Script #14 | Acerca das coisas que se sabem cá dentro, no fundo, no fundo…

Agosto 9, 2006

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Acabou de me atravessar a ideia de que talvez a vida tivesse que acabar connosco para eu cumprir esta coisa de viver os encontros literários que me escolheu para ter, por aqui, por acoli, por acolá. É verdade, sim, tenho que reconhecer: se continuasses aqui não haveria espaço para mais nada. Como nunca houve enquanto aqui permaneceste. Sempre me ocupaste demasiado espaço. Todo o espaço, é verdade. Continuaria a ser assim se continuasses aqui. Porque não concebo sequer a ideia que pudesse ser de outro modo. Apesar de tudo. Mesmo apesar de tudo. E a vida sabe disso. Se calhar por isso é que nos foi drástica e resolveu que era melhor acabar connosco. Porque tenho outras coisas para viver. Além de ti. Tu não crês que assim seja, mas a vida sabe e, há minha maneira, no fundo, no fundo, eu também. E acontece já esperou demais, a vida. Esperou para me fazer a vontade, eu creio: para aumentar o teu tempo aqui, comigo. Não pode esperar mais. Já foi para lá da conta. Ela sabia que o meu destino é outro e nem tu, nem eu a conseguimos convencer do contrário. Conseguimos tão só convencê-la a esperar, a ver se a nossa razão era maior que a sua e se isso lhe valia alterar a marcha que já vinha escrita na minha sina. Para não ser a tua sina. Para não se tornar também na nossa sina. Mas não fomos suficientemente credíveis aos olhos da vida para merecer que fizesse agulha. Como te disse, convencê-mo-la a esperar, até a adiar, mas não a mudar. E, no entretanto destes pensamentos, dou comigo sem nenhum medo, sem nenhum pavor, já sem nenhum pânico de seguir sem ti, de seguir a saber que nunca mais te voltarei, mesmo que o queira, que nunca, por mais que também queiras, me poderás voltar, e que nunca mais nada poderá voltar ao que era, voltar a ser como antes, voltar a ser o que foi e o que ambas nos acostumámos a acreditar que sabíamos que sempre seria.  Ao longo do caminho, a vida pode-me ter sido madrasta, por vezes quase desesperante de tão incansável, essa madrasta. Sei que ninguém garante sequer que vá deixar de o ser, que não volte a sê-lo daqui em diante. Mas, em consciência e se quiser ser absolutamente franca, não posso deixar de dizer que nunca me falhou por completo e, como tal, não consigo deixar de lhe ser grata pela enorme quantidade de instantes mágicos que me tem concedido fruir e experienciar viver, até aqui. Tão mágicos, intensos, fascinantes, improváveis e, sobretudo, inimagináveis que acho que morrerei sem me sequer me atrever a falar deles a alguém. Não é, pois, de supor me venha buscar agora para não me conceder privilégio igual. 

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