Citando de cor | ‘Em Busca do Tempo Perdido’… esse clássico magistral que assiste a todos

Agosto 5, 2006

aspas_azuis24.jpg  O tempo chega sempre. Nós muitas vezes é que já não vamos a tempo.

Quando era adolescente, eu, os meus irmãos, primos e alguns amigos, resolvemos responder a um anúncio de jornal. A ideia era básica e quase pueril: aproveitar os longos meses de férias de Verão para ganhar dinheiro só nosso. Depois da entrevista da praxe, enfiaram-nos numa sala de reunião sem ar condicionado e descobrimos que nos ministravam, à pressão e à revelia, um mini-curso de formação em vendas. Depois do almoço fugiram todos, a rir à gargalhada com o logro. Só eu voltei. Resolvi experimentar. Á conta disso, acabei por descobrir que tinha talento para a coisa: a brincar, a brincar, sem nenhum esforço e muito pouco tempo investido, socorrendo-me a penas de amigos e conhecidos dos pais, ganhei uma pipa de massa e aprendi muitas coisas a meu respeito e da minha própria e involuntária capacidade de persuasão. Ao longo da vida, se parar para pensar um bocadinho, chego à conclusão que devo muitas coisas a esse “curso de formação” em tempo relâmpago. Muito mais do que poderia imaginar à partida. De certo modo, percebi que não há nada mais irresistivelmente convincente aos olhos dos outros do que a nossa própria convicção a respeito das coisas que defendemos, e que isto é tão válido para uma enciclopédia como para um amor ou uma causa política, ideológica ou humanitária.

Vem isto a propósito da frase a cima citada, e que o manager da força de vendas costumava papaguear até ao limite do insuportável. Nunca soube se acreditava verdadeiramente no que dizia, ou sequer se entendia o tamanho das palavras que lhe escorriam da boca. Todavia, desde a primeira vez que o ouvi dizer aquilo, pareceu-me claramente que estava ali um instante de grande revelação. Por alguma razão, até hoje, a frase nunca mais me saiu da cabeça. Se calhar também nunca me saiu dos actos ou do movimento. Já nem sequer me consigo recordar com precisão dos traços do rosto do homem baixinho que vestia fatos engilhados da Maconde com o mesmo orgulho de quem se apresentava dentro de um Armani, mas recordo-me com toda a nitidez e precisão de, nesse instante, lhe ter reverenciado o que logo ali me soou como um instante de absoluta solenidade, daqueles que só acontecem quando se está diante de uma imensa e preciosa verdade. Sou, pois, grata ao emprego das enciclopédias, nos primeiros meses daquelas férias de Verão e ao homemzinho baixote que vestia Maconde, não só porque ganhei uma pipa de massa e descobri talentos de que não suspeitava, mas porque pela primeira vez tive consciência que a verdade se revela das formas mais inusitadas, que vivemos num mundo mágico, povoado de seres alados que a qualquer momento se transformam e ganham novos e inimagináveis poderes, que a vida é um bizarro e insuspeito lugar onde tudo é possível, sim!… como, por exemplo, ver pérolas reluzentes de incalculável valor brotar do bico de um simples papagaio!

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