Archive for Julho, 2006

‘Tudo à minha volta é triste’

Julho 31, 2006

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Foto: Adri Berger

Há muitas formas de pedir socorro, muitas formas de nos afogarmos. Há, sim, eu creio, muitas formas de ninguém ver, de ninguém dar por isso. Muitas formas de ninguém fazer absolutamente nada. Sofro. Muito. Demasiado, aliás. Agora. Eu. Em sofrimento. Tanto que acho que não vou aguentar. E é só por isso que nunca chego a morrer: porque a dor do insuportável obriga sempre a que algo tenha que mudar. Acontece que saber tudo isso não altera a verdade: sofro fundo. como nunca, como jamais até aqui. Sofro. E, sim: isto é um pedido de socorro.

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Todas as meninas são felizes antes de cairem do Paraíso

Julho 31, 2006

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Foto: Brigitte Bardot em St. Tropez

Sugestões | Sara Tavares em noites de Estoril

Julho 31, 2006

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Sara Tavares canta no Du Art Lounge, no Casino Estoril, esta quinta-feira, às 23h 30. Um disco eclético, que resulta de cinco anos de pesquisa e meditação. Um trabalho que me intriga, confesso.

Sem comentários. Por favor!…

Julho 31, 2006


Foto: Pinheiro – “Lisboa à noite

Entrar no carro e conduzir um pouco. Sem estar à espera. Sem ter pensado no assunto. Sem imaginar que fosse ser assim, que fosse estar a rodar de carro por aí. Guiar pela noite, só por um bocadinho. Parar num alto. Ficar mais ao alto. Abrir a janela do carro. Respirar a noite morna. Escutar os grilos a cantar nas árvores. Sentir a aragem quase indelével. Agradecer a Agosto por tantas ausências. Por todas as ausências que deixam Lisboa assim, quase mansa, quase serena, quase perfeita. Lisboa quase descansada. Os grilos a cantar ao luar, o murmurar das águas na fonte do jardim, o latido dos cães nos pátios e quintais que sobraram, um certo cheiro de maré e rio e o porto cheio de navios e embarcações, o porto lá ao fundo, lá em baixo, iluminado, cheio, as horas a bater em eco, vindas do torreão da Igreja Madre, coordenadas precisas na exactidão da cidade deserta e por isso serena, descansada, quase perfeita. Como os grilos, como o marulhar da água da fonte (sim, a do jardim!) e como a aragem morna no bico deste vento que hoje é só um magro sopro. E os grilos sobre o silêncio das pessoas ausentes (Graças, a Deus e a Agosto!). Sim, os grilos, outra vez os grilos: som de Verão que é impressão indubitável que o estio chegou. Os grilos, a água da fonte, a noite mansa, branda, morna, quase doce, quase pacificada. E eu parada no carro, cabeça deitada no fino lombo do vidro descido da janela aberta: a olhar a lua minguada a começar o crescente, a dar conta de como anda movimentado o porto (ultimamente!), a olhá-lo cá do alto como se todos aqueles barcos iluminados fizessem brilhar com eles a própria noite e o meu coração salgado, e tudo isso me fizesse mais companhia que as luzes acesas dentro das casas quietas, em redor. E, nesse entretanto, ser quase miserável, mas ser feliz: posso ainda chorar, mas já não acredito.

play_348.gif Gary Moore – “Nothing’s The Samenota_animada3.gif

Vivo há muito tempo na ‘Terra do Nunca’. Sabe onde fica?

Julho 30, 2006

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Foto: Meisel – “Neverland

Há dias em que acordamos e descobrimos que já não aguentamos nem mais um segundo continuar a acreditar em paraísos adiados!

play_347.gif Jota Quest – “Solvideoclip4.gif
play_347.gif Jota Quest – “Dias Melhoresnota_animada2.gif

Script #7 | ‘O meu lugar ao sol’

Julho 29, 2006

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Foto: Cafi – Praia de São Conrado (RJ)

