Script #13 | Tributo a ti, Senhora: Grande Loba Maior. Ainda.

Agosto 8, 2006

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Foto: Thelma & Louise

play_343.gif  “Love Is All”  nota_animada4.gif

Desconheço o autor. Imagino que nunca tenha sido importante saber quem cantava. A vertigem da canção, o efeito poderoso do tropel da música a galgar por cima do Atlântico, naquela madrugada, a tua voz no comando, a pedir sensações e eu a guiar desenfreada, em direcção às entranhas de tudo, até do passado, até da memória dos esquecimentos mais teimosos, uma vontade desmbestada de acelerar e acelerar e acelerar, e a tua voz de loba a pedir-me mais abismos, mais vôos, mais penhascos, mais rectas e falésias. «Diz!», «Diz!», «Conta!», «Quero saber!», «E agora?», «Fala!», «Diz!», «Como é?», «Como é?». E eu a ter só esta impressão de velocidade para te narrar, esta fome de correria desenfreada, este galope de coiote para te devolver, e tu a cruzares o oceâno comigo, cega do mesmo ímpeto, montada num lombo de condor, cavalgando a golpes sobre a asa de um vento igual, e a garganta da estrada infinda a fugir debaixo do nosso próprio movimento, a disparar-se adiante, faminta do fosso, voraz até dos vácuos e vazios rasgados na frente do chão.Tu: predadora saída de um tempo ancestral, oculto lá, algures, onde quer que a mata e a selva devoram a terra para a proteger da erosão malvada do tempo. Tu: ânsia gémea da minha, a comandares-me a vertigem, mão firme, voz rouca e doce, a pedir-me sensações: «Diz!», «Diz!», «Conta!», «Quero saber!», «E agora?», «Fala!», «E agora?», «Diz!», «Como é?», «Como é?», «Diz!». E eu. E tu. E a música – o tropel desenfreado da música – dentro das minhas coxas, a incendiar-me as têmporas, a roer-me o canto esquerdo do peito, e esta vontade de correr e correr, galopar, voar, e acelerar, acelerar, e acelerar… Até já nem ser humana. Até acreditar que desta vez a morte me espreitou mais atenta. Até as linhas que perfilam os contornos risíveis das coisas se confundirem numa amálgama espessa de muitos volumes misturados, onde já nada é só coisa nenhuma, e onde tudo é ainda mais do que parece. Até ficar desamparada diante da evidência inelutável: tu, forte, poderosa, extrema, excessiva, funda, a arrancá-la a ela, pela primeira vez, do volante de onde nunca, até então, alguém havia conseguido desafiá-la.*

* Saudades, Senhora. Onde quer que estejas agora. Imensa e eterna esta saudade que hoje me sobreveio de ti. Porque, como cantaria a Mariza, “há gente que fica na vida da gente” de sublimes formas superiores.

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