Lee Miller: de musa a fotógrafa de guerra

Julho 16, 2006

leemiller_deckchair.jpg

Sexta-feira passada, assisti na RTP2 ao documentário “Lee Miller: The Mirror Crossing”, realizado por Sylvain Roumette, para a Terra Luna Films, sobre a vida e a obra da fotógrafa e modelo americana, que serviu de musa a Man Ray, e morreu em 1977. Um trabalho urdido entre a narração feita pelo seu único filho com o pintor Roland Penrose, que após a sua morte descobre no sotão baús de películas e fotografias e, de certa forma, se reconcilia com a figura da mãe através da investigação que daria origem à biografia que dela viria, mais tarde, a escrever. É bela a tecitura que resulta do enlace do relato, das leituras de fragmentos do seu diário, das fotos sobre ela e por ela tiradas. Uma existência desconcertante pelo insólito e ousadia, numa trajectória que vai do começo de carreira, como modelo nú, obsessiva e perturbadoramente fotografado, primeiro pelo próprio pai, depois pelo célebre Man Ray, a objecto estético de Jean Cocteau e Picasso, até aos tempos de auge e furor como modelo de capa das revistas Vogue e Blitz da época, posteriormente, aprendendo ela própria a arte da câmera mágica, tornando-se fotógrafa de moda com estúdio próprio e, mais tarde, correspondente da II Guerra Mundial, longe de brilhos e lantejoulas, coberta de pó, vestida de alpaca militar e usando bivaque, os adereços reduzidos a essa combinação binária de uma Rolleyflex e uma máquina de escrever Hermes, onde compunha os trabalhos que enviava sobre as cidades bombardeadas, trincheiras e campos de concentração por onde andava, misturada com as tropas, exposta aos mesmos perigos, horrores e privações –  ela, musa de alguns dos mais geniais pintores, escritores e artistas que lhe foram contemporâneos; ela, que algures nos anos 30 reinou na cidade do Cairo como verdadeira Cleópatra, ao lado de um milionário egípcio, um dos muitos amores com que a vida quis que se cruzasse.

Ando desde então fascinada com a personagem desta mulher aventureira, que nasceu muitas décadas à frente do seu próprio tempo, que prezava a liberdade acima de todas as coisas, que nunca se deixou dominar nem mesmo pelos que amava e dizia, com todo o orgulho, nunca ter perdido um só minuto da vida.

Cf. Lee Miller: vida e obra

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: