
Foto: Mark Vans
Sim, confesso: fica-me só um fio de remorso pequeno e escuso, porque já nenhum arrependimento me mata. E, então, olho-te de frente, dentro do abraço e sei que não poderás jamais supor que também tu (até tu!), hoje em dia, estás entre os sujeitos da minha frase, aqueles que te digo que uso quando se fazem precisos, sem grandes pudores ou dilemas e pouco ou nenhum dó para com as mazelas que lhes possam assomar a pele e a alma, por minha causa. Porque cada um escolhe o lugar onde fica pendurado e o teu (até o teu!) está hoje entre as mulheres que correm para mim quando estalo os dedos e digo: seja, faça-se a mágica, neste instante! Faça-se esta noite, este serão, estes minutos, este colchão. Porque quero, peço e posso. Porque sim. Porque não quero saber. Porque logo se vê e o que importa é que nada muda ou só muda se eu quiser, se me agradar, se me for suficiente, se me agradar, se me valer. Porque a vida segue e continuo a ter sempre tudo o que já tinha. Porque nada fica em perigo, nada corre risco, nada fica ameaçado, nada que me seja preciso, nada que tenha conquistado, nada que seja meu. Desculpa não to dizer explicitamente, mas é que tenho pavor das palavras que se seguem, daquelas que ficam depois a impor-se diante do peito rasgado dos outros, e eu fiquei sem pachorra para soprar feridas que ardem. Impacienta-me demais, cansa-me demais, entedia-me demais. E acontece que, além do mais, me parece desnecessário colocar em palavras mais claras aquilo que é totalmente óbvio: se quiseres deixar de lado o capricho e a vaidade que te toldam a real percepção da configuração das coisas. Peso, simensão, prioridade, importância e lugar, incluídos. É escusado que me esforce: basta que queiras olhar de frente e com verdade e perceberás sozinha e sem muita dificuldade porque ainda te chamo e te fecho nos braços, de vez em quando. Estás, pois, na corda-bamba das mulheres que me apetecem só de vez em quando, ainda que o teu lugar seja mais ao centro: aí onde te trago pendurada. Até, quem sabe, enxugar o passado e o guardar enfim, já sem ruga, prega ou vinco, num fundo de armário – entre todas as roupagens que já não visto porque deixaram de me servir e, de qualquer modo, não me fazem mais bela do que já sou: nua.