Acordo vagamente indisposta. Falam-me de TPM. Nunca soube o que isso fosse, mas pode ser. Creio que esta bola de angústia já nem mesmo se desfaz debaixo do sol. Não dramatizo: sei que estou a precisar de férias e, acima de tudo, de deixar Lisboa, capital de todos os sufocos. Assim como assim, seguimos o rumo da praia. Lá, pelo menos tudo é mais fresco, tudo é mais solto. O vento de hoje ergueu vagas cavadas de espuma. O mar está bravo e forte. Puxa como se quisesse sugar-me a carne, também ele. Evito o mar. Não vou mais ao mar. Para não lhe dar esse prazer. Faz muito calor e a vontade pede, mas hoje, estranhamente, eu fico mais feliz assim: sentada na areia, em alegre algarviada, a tagarelar com o grupo inteiro entre o corropio do “vai e vem”, do “acima e abaixo” dos outros em direcção à água, a constatar sem esforço que consigo resistir ao que me suga sem ser grande o sacrifício. Muito de vez em quando ainda penso numa certa omissão pelo silêncio, mas apesar de não se desfazer a angústia apertada na boca do estômago, não me pesa por aí além. Já não me pesam os disparates encenados dos outros, daqueles: dos que ainda “não se deixaram de merdas“. Sei que estou a salvo aqui. Sei a cada vez que dou comigo a deitar um olhar inquieto para o relógio. Para não deixar passar o tempo em vão. Pelo prazer de ver aproximar-se a hora: de ser quase jantar, quase hora, quase ela, quase lá. E por todo o mau presságio que há 48 horas me assalta em relação a um passado prestes a sucumbir, sei que nenhuma morte nos toca antes que de nós se aproxime uma nova promessa de vida. E para mim a vida, agora, é ela. Já não és tu. Sejam quais forem as tuas promessas. Que o vento de ontem as leve embaladas nas ondas gigantescas que tomam as areias da praia de assalto e açoite!… Porque cá dentro (nesse dentro bem dentro que diz que a gente tem) sei que já nenhuma delas me fará recuar. Foi, sim: “tempo a mais“, eu estava certa. Sei-o agora, quando me dou conta que já nem sequer eu própria posso fazer nada para impedir a crua evidência dos efeitos consequentes.

Chatterbox | you’ve got a message!

Julho 29, 2006


Foto: Orlando Brito

Secção | SMS

«Atravessamos as duas um só e mesmo deserto. Todavia, enquanto ela remexe a areia, eu dou-me ao luxo de poder andar, nem que seja à deriva entre as dunas, a salvo de alucinações e miragens, porque sei exactamente onde fica o meu oásis: tu. Amo-te»

recebido: 12: 04 – 29/07/2006

Script #6 | Pendurada ao centro do meu estendal

Julho 29, 2006

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Foto: Mark Vans

Sim, confesso: fica-me só um fio de remorso pequeno e escuso, porque já nenhum arrependimento me mata. E, então, olho-te de frente, dentro do abraço e sei que não poderás jamais supor que também tu (até tu!), hoje em dia, estás entre os sujeitos da minha frase, aqueles que te digo que uso quando se fazem precisos, sem grandes pudores ou dilemas e pouco ou nenhum dó para com as mazelas que lhes possam assomar a pele e a alma, por minha causa. Porque cada um escolhe o lugar onde fica pendurado e o teu (até o teu!) está hoje entre as mulheres que correm para mim quando estalo os dedos e digo: seja, faça-se a mágica, neste instante! Faça-se esta noite, este serão, estes minutos, este colchão. Porque quero, peço e posso. Porque sim. Porque não quero saber. Porque logo se vê e o que importa é que nada muda ou só muda se eu quiser, se me agradar, se me for suficiente, se me agradar, se me valer. Porque a vida segue e continuo a ter sempre tudo o que já tinha. Porque nada fica em perigo, nada corre risco, nada fica ameaçado, nada que me seja preciso, nada que tenha conquistado, nada que seja meu. Desculpa não to dizer explicitamente, mas é que tenho pavor das palavras que se seguem, daquelas que ficam depois a impor-se diante do peito rasgado dos outros, e eu fiquei sem pachorra para soprar feridas que ardem. Impacienta-me demais, cansa-me demais, entedia-me demais. E acontece que, além do mais, me parece desnecessário colocar em palavras mais claras aquilo que é totalmente óbvio: se quiseres deixar de lado o capricho e a vaidade que te toldam a real percepção da configuração das coisas. Peso, simensão, prioridade, importância e lugar, incluídos. É escusado que me esforce: basta que queiras olhar de frente e com verdade e perceberás sozinha e sem muita dificuldade porque ainda te chamo e te fecho nos braços, de vez em quando. Estás, pois, na corda-bamba das mulheres que me apetecem só de vez em quando, ainda que o teu lugar seja mais ao centro: aí onde te trago pendurada. Até, quem sabe, enxugar o passado e o guardar enfim, já sem ruga, prega ou vinco, num fundo de armário – entre todas as roupagens que já não visto porque deixaram de me servir e, de qualquer modo, não me fazem mais bela do que já sou: nua.

Mesmo assombrados, os meus cabelos brilham

Julho 29, 2006

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Foto: Orlando Brito

Secção | Bilhete

«Nem o mais obscuro que te acompanha me atormenta ou “incomoda”. Até as tuas sombras me iluminam. Até as tuas sombras me queimam e devoram.»

encontrado: 10:49 – 29/07/2006

(…)

E eu sorrio, sim. E respiro com mais calma. Tenho o que quero, eu sei. Só não te posso dizer exactamente o quê, a ti. Porque talvez te magoasse e eu não suporto a ideia de te atormentar inutilmente. Mesmo sabendo que, por me amares tanto assim e se tivesses alguma lucidez, terias talvez (enfim) boas razões para te preocupar, fazer alguma coisa (enfim), tomar alguma decisão (enfim). Mas sei que, de qualquer forma, nada em ti mudaria. Como sei que nada em mim mudará. Porque tenho o quero e o que tenho me agrada mais e mais a cada dia que passa, a cada surpreendente revelação dela: firme e forte, superior e poderosa. Segura. Sem merdas, sem medos, sem dramas esquisitos ou complicações aborrecidas, básicas e inúteis. Como é que eu te vou dizer que ela me explode vida feliz?! Como é que te vou dizer que, mesmo não sabendo no que vai dar, ela me vicia em tantas e tantas coisas que, por serem já boas de mais, se me tornam cada vez mais irrecusáveis? Como é que te vou dizer que lhe resisto menos do que a ti? Como é que te vou dizer que me desassossega bem mais do que tu? Como é que te vou dizer que te deixo sair porta fora, para a madrugada, talvez ainda mais aliviada do que tu? Como é que te vou dizer que antes de sair já só me apetecia que fosse ela a estar aqui? Como é que vou dizer que me deu um jeitão precisares de te fechar no quarto com um telefonema, só para lhe poder ligar a ela e ouvir mais uma vez a sua voz antes de ficar a sós com a tua? Como é que te vou dizer que ela me disse: «Era bom que esta noite ela também saisse a meio e fosse embora a tempo de ainda nos restar noite»? Como é que eu te vou dizer que a SMS dela dizia: «Se ela quiser ir, deixa-a ir. Avisa e eu vou ter contigo a correr. Fico a rezar para que ela tenha algum caldo, alguma pancada, alguma coisa que nos abra espaço.» Como é que te vou dizer que, ainda procuravas as chaves do carro, e uma força estranha digitou em lugar dos meus dedos no teclado do celular e lhe respondi a dizer «Vem rápido! Não corras: voa. Afinal a madrugada sempre pode ser para nós.» Como é que te vou dizer que dou comigo a escrever-lhe a ela o que antes só te escrevia a ti? Como?? Como??

Script #5 | Bonecas de trapo e porcelana

Julho 27, 2006

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Sim, é verdade. Se quiser posso voltar a ser divina e maravilhosa na arte de te fazer crer que ainda sou a tua menina. Mesmo já sem ser. Mesmo já sem querer. Só para te fazer doer mais rente à saudade. Só para te castigar a ilusão por cima do arrependimento que trazes derramado sobre os teus vagos assomos de lucidez impura. 

Ok, é oficial: tecnicamente hoje é o último dia!

Julho 27, 2006

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Acordo antes dos despertadores e alarmes de telemóveis. É Quinta-feira, dia de semana ainda. É dia de redacção e trabalho, portanto. Mas é como se fosse Dia Internacional da Liberdade, um milagre com mais de 24h que há-de durar até Setembro. Graças a Deus e às conquistas da democracia e dos direitos laborais. Estou alegre! Muito. Muito alegre.

Citando de cor | ‘Adeus’ – Eugénio de Andrade

Julho 27, 2006

aspas_azuis210.jpg  Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor…,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade – “Adeus

A Loira e a Galinha

Julho 26, 2006

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Lamento, não faço a menor ideia de quem são as fotos. Mas parecem-me bem. Parecem-me mesmo muito bem.

Song | ‘(Não) Vou Fugir’

Julho 26, 2006

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O CD toca aqui em casa, desde que acordei. Sem querer, a canção vai entrando no peito, avançando perigosamente entre os neurónios… até ficar a correr pelas veias fora, ganhando a direcção do coração. Sem querer. Sem querer!… E, então, ainda penso. Ainda pressinto o mesmo e repetido impulso. Mas depois lembro-me do aforismo sábio de Pitágoras: «Se o que fores dizer não for mais belo que o silêncio, então cala-te». E prefiro assim. Mais vale que fique por onde anda: para o diabo que a carregue!… De qualquer forma, nunca teria nada de belo para dizer. Nada de belo que fizesse, afinal, valer-me a canção.

play_346.gif Ive Mendes – “Não Vou Fugirnota_animada1.gif

Notícia | Escrever teu nome sobre a água

Julho 26, 2006

aguaimpress1.jpgEsta manhã descubro uma novidade maravilhosa. Desde criança que me recordo de guardar em segredo este estranho desejo impossível de escrever sobre a superfície da água. Alguma coisa. Para alguém. Ou então qualquer coisa para ninguém. Escrever só por escrever. Na água. Por prazer. Só assim. Nada mais.

Pois bem, parece que os cientistas japoneses estão a trabalhar em uma tecnologia para escrever e desenhar na água. Por enquanto, conseguiram obter caracteres básicos que ficam visíveis por três segundos: o AMOEBA (Advanced Multiple Organized Experimental Basin) já é capaz de mostrar todo o alfabeto romano, assim como alguns caracteres kanji, de origem chinesa e adoptados no Japão.