Script #16| Desvarios multiplos derivados do calor, do amor ou da morte dele

Agosto 9, 2006

Minha gente, está um calor enlouquecedor aqui na minha cobertura!… Pelo amor de Deus!! Alguma sugestão para sobreviver a essa esturra numa cidade como Lisboa?! Estou aqui a resistir estoicamente à necessidade imperiosa de férias, em nome de valores mais altos que se levantam no horizonte e para os quais preciso de guardar, nem tanto dinheiro (curiosamente, e que o Diabo seja, cego, surdo e mudo… nock, nock, nock: deixa bater três vezes na madeira!… esse nem é o problema, actualmente), mas dias!… Dias de férias: esse bem supremo que, na sociedade contemporânea em que vivemos – nós, os portugueses, os europeus e mais uma percentagem aterradoramente maioritária de humanos, que fazemos parte do chamado “mundo civilizado” – se tornou um bem ainda mais precioso do que o próprio dinheiro. Muito mais caro e luxuoso, aliás! Aqui no louco mundo do trabalhador global e globalizado, começamos a perceber que com “dias de férias” podemos ter acesso áquilo que muitas vezes nem o dinheiro pode comprar: a liberdade, liberdade dos dias, dias livres, dias de liberdade. Chamamos-lhe´”férias”, mas em bom rigor e à raiz, aquilo que está em causa e o que pretendemos significar é tão simples quanto isto: tempo em liberdade. Ou liberdade no tempo. Em alguns casos, liberdade com tempo. Em outros, liberdade a tempo. A tempo útil, entenda-se. Enquanto ainda há tempo, antes de já não se aguentar mais. A prisão. A ausência. A falta ou supressão dela, entenda-se. Da liberdade.

(…)

Pausa. Interrupção urgente. Interregno de força maior. Torneiras. Água. Fresca. Refrescar. Banho. Água. Mais água. Mais fresca. Mais Banho. Torneiras. Outra vez. De novo. Voltar. Fim de pausa.

(…)

Perdi-me. Não é grave. É real. Hoje em dia. Actualmente. Ultimamente. É assim: perco-me muitas vezes. Esqueço-me das coisas, das ideias, da meada das ideias e da finalidade das coisas. É normal. Creio que é normal. Deve ser normal. Deve ser da circunstância, grave ou talvez não, de estar a viver um momento extremo. Não sei se do ponto de vista existencial, ontologica e metafisicamente falando, se só do ponto de vista cardíaco, afectivamente concretizando e friamente analisando. Do coração, quero eu dizer. Dos amores, se é que me faço entender. Mas não de todos os amores, convém acrescentar, convém sempre precisar. Não de um amor qualquer. De um grande amor, é sempre bom situar. O maior de todos. O maior amor de todos. O grande amor maior da nossa vida, vamos lá a ter rigor, que a exactidão é sempre uma propriedade útil dentro e fora das ciências, aquém e além dos muitos e variados laboratórios onde se ensaiam as químicas. Como a cama. Como a pele. Como a saudade. Sim, talvez isso explique, talvez atendendo à circunstância seja normal. Que seja assim: que me perca muitas vezes. Que me esqueça das coisas, das ideias, da meada das ideias e da finalidade das coisas. Hoje em dia. Actualmente. Ultimamente. Talvez não seja grave. Talvez seja só real. Como esta coisa de estar outra vez a braços com o fim do grande amor maior da minha vida, esse que me faleceu há mais de três anos, mas que entretanto se esqueceu de morrer. É forte, temos que reconhecer. Mesmo sendo já tão fraco. Mas uma experiência avassaladora e extrema, talvez tenhamos que reconhecer.  E real, mesmo não sendo grave. Ainda assim, o suficiente para que me perca muitas vezes. Ultimamente. Como agora. Como acabou de me acontecer aqui.

(…)

É sempre um alívio retomar os nexos! Como quando ficamos com uma palavra debaixo da língua ou uma lembrança entalada no cérebro, e nenhuma delas quer sair. É sempre um alívio quando nos vem e se solta. Mesmo que já não adiante nada, que não sirva para nada, que já não venha a propósito e não tenha mais nada a ver com nada. Um alívio, ainda assim! Como eu agora, como eu aqui, a lembrar-me do que me esqueci quando me perdi. Ia dizer que faz um calor insuportável dentro desta cobertura, que estou no limite do esforço estoico para adiar as férias e a fuga da cidade, movida apenas pelo nobre objectivo de guardar dias de férias para mais tarde, para quando for a hora, para quando chegar o momento: o certo, o verdadeiro, o importante. Aquele que eu não posso perder, nem deixar escapar por ser determinante ao curso de tudo o que sobreviverá a partir daqui. Confuso?! Nem tanto! Abstraiam daquilo que só eu sei e nenhum de vocês que me lê tem conhecimento. Concentrem-se no essencial, no que está ao vosso alcance. E o essencial é: o que pode cada um de vocês fazer por mim para me salvar do calor insano que faz dentro desta cobertura? O que pode cada um de vocês fazer para me salvar? Digam. Façam. Tentem. Salvem. Aceitam-se sugestões!

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