# 8 | De como até as preocupações acabam por ser relevadas

Julho 7, 2006

Tomada de uma preguiça megalómana, eu. Depois da praia, deixei Pequena Cria na Casa Grande de Família. Combinei que vinha só tomar um banho, trocar de roupa e depois ligaria. Acontece que estou a enrolar desde que cheguei: aquele dolce fare niente de quem está de fim-de-semana, ainda que dessa vez seja de todo impossível fugir da capital pelo amontoado de compromissos sociais que se aglomeraram para este sábado e domingo. Deveria retornar a ligação de Mr.Magoo ( se chama assim mas a cegueira é do coração, viu?! Um verdadeiro pinga-amor, o meu melhor amigo). Deveria ligar ou, pelo menos enviar um SMS a Red Bull, também. Confesso que começo a não conseguir passar por cima de uma certa preocupação pelo silêncio. Será que aconteceu alguma coisa? Ou terá sido a saúde dos pais que se complicou? De qualquer modo, creio que me faria saber imediatamente!… Tenho retardado uma atitude pois não confio nem um pouco nas artimanhas e estratégias veladas de Red Bull. Acho que já lhe dei a segurança de saber que pode contar com o meu apoio, mas a questão é que não estou disposta a areedar um milímetro da minha decisão de separar bem as águas: não quero mais voltar. Essa é a dolorosa verdade. E, então, tenho adiado um telefonema porque não quero que alimente falsas esperanças. Conheço bem Red Bull e o seu desastroso excesso de confiança: ficará em total euforia, achando que é mais uma prova a favor da sua teoria de que há uma predestinação que faz com que seja irrelevante não nos vermos: morremos lado a lado e nunca amaremos mais ninguém!… Ou pelo menos, de forma que possa sequer comparar-se áquela com que nos amamos, Red Bull acredita.

Mas ok: estou preocupada. Muito. Dei um tempo, mesmo tendo a certeza absoluta que a preocupação não era uma forma inconsciente de arranjar um pretexto para lhe ligar. A preocupação é real, sim. E, para dizer a verdade, é mesmo só ela que me fará ligar-lhe!… porque para ser inteiramente franca está a ser um alívio ter conseguido emprrar suave e airosamente Red Bull para fora da vida e dos dias. Tudo melhorou e voltou a sorrir, como que por milagre. Sei que esta evidência nem ao de leve rondará o cérebro de Red Bull, que como sempre nunca se toca! Como se diz no Brasil, o grande problema na vida de Red Bull comigo, nos últimos três anos é que «Red Bull “SE ACHA”»!!… Mas, enfim, eis um problema que não me cabe resolver. 

Hoje Pequena Cria voltou ao assunto que já havia abordado frontalmente há dois dias atrás. «Mamãe», ela falou, «Acho muito, muito estranho não dar sinal de vida. Red Bull jamais se esqueceria de enviar um SMS neste dia. Porque adora esse número e porque dá muita importância para aniversário. Acha que é um dia em que se tem a oportunidade de mostrar que se pensa realmente nas pessoas. Eu sei que nem no fim do mundo deixaria de dizer qualquer coisa. Nem que fosse só para chatear e se fazer presente. Acho muito estranho não ter dito nada… Será que aconteceu alguma coisa errada? Será que houve algum problema com o pai? Talvez devesses ligar a perguntar se está tudo bem… Eu odeio Re Bull, é verdade!… E odeio ainda mais me preocupar com pessoas que não merecem que gaste um segundo a pensar nelas, mas… dada a situação…! Não achas melhor ligar-lhe e saber se está tudo bem?!… É porque eu conheço, e tenho a ceteza que só se tivesse acontecido alguma coisa muito grave é que deixaria passar o dia. Red Bull sempre daria um jeito!guma coisa e é por isso que não diz nada, para não te preocupar e te trazer problemas logo num dia destes?!… Não digas que eu disse isto, mas acho que lhe devias ligar, sim. Só para ter a certeza que está tudo bem ou se aconteceu alguma coisa», Pequena Cria falou.

