Script #3 | Pena agravada durante os meses de Verão. Só por ser para ti.

Julho 15, 2006

louise-dahl_wolfe_twins_at_the_beach_b.jpg
Foto: Louise Dahl-Wolfe – “twins at the beach

Devias ser afogada em maré baixa, emparedada de língua de fora num penhasco em agulha, esfarelada até ao osso para dentro de um buraco cavado entre a areia e a maré. Por teres estragado tudo. Por teres deitado a perder todos os planos esquiçados ao pé do mar. E por teres empenhado a casa cheia de cachorros pretos, a rede onde havias de baloiçar enquanto eu escrevia à sombra fresca das buganvílias no caramachão. E por teres tornado impossível esse infindo prazer de cumprir fugas em quilómetros de estrada, ao começo da madrugada. Por teres entornado pelo ralo todos os sucos que haveríamos de beber ao pequeno-almoço, e deixado apodrecer as compras que havíamos de fazer no mercado, para as refeições que nunca teríamos paciência de preparar, depois da praia e da sede de água doce adiada mais umas horas por causa do sal dos corpos e dos desvios que ele traz à pele e às coisas urgentes. Devias, sim! Devias ser deitadada às feras, entregue ao caruncho das madeiras ressequidas e à gula dos caranguejos que enchem a boca de todos os que vêm naufragar junto à praia. Que era para pagares antes de mim o preço de todos os sonhos abandonados. Que era para eu não viver depois de ti, nesta angústia de não saber se foi porque desististe, se foi porque te enganaste ou te arrependeste, ou se foi simplesmente por seres afinal demasiado fraca, se foi só porque um dia acordaste e te cansaste de mentir e enganar, e resolveste, num rompante, que era melhor mostrar-me de vez que o teu querer nunca foi, na realidade, gémeo sobrehumano do meu, como por tanto tempo acreditei. Teria sido tão mais fácil se me tivesses dito que era só o meu corpo, que era só eu que te viciava, que era só por seres assim, como ainda hoje, irremediavelmente viciada em mim. Ter-me-ias poupado ao desgaste intenso de sonhar concretos reais e não precisarias agora de castigo, nem de te esfarelar, nem emparedar, nem afogar, nem nenhuma de todas essas coisas cruéis que, a seu tempo, a vida guarda para ti em meu nome.

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