Script #10 | Acerca da estranha premonição de se ter os dias contados

Agosto 5, 2006

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Fotos: Alejandro Ernesto

Eu e tu tinhamos esta coisa, que nem sei bem se era um plano, se um sonho, se uma jura, de voltar a Cuba antes de Fidel morrer e um certo idílio de tempo congelado se acabar.

E, inevitavelmente regresso a uma destas noites, ainda há poucas semanas atrás, quando nos aconteceu voltares ao tema e eu menos esperava que ainda te ocorresse resgatar projectos e regressar a juras antigas. E, então, penso nesse teu inesperado ímpeto, nesse impulso da intuição que te saiu da boca junto com a sugestão. E compreendo que não pode, em verdade, a mão da vida ser leve e suave áqueles que lhe desdenham os sinais. Não pode o dedo da sorte sorrir em demasia áqueles que seguem queimando os dias como se não pudessem escutar o que o coração lhes grita dentro. Não pode perdoar-lhes para sempre brandas traições repetidas. Não pode!… há mais almas, mais corações, mais amantes, a assistir à face da terra! Há demasiadas histórias de gente desavinda, de gente em pranto, de gente infeliz, com choro, lágrimas, sofrimento, noites em claro e desespero, pelo meio. Há demasiadas histórias de gente perdida, arrependida, convertida, a implorar perdão, a suplicar regressos, a pedir uma volta, a dar o que tem e o que não tem para tornar ao paraíso e a esse milagroso estado de felicidade de onde, por alguma razão, caiu ou foi arrancada. Há demasiadas histórias a clamar intervenção suprema, cuidados extremos e uma certa protecção da mão do destino que lhes guie a vontade genuína de felicidade urgente. E acontece que a mão de Deus é feita à semelhança da nossa: só tem dez dedos. Cinco dedos em cada mão. Dez dedos e duas mãos: uma para cada gomo das metades apartadas. Escassos dedos, poucas mãos, para se ocuparem à vez de um e só um amor partido!…  Naquela noite era, sim, um sopro de descernimento, um rompante de lucidez, a avisar-nos de que não é seguro esperar pelos instantes mais do que o razoável. E não devias ter deixado cair a proposta, sabes?! Não devias ter depois fingido, nem acordado no dia seguinte a fazer de conta que já te esqueceras da sugestão. Deviamos, sim, ter estado a caminho de Cuba por esses dias. Quando ainda iamos a tempo. Da Cuba de Fidel, da fuga, das férias, do idílio, do que sobrou congelado de um projecto que sempre havia sido nosso.

Agora é tarde. Fidel abdicou em nome do irmão, as ruas de Cuba andam desertas à espera da iminente invasão do mundo, as pessoas recolhem-se atrás das portadas fechadas, como se se limitassem a aguardar com o vazio a chegada irreversível de tudo quanto lhes há-de mudar o rosto para sempre. Até Deus se ocupa agora a rendilhar uma outra história que já não é a nossa. Precisa pois das duas mãos -como foi no nosso caso, enquanto foi a nossa vez – e, ao que tudo indica, já não pode estender-nos um dedo que seja.

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