E eu confesso até um certo remorso por não ter ligado. Mas é que não queria ser mal interpretada!… Justamente por ser o dia que era, tive receio que achasse que ligava a cobrar uma atenção que não deu, um gesto de lembrança, uma palavra qualquer. E não seria de todo por isso que ligaria. Juro! Aliás, a verdade é que há muito que essa atenção me era incomoda porque despropositada: não correspondia à relação passamos a ter. Red Bull não sabe, nem partillha mais nada da nossa vida. Nem aniversários! O papel de me fazer sentir especial por ter sido mãe cabe agora a quem está comigo de verdade, não a Red Bull!!… E pronto, não liguei. Ontem voltei a não ligar. Pensei, mas resisti de novo. Era o dia seguinte e tive receio que o mesmo se aplicasse 24 horas depois: achar que estava ligando para cobrar a primeira vez na vida em que deixou passar o dia 5 em branco, como se não existisse. Hoje, quase meia-noite, não se atenuou muito o meu receio. Pensei em ligar, vim para casa tomar banho, depois de deixar Pequena Cria na Casa Grande de Família, com essa intenção. Deixei até na evasiva se passava mais tarde para trazê-la para dormir aqui em casa ou não. Justamente colocando a remota possibilidade de se revelar necessário ir ao encontro de Red Bull, no caso de sucedido algo… Mas a verdade é que, desde que entrei a porta e até agora, não fiz a menor menção de concretizar a intenção.

Ah!… quer saber?? Vai ver Red Bull não desmarcou as férias que disse que havia reservado para nós! Vai ver está em algum lugar, talvez mesmo fora do país, em algum destino de “vacances” com um grupinho de amigas, e não tá nem aí ou  não pode ligar justamente por estar sem cobertura de roaming no celular!… Vou ligar para quê?! Afinal é 6ª feira a noite… Red Bull lá vai ficar sem programa?! Nem com o pai no recobro da cirurgia, deixou de ter animo e alento para ir festejar o aniversário de uma amiga com a qual nem tem grande intimidade, quanto mais!?… Vou ligar para quê?! Para sentir aquele tom de conversa atrapalhado, aquelas frases atabalhoadas e despropositadas, a querer justificar a impossibilidade de me ver, estar comigo ou sequer conversar comigo como uma pessoa normal, logo à cabeça, a justificar-se sem eu sequer fazer perguntas, inventando logo um trabalho estranhíssimo, a horas igualmente estranhíssimas, e (importantíssimo detalhe!) longe, sempre e «infelizmente!» longe de Lisboa???…. Ah, sinto muito!… Estou preocupada sim, mas não estou com a menor pachorra nem espírito para ainda me sujeitar a passar por uma situação dessas, só porque liguei a mostrar a minha preocupação! E é por essas e por outras que cada vez mais me convenço e sei que não deliro quando concluo que algo passou a ir irremediavelmente muito mal “no reino da Dinamarca”!!… Red Bull aprontou tantas e tão poucas que, hoje em dia, não estou para lhe aturarnem mais uma desconsideração, por nenhuma razão do mundo. Nem mesmo esta de poder estar a acontecer algo com o pai. Aliás, bem vistas as coisas, se tivesse acontecido, já me teria ligado a avisar. E se não o fez, então já o deveria ter feito porque creio que já lhe demonstrei que estou aqui e pode contar comigo, independentemente de me ter cansado de ter Red Bull na minha vida e não estar a fim de voltar a passar pelas mesmas coisas desnecessárias e inúteis.

Sinto muito! Pelos vistos a minha percepção de uma vida continua a valer: não acredito em “reprises“! Lamentavelmente, Red Bull (assume, caramba!), nem sequer você conseguiu provar-me que estava errada!! Não se trata de querer ter sempre razão ou não. Trata-se de que não foste capaz de me convencer do contrário, só isso. E assim sendo, mantenho-me fiel às minhas convicções intuídas:  segunda dose de Red Bull?? Agradeço, mas não muito obrigada! Faça bom proveito para quem quiser tomar em meu lugar.

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