Script #7 | ‘O meu lugar ao sol’

Julho 29, 2006

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Foto: Cafi – Praia de São Conrado (RJ)

Acordo vagamente indisposta. Falam-me de TPM. Nunca soube o que isso fosse, mas pode ser. Creio que esta bola de angústia já nem mesmo se desfaz debaixo do sol. Não dramatizo: sei que estou a precisar de férias e, acima de tudo, de deixar Lisboa, capital de todos os sufocos. Assim como assim, seguimos o rumo da praia. Lá, pelo menos tudo é mais fresco, tudo é mais solto. O vento de hoje ergueu vagas cavadas de espuma. O mar está bravo e forte. Puxa como se quisesse sugar-me a carne, também ele. Evito o mar. Não vou mais ao mar. Para não lhe dar esse prazer. Faz muito calor e a vontade pede, mas hoje, estranhamente, eu fico mais feliz assim: sentada na areia, em alegre algarviada, a tagarelar com o grupo inteiro entre o corropio do “vai e vem”, do “acima e abaixo” dos outros em direcção à água, a constatar sem esforço que consigo resistir ao que me suga sem ser grande o sacrifício. Muito de vez em quando ainda penso numa certa omissão pelo silêncio, mas apesar de não se desfazer a angústia apertada na boca do estômago, não me pesa por aí além. Já não me pesam os disparates encenados dos outros, daqueles: dos que ainda “não se deixaram de merdas“. Sei que estou a salvo aqui. Sei a cada vez que dou comigo a deitar um olhar inquieto para o relógio. Para não deixar passar o tempo em vão. Pelo prazer de ver aproximar-se a hora: de ser quase jantar, quase hora, quase ela, quase lá. E por todo o mau presságio que há 48 horas me assalta em relação a um passado prestes a sucumbir, sei que nenhuma morte nos toca antes que de nós se aproxime uma nova promessa de vida. E para mim a vida, agora, é ela. Já não és tu. Sejam quais forem as tuas promessas. Que o vento de ontem as leve embaladas nas ondas gigantescas que tomam as areias da praia de assalto e açoite!… Porque cá dentro (nesse dentro bem dentro que diz que a gente tem) sei que já nenhuma delas me fará recuar. Foi, sim: “tempo a mais“, eu estava certa. Sei-o agora, quando me dou conta que já nem sequer eu própria posso fazer nada para impedir a crua evidência dos efeitos consequentes.

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