja recusado à partida, mas acima de tudo porque não gosto da excessiva ocorrência das formas negativas, nem me entusiasma por aí além a obsessiva permanência do prefixo “não” colado a todo e qualquer verbo implicado à acção: «não há», «não posso», «não tenho», «não vou», «não faço», «não quero», «não sou», «não percebo», «não sei».

Tal como tu, também tenho obstinações. Quase todas, aliás, profundamente convictas. Como esta de clandestinamente ser e estar. Porque é da minha natureza e – como podemos ambas já considerar sobejamente provado – nem a coisa mais forte do mundo, como um grande amor, por exemplo, tem poder suficiente para contrariar a natureza de cada um. A minha, não tem. Não teve.

Portanto, ciao bambina! Tiveste a tua chance e hoje, por mais que faças já não consegues impedir o inevitável: convencer-me do contrário do que tenho visto, recebido e experimentado de ti e contigo, até aqui.

p.s – podes voltar aos casinos: palpita-me que, a partir daqui, a sorte ao jogo pode voltar a sorrir-te de vez em quando.

play_344.gif  Manu Chao – “Clandestino”  nota_animada5.gif

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