Sctript #8 | Por favor, não tragas mais. Não quero morrer assim.

Agosto 3, 2006

mensageiro.jpgOntem disse a última frase. Não enviarei mais recados, não me deterei a escrever mais mensagens. As palavras valem o que valem à escuta de cada um. Umas mordem, outras movem, outras demovem, outras nada estremecem. Acordo sem saber se é o chumbo do céu de agosto, se é o TPM, se é o velho eco deste vazio por modificar, se é o gosto falhado deste último gesto que novamente nada trouxe de arrasto, na extremidade outra do cordel lançado. Não sei se foi por ter adormecido sem querer e dormido tempo de mais. Acordo com a certeza de que nada mais há a fazer. Acordo a olhar em redor, certa de que tudo está agora por fazer, entre as coisas desmanchadas pelo chão. Vou começar devagarinho porque é demasiado o cansaço da luta arrastada por tantos dias. E vou começar com cautela também, certa das marcas e das feridas, certa de que mais nenhuma porcelana será quebrada. Bebo um copo de água. Fico quietinha e sem pressa só mais um bocadinho. Até tudo o que tem andado dormente comece a acordar aos poucos. Não, não se pede ao que tem vida para viver. E, então, algo em mim se desvia e desloca imperceptivelmente para fora da colcha moribunda. Nunca! Para sempre nunca mais. Nem sequer me agarro às coisas que não gosto. Repeti-as vezes demais. Olho o céu, ergo os braços e peço ao grande senhor que se esconde que o instante de ver o sol raiar venha breve. Limpo os olhos. Perdida. Só. Negada. Sim, ainda me comove o meu próprio abandono, mas tem pelo menos a vantagem de me fazer olhar de frente o lugar da estrada a que toda a insistência, persistência, resistência serviram afinal para me conduzir. E procuro a roupa do dia, levanto-me da cadeira e preparo-me para o dia que já chegou, com uma vontade fininha a brotar de longe, de me querer enfim afastar daqui. Céus, estou tão, tão destruída! Pergunto-me como foi possível ter-me deixado cair tão fundo. E desperta-se sem custo uma certa raiva agastada, qualquer coisa a roçar uma revolta que não iludo, nem sacudo, por instintivamente perceber que me pode ser útil, mais que não seja para me colocar em movimento, esse movimento que me anda tão difícil de recuperar. Faço o sinal da cruz. Estremeço outra vez. Dou-me conta da dimensão preversa desses tão grandes demónios que tenho consentido deixar andarem-me à solta. Quero um pai aqui, mais perto da fronha, mais aquém do peito. Quero ajuda, quero apoio, quero auxílio. Não me importo que as lágrimas ainda escorram se não me doerem mais, se pelo menos passarem a doer-me menos do que têm doído até aqui. Que alguma coisa ou alguém, vejam utilidade em fazer alguma coisa da gota pequena que hoje sou, desse pingo ralo em que me transformei à conta de tranto ser sugada e me esvair! Qualquer coisa ou alguém, nem que seja eu. E saio de casa a pedir a única protecção possível, a pedir ao grande senhor que se esconde que leve embora todas as coisas e todos os vícios que me fazem mal. Como uma maré negra a recuar na praia. Porque sofro o que já não se pede a ninguém que continue a sofrer. O que já não é humano permitir a alguém que sofra. E até a pele me dói e até a vida que ainda falta viver me deixa exausta. Quando penso que existe a mais leve possibilidade de voltar a ser como foi até aqui. Basta, grande senhor, basta! Não quero mais, não tragas mais, não deixes mais… Por favor!… Mais um grão e enlouqueço. Mais um grão e vou rebentar de tanta coisa maligna acumulada na memória e na saudade. E, apesar de tudo, não quero morrer. Não quero, sobretudo, morrer disto, morrer assim.